Os meses de Maio e Junho fazem normalmente a separação entre as águas frias de inverno e as águas quentes de verão.
Este é um período crítico no que respeita à definição daquilo que será a nossa época de pesca até final do ano, porquanto é a porta de entrada para muitas espécies que connosco irão ficar até Novembro, Dezembro.
O ciclo é conhecido, algumas das espécies mais sensíveis a águas quentes saem, enquanto outras, mais adaptadas a cálidas temperaturas, entram e por cá irão permanecer durante algum tempo.
Mantemos ao longo de todo o ano uma base de peixes perfeitamente capazes de suportar uma amplitude de temperaturas “atlânticas”, grosso modo entre os 10/ 12 ºC e os 21/23ºC, e adicionamos aqueles que nos visitam a espaços, os nossos “peixes de verão”.
Normalmente é assim, mas este ano ainda não foi.
O ano de 2026 tem vindo difícil, conturbado, com cheias que mataram pessoas no nosso país, com um longo período de ventos e ondas persistentes, meses em que não pudemos sair ao mar.
Sofremos com isso, com uma intermitência de períodos “quase bons” com outros em que nos sentimos completamente desamparados pela sorte.
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| A temperatura da água, do ar, as nuvens, os ventos, a vida dos peixes, ...tudo está ligado. |
Os peixes são muito sensíveis a pequenas variações de temperatura, ou não estivessem imersos em água sendo esta a determinante directa da sua temperatura corporal.
Um simples grau faz-lhes muita diferença e daí a sua luta constante por um posicionamento mais favorável, um local que lhes garanta a maior estabilidade possível.
Por vezes isso significa afundar algumas dezenas ou mesmo centenas de metros. Tudo muda: se hoje os temos à mão de pescar, amanhã não estão lá e não pescamos nada.
E afinal o que pode influenciar a temperatura, que forças são essas que nos podem ajudar ou prejudicar na nossa pesca, que fazem com os peixes hoje estejam aqui e amanhã ali...?
Temos dois factores decisivos: a corrente do Golfo, a dita “Gulf Stream”, uma corrente marítima potente, rápida e quente do oceano Atlântico que tem origem no Golfo do México.
Influencia-nos mas não passa diretamente na costa de Portugal continental, mas sim ao largo.
A norte da latitude 45ºN, esta corrente quente divide-se, dando origem à Corrente do Atlântico Norte e à Corrente dos Açores.
Ao largo da costa portuguesa, o ramo leste deste sistema transforma-se na Corrente de Portugal, uma corrente mais fraca e fria que flui para sul ao longo da Península Ibérica.
Algo como isto:
Esta corrente estima-se que passe, em média, a cerca de 300 km para além da nossa plataforma continental.
Traz-nos alguns benefícios directos, um clima mais ameno, mais temperado, invernos não tão rigorosos quanto aquilo que acontece em latitudes idênticas, o caso de Nova Iorque.
Para que possamos dispensar casacos, luvas e gorros de lã, contamos com ela. Pela perspectiva de quem está em terra, é assim.
Mas, por estranho que pareça, a temperatura da água na costa portuguesa não depende tanto dessa corrente, é sim influenciada pela nortada, o vento norte que nos traz águas frias vindas das profundidades.
Chama-se a isso de “ressurgência” e, dado que nos coloca na nossa placa continental água muito rica em nutrientes, podemos ter mais fito e zooplâncton disponível.
Este fenómeno de abundância de alimento atrai muitas espécies de peixes até nós e por isso mesmo enquanto pescadores beneficiamos de uma melhor pesca.
Há pois duas grandes movimentações anuais de águas, estando neste momento a ocorrer a chegada das águas quentes.
Aos nossos olhos, o primeiro sinal de que algo está a acontecer é o surgimento de tufos de plantas aquáticas a flutuar, os sargaços.
Debaixo deles aparecem os pampos, os lírios, e uma miríade de pequenos peixes juvenis que se fazem transportar por essa corrente.
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| Setúbal vista a partir de uma embarcação ao largo de Sesimbra: a minha. |
Adoro esta foto acima!
Não temos muita volta a dar: para aqueles que preferem ficar na cama mais umas horas, o cenário que irão ver será diferente.
Mas para os outros, os que arriscam sair de casa bem cedo, há um mundo de luzes, contrastes, brilhos, de imagens inesquecíveis.
E há também pesca! O período do raiar do dia, quando a luz começa a surgir no horizonte, é um momento mágico, em que tudo pode acontecer.
Tenho uma quantidade significativa de peixes troféu feita neste período em que a luminosidade é escassa, mas em que os peixes diurnos já estão a procurar comida. Chegar cedo aos pesqueiros nunca foi mau para um pescador, as oportunidades estão lá, à mão de quem tem a coragem de abandonar uma cama quente.
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| O meu amigo Carlos a começar o dia com uma bica. |
Aquilo que vos queria deixar hoje é a noção de que as pescarias que fazemos dependem em absoluto das condições de mar que os nossos peixes têm para desenvolverem a sua actividade.
Se essas condições forem muito ruins, eles podem chegar a passar alguns períodos sem comer.
E isso, por razões óbvias, afecta os pescadores.
Boas pescas, amigos!
Vítor Ganchinho
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