Imaginem uma aranha.
Uma grande e gorda aranha, imóvel, quieta, ao lado da sua teia.
Paciente e ao mesmo tempo tensa o suficiente para disparar direito a um incauto insecto que tem o azar de bater no emaranhado de fios que preparou.
Um robalo também é isto.
Todo ele se revela quietude e calma, mas também prontidão e capacidade de explosão imediata.
A sua imobilidade, o seu olhar fixo e penetrante, secundado por um aparente alheamento, evocam nas suas presas uma estranha sensação de paz, de presumida confiança.
Os peixes pequenos sabem que ele está ali, sabem que ele é tremendamente mortífero, mas não lhes parece que queira fazer algum mal.
Os jovens são inocentes...
Por definição, os predadores querem sempre fazer mal.
E o que vem a ser um predador, afinal?
Falamos deles com alguma deferência e respeito.
Atribuímos-lhe a qualidade de serem capazes de caçar e consumir outros animais marinhos, e isso, aos nossos olhos, já os torna merecedores de um regime de excepção quando comparados com outros.
Diríamos estarem mais próximos de nós, também predadores assumidos.
Nós matamos para comer, tal como eles.
Mas afinal quais são os peixes que não são predadores? Que qualidade é essa que tanto veneramos, a ponto de os considerarmos “pares entre pares”?
Como uma aranha que espera a vibração da teia, eles esperam.
É um convite.
Como alguém que elabora cuidadosamente um bonito nó de forca e espera por um incauto que o enfie pelo pescoço…
Projectar todo o peso do seu corpo para a frente e abrir a enorme boca é algo que um predador faz em milésimos de segundo. Como sempre fizeram, como estão geneticamente preparados para fazer.
Por vezes os acontecimentos desenrolam-se depressa demais. De tal forma rápido que os nossos olhos, o nosso consciente, não tem tempo para os processar.
Quando analisamos um ataque de um robalo em câmara lenta, parece-nos impossível que possa existir aquele tipo de coordenação psicomotora.
Tudo sai perfeito, cada milímetro daquele corpo faz exactamente o que deve fazer para conseguir um resultado final positivo.
Velocidade, precisão e ...força!
Para a descuidada presa, são sempre jogos de sombras. Algo que se vê, e algo que já não se vê...
E no espaço de um milésimo de segundo, tudo acaba nas mandíbulas de um corpo alongado, fusiforme, construído para velocidade e arranques rápidos.
O robalo aspira a presa, não a morde. De resto não tem dentes propriamente ditos, tem sim uma placa rugosa que lembra vagamente...lixa.
Eurialino (suporta grandes diferenças de salinidade e por isso pode entrar nos estuários com grande percentagem de água doce) e euritérmico, resistente a grandes variações de temperaturas na água que o envolve, um robalo está equipado de série com muitos argumentos que o tornam um caçador bem sucedido.
Poderíamos pensar que um robalo grande terá mais dificuldade em caçar, por ter menos mobilidade.
Nem por isso: as suas presas também são maiores, mais pesadas, logo a sua mobilidade também é mais reduzida. É poder contra poder e quando é assim,....o robalo ganha!
Robalos adultos, caçadores solitários, sabem onde encontrar presas e como as podem conseguir de forma mais fácil. Tiveram tempo para aprender a fazer.
Predadores preferencialmente nocturnos, caçam às horas de menor exposição solar, o nascer e pôr do sol. Menos luz, mais sombras, maior proximidade ao alvo.
De facto, é mais fácil vê-los nos seus postos de caça habituais ao início ou final do dia, aproveitando quaisquer réstias de luminosidade, tirando partido da sua excelente visão.
Caçam utilizando a cobertura da escuridão, ou a turbidez da água para chegarem às suas vítimas. Exploram as dificuldades que estas possam denotar ao nadar em condições de mares agitados.
E nós sabemos que onde há condições para isso, uma vaga possibilidade de acontecer uma fragilidade a uma presa, ...está um robalo.
Nesta altura do ano, os nossos predadores favoritos já despertaram de um longo período de letargia.
Estiveram fundos, a poupar forças, a recuperar do esforço feito em Dezembro e Janeiro nas suas azáfamas da reprodução.
Este é o tempo em que já subiram, voltaram aos postos de caça, e querem alimentar o corpo com a biomassa de alevins disponível nos baixios. Há muito peixe miúdo.
Moluscos, caranguejos, pequenos peixes, tudo lhe serve para engordar o esquálido corpo.
Apresentaram até Abril / Maio uma volumosa cabeça para um franzino corpo esguio que só queria dizer uma coisa: fome.
Os robalos agora estão em fase de engorda, estão mais agressivos, batem com a força que têm nas nossas amostras.
Se repararem bem vão notar que na primavera não desenvolviam a força habitual nestes peixes: estavam fracos, precisavam de tempo para voltar a meter músculo. E agora está tudo bem de novo.
Temos os nossos robalos de volta: agressivos, fortes e com ...fome.
A primavera foi um tempo de clemência, de os libertarmos, de darmos a possibilidade a um faminto peixe de poder recuperar a sua forma física.
Nessa altura pescávamo-los com um pouco mais de facilidade: acorriam desabridos a enganos de superfície, os poppers, os passeantes, e a algum vinil lançado no sitio e tempo certo.
Agora juntam a essa sofreguidão de caçadores a força. Mordem um pouco menos mas quando o fazem provocam ataques cardíacos.
Para um robalo, este tempo que vivemos hoje é de aspirar comida, de ir pelos alevins que pululam pelos baixios a tentar ser gente.
Um predador será sempre um predador, e dos robalos mais pequenos aos maiores, a ordem é a mesma: meter comida no estômago.
Os robalos concentram-se agora em cardumes de peixes emparelhados, com tamanhos e pesos muito similares. Mais peixes juntos quanto menor o tamanho, a caçar em grupo, como uma matilha o faz quando precisa de encurralar a presa.
Os robalos grandes, esses são e serão sempre lobos solitários, poderosos, fortes, muito sabedores daquilo que devem fazer para encontrar comida.
Os anos deram-lhes a experiência necessária para saberem onde e quando podem encontrar alimento fácil.
Têm rotinas que cumprem todos os dias às mesmas horas.
Visitam cardumes de pequenos peixes em locais pré-determinados, comem e seguem para um merecido descanso. Depois, quando a fome aperta, voltam ao mesmo local.
E a presa morre, sempre a acreditar sempre que não há perigo, que aquele ser que está à sua frente apenas tem boas intenções...
Será cada vez mais difícil encontrar as grandes concentrações de robalos, cardumes com muitas centenas deles, que eu vi, quer no Algarve quer na Nazaré.
De alguma forma fico feliz por isso.
O risco para a espécie de ver um desses ajuntamentos de peixes reprodutores ser cercado com uma rede é imenso, e é até bom que não aconteça.
Pode acontecer que um só lance de rede faça perder ...toneladas de robalos.
Eles que se separem, que nós não nos importamos de os pescar...um a um.
Vítor Ganchinho
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