ROTURA DE UMA LINHA...

Saí cedo de casa.
Entrei no carro, dei à chave e conduzi até à Marina de Sesimbra.
Noite cerrada, cruzei-me com meia dúzia de condutores bêbados, saídos de buracos infectos onde se vende álcool até que o último desista.
A carrinha de distribuição de pão cumpria a sua madrugadora rotina de todos os dias.
Caminhei sozinho pelo passadiço da marina, decidido, focado, com uma cana de jigging numa das mãos.
Na outra mão uma mala pequena com alguns jigs.
Só isso e aquela sensação de ser um fugitivo evadido da prisão, alguém que deixava para trás os problemas e ansiava por liberdade.
A navegar somos verdadeiramente livres, temos uma bússola e podemos marcar na agulha o rumo que quisermos.


O risco branco da luz da lua entrava desabrido pelos meus olhos de sono. Ainda era cedo e o corpo pedia mais descanso.
Tinha pescado no dia anterior...
Mar liso deixa navegar rápido e eu tinha pressa, tanta quanto a lua em desaparecer de vista.
Nestas noites de lua cheia, redonda, de um brilho ofuscante, não consigo deixar de pensar que um dia alguém vai ter de salvar aquele imenso disco branco de morrer afogado. Salvar a lua antes de ela cair no horizonte, de a perdermos na profundidade do mar.
Marquei um ponto no GPS e conduzi o barco por essa linha, a direito, como um autómato, sem querer ver boias ou algo mais à minha frente.
Sabia que o dia iria chegar em breve e, como diz Sérgio Godinho, aos primeiros raios de sol “já tudo pode ser aquilo que parece, na Lisboa que amanhece”….
O peixe tem fome e quer comer, logo que a luz diurna lhe chega.


Daí a pouco era dia, domingo de manhã, 6.15h e eu estava no pesqueiro.
Olhei em redor e não havia vivalma na minha zona de pesca. Gosto assim.
Quando há gente não paro, sigo para outro lado.
A sonda dizia-me que havia peixe.
Aos primeiros lances senti que lá em baixo havia peixe grande, a morder com força.

Percebi o peixe um pouco acima do fundo, a alguns metros das estruturas de rocha que normalmente lhe servem de abrigo.
Nestes casos, isso é um sinal claro de que o mar está sem actividade, sem ondas, demasiado calmo.
Mar calmo demais não me ajuda na pesca mas eu não o posso mudar, aceitamo-lo como ele se mostra.
O peixe não tem interesse em rasar o fundo porque não há alimento disponível, não há nada desenterrado pela força das ondas. E sobe alguns metros.
É muito natural que nestes dias de calmaria os cardumes se desloquem para os bordos da pedra, que se afastem destas algumas dezenas de metros ou até arrisquem uma passagem larga pelos canais de areia, à procura de comida.
Pequenos cabozes, caranguejos, minúsculas lulas, e as muito apreciadas galeotas, um pequeno e esguio peixe que faz as delicias dos pargos e sobretudo dos robalos.

Uma galeota, um manjar dos deuses para os peixes predadores.
Muitas amostras em vinil à venda nas lojas são baseadas neste tipo de peixe de areia que obriga os predadores a sair da pedra...

Pescar na areia é muito menos monótono do que parece, se soubermos onde e como procurar.
Para quem não está habituado a fazê-lo, é desesperante. A sonda parece não mostrar mais que uma linha contínua de areia, uma linha de nada.
Mas não é assim.
Para quem se inicia nas lides, pode começar por procurar a meia água os cardumes de comedia: as sardinhas, os carapaus, as cavalas, etc.
A partir daí, e se estiver muito atento à leitura de sonda, vai passar a encontrar junto a estes cardumes uma ou outra mancha de maior densidade.
Nas sondas a cores esses vultos aparecem a laranja carregado ou a castanho, os mais densos.
Esses são os predadores que valem a pena, os pesos pesados do mar. Grandes peixes passam algum do seu tempo a vasculhar os areais à procura de alimento de boa qualidade.
Nós não sabemos o que procuram, mas eles sabem o que fazem porque eles sabem mais que aquilo que sabemos.
O mar, para nós, tem sempre muito mais perguntas que respostas.

O que nos une ao peixe é uma linha absurdamente fina. Nem sempre a sua resistência é a suficiente.

Quando os encontramos, peixes de peso, grandes, fortes, a nossa habilidade para lhe fazermos cair o jig por perto é determinante.
Há que calcular o tempo de descida, a deslocação que a corrente lhe irá imprimir, a profundidade, e com isso, o peso necessário para acertar na mouche.
Sabemos que fomos bem sucedidos quando sentimos uma pancada forte na cana.
Um predador ataca com tudo o que tem de velocidade, fome e força.
Se fizemos tudo bem feito, se estávamos concentrados e atentos à descida do jig, o peixe ferra.
A partir daí, o trabalho é mais de cérebro que de braços.
Não deixar que as emoções tomem conta de nós, que o nervoso nos limite a precisão dos movimentos.
Esse é o momento de ser bom, ser suficientemente bom para tirar partido de um equipamento de pesca, o qual tem tudo o que é necessário para trazer o peixe acima.


Se fomos cuidadosos na escolha da cana, se comprámos a linha atendendo à sua qualidade e não ao seu preço, o peixe é nosso.
Damos tempo porque temos tempo.
Ter pressa quando chega este momento é negar a verdadeira essência da pesca: desfrutar de um bom combate, não tentar antecipar o seu fim.
Porque quem tem pressa a mais arrisca um fim prematuro, uma rotura de linha.
E se isso acontece, morremos ali, no meio do mar, do azul, do nada.
Quando a linha rompe, morremos um pouco com ela.


O sentimento de frustração não tem igual porque sabemos que a culpa foi nossa e de mais ninguém.
Para o peixe é a fuga com um anzol cravado, para nós é muito pior que isso: é morrer de desespero e raiva.
Mas recuperamos, ao fim de alguns minutos respiramos fundo e já estamos a pescar de novo.
Já a outra morte deveria preocupar-nos ...menos.
A nossa morte é algo que não nos acontece a nós, acontece aos outros, já que para nós ela é absolutamente indiferente.
Morremos para os outros.


Vítor Ganchinho


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