Por vezes, quando pescamos em grupo, acontece termos uma percepção da realidade que não coincide exatamente com a de outras pessoas.
Não se espantem se por acaso alguém que saiu à pesca convosco nesse dia, esteve a um metro de distância, ombro com ombro, e viveu de perto precisamente os mesmos acontecimentos, tiver no final do dia uma versão diferente da vossa.
Parece-nos absurdo a nós que outros pescadores tenham uma visão diferente dos factos, porque tudo se passou ali, mesmo à frente dos olhos de todos.
Mas afinal...é assim mesmo. Pode haver diferenças de leitura entre pares e nada há de estranho ou errado nisso.
Nem sequer se trata de inventar mentiras, a pesca apenas foi vista por diferentes perspectivas, por pessoas que viveram o que se passou de forma diferente.
É verdade que a nossa versão, por ser a nossa, irá sempre parecer-nos a mais correta. Mas existem outras.
Muitas pessoas, com um passado de pesca que remete para outros locais, outros peixes, ou por nem serem pescadores, ou por terem vivências e experiências de vida diferentes, olham para o mesmo acontecimento e de facto, não observam o mesmo.
Poderia mesmo afirmar, sem receio de errar, que cada mente organiza os factos à sua maneira, criando histórias diferentes baseadas num facto único.
Pensem nisto: cada pessoa é um processo de aprendizagem distinto, e dificilmente haverá duas que tenham sequer de perto a mesma experiência de vida.
Por isso não espanta que percebam as coisas de forma diferente.
Na verdade estamos ao lado uns dos outros, mas a ver filmes diferentes.
Dou-vos um exemplo prático: tenho amigos que vão comigo à pesca e toda a sua atenção repousa naquilo que de extraordinário acontece.
Na maior parte dos casos, fixam-se em factos aleatórios, como o peixe que escapa porque desferra, o que rebenta a linha, ou aquele que já estava na rede e conseguiu saltar fora e escapar.
Para eles, aquilo que conta é o fantástico da situação, a espuma no bordo do copo, o que é visível aos olhos.
Para mim, eles estão tão focados na história, nas peripécias que irão contar aos outros que deixam passar o facto de aqueles peixes daquela espécie estarem a comer àquela hora, com aquela força de corrente, aquela maré.
E eu registo tudo isso, todos os detalhes, menos os que eles valorizam,….para mim conta o artificial, o peso, a cor, a profundidade a que mordeu, a temperatura da água, etc, mas não que o peixe escapou. Porque esse é um facto aleatório.
O que é concreto é que havia um peixe interessado em comer, naquelas condições de mar.
Isso é aquilo que permite replicar a captura, repeti-la, não o facto de o peixe ter escapado.
A história eu faço-a depois, e escrevo-a, mas naquele momento interessa-me sobretudo aquilo que é concreto, objetivo.
Isto acontece mesmo.
E, para além de diferentes formas de ver o mesmo, também acontece que alguém se deixe enganar por detalhes que não escapam ao pescador mais experimentado.
Há pessoas que criam para si próprias uma realidade alternativa, virtual, em que se imaginam a pescar peixes fantásticos, grandes troféus.
Nem preciso de vos lembrar que existem pessoas que têm lutas fratricidas contra peixes imaginários, espumam da boca, fazem um esforço sobre-humano e no fim apenas estavam a lutar contra uma rede, ou um anzol preso na rocha.
Tenho um amigo que durante uns dez minutos mediu forças com algo que puxava linha, ele recolhia, voltava a perder linha, e jurava não querer desistir daquele peixe por nada deste mundo.
_ “Olha o gajo!! Já está a querer arrancar de novo!”...dizia ele.
Confesso a minha relutância em ter acabado com aquilo, mas via-o já muito depauperado de forças, exausto, a transpirar rios de suor da testa.
Tive de lhe explicar que o barco sobe com a onda, estica a linha e por isso leva algum fio do carreto, e a seguir o barco baixa na cava da onda, (e aí ele recolhia linha e achava que estava a recuperar...que o peixe estava a ceder).
No fim, mostrei-lhe que era apenas uma simples prisão no fundo.
Ficou decepcionado...com o pressuposto peixe e ...comigo, que lhe estraguei o sonho.
Infelizmente vivemos todos num mundo real e as capacidades e oportunidades são apenas reais.
A realidade física não permite mais que aquilo que nos é dado a ver no fundo do balde: há peixe ou não há peixe.
Algumas pessoas atribuem à má sorte os resultados menos positivos, mas por amor de Deus (!), basta de cruzar os dedos quando passa um gato preto, não partir espelhos, não passar por baixo de escadas, etc!
Isso não nos faz pescar melhor.
Leiam mais, procurem informação, e sobretudo pesquem mais.
O mar ensina-nos.
Vítor Ganchinho
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