SE A COROA NOS SERVE... SOMOS REIS?

A maioria de vocês já ouviu falar de um amigo meu, o inventor de uma técnica de pesca chamada de “slow-jigging“.
Refiro-me a Satoh sensei, conhecido pelo senhor Sato.

Numa das longas conversas que tive com ele, dizia-me a dada altura que a Shimano lhe pede para que ele afine um ou outro modelo de carreto. E ele mostrou-me como o fazia.
Tenho de vos confessar que Satoh sensei é muito picuinhas, muito dado aos detalhes.
Para ele um milésimo de milímetro é um espaço enorme, onde cabe tudo: vai do desleixo à precisão extrema.
Um carreto ajustado por ele fica muito melhor do que quando sai da fábrica.
Eu percebi isso quando testei a diferença entre ambos.
Sente-se.


A dada altura de um dos nossos encontros, em casa dele, pediu-me algo que me pareceu absurdo: descascar uma tangerina.
Sem eu saber, estava a fazer-me um teste de sensibilidade. 
E, um pouco mais longe, a ver qual dos meus hemisférios cerebrais era o responsável pela execução de algumas tarefas na pesca.
Porque sou destro, tenho naturalmente mais força na mão e braço direitos. O braço e a mão esquerda eu guardo-os para trabalhos de precisão.

Por isso peguei na tangerina com a mão direita, (trabalho de força), espetei a unha na casca com a mão esquerda no sentido de criar um ponto fraco, e a partir daí fiz saltar a pele, (trabalho de precisão).

Os olhos amendoados dele fixavam-me sem piscar. Estava atento a cada detalhe, cada sinal meu.
O seu grau de sabedoria é de tal forma elevado que, é minha convicção, aqueles que estão a seu lado apenas poderão aspirar a entender uma pequena parte daquilo que ele produz em termos de intelectualidade.
Pensa a pesca muito para além daquilo que um pescador comum o faz.
Satoh sensei é rei, e não é por a sua coroa servir na cabeça de outros que também esses serão reis.


Disse-me ele: “És obviamente destro, pelo que se mudasses de mão directora a pescar irias sofrer muito para te adaptares.”

Não é impossível que isto aconteça, muitas pessoas têm acidentes de viação ou de trabalho e ficam amputadas de um braço e não desistem de pescar por isso. Mas são obrigadas a reajustar os seus gestos, a criar novos movimentos. No fundo a aprender a executar de novo, obrigando o seu cérebro a transferir tarefas para áreas que anteriormente ao acidente estavam reservadas para outros trabalhos.
Não deixa de ser interessante explorar esta questão.

Poderíamos complicar isto um pouco mais, recorrendo à figura dos destros e canhotos, pessoas que executam tarefas com mãos diferentes entre si, mas até isso é simples de explicar: a maioria das pessoas é extremamente destra ou extremamente esquerda, canhota, portanto com um hemisfério cerebral bem definido, sendo raros os casos em que a simetria perfeita dá para executar bem com qualquer das mãos.

Eu só conheço uma pessoa assim, o meu amigo José Rodrigues. 
É-lhe indiferente por ter uma simetria cerebral perfeita.


Temos enquanto humanos um factor que nos diferencia dos outros primatas, o facto de termos um polegar oponível que consegue tocar na ponta de todos os outros dedos. E com intensidades diferentes.

Isso é maravilhoso porquanto nós dá a possibilidade de tirarmos uma pestana do olho, um trabalho altamente complexo do ponto de vista da motricidade, mas também de pegar num martelo com a mão e partir violentamente a casca de uma noz, ou até de um coco. 
Escrever com letra miudinha ou …pregar um prego.

Somos até capazes de o fazer de uma forma precisa e altamente dinâmica ao mesmo tempo, por exemplo quando apanhamos uma mosca pousada no nosso joelho.
Alguém imagina a coordenação psicomotora que isso implica?!

Na pesca isso é extremamente útil já que tanto somos capazes de desfazer um nó no nylon, ou empatar um anzol, (trabalho de precisão), como somos capazes de aguentar a cana na mão quando um peixe puxa forte, (trabalho de força).

Este é um aspecto que os meus leitores pescadores raramente valorizam, o facto de serem capazes de enfiar a sua linha multifilamento pelos passadores da cana, desfazerem um nó, e ao mesmo tempo serem capazes de carregar a geleira quando ela está cheia de peixe…

Com as mesmas mãos.


Vítor Ganchinho


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