A implementação de reservas marítimas nacionais é algo a que nos habituámos com a passagem do tempo.
Há algumas, ao longo da nossa costa e podemos concordar com elas ou não, pensar que são de mais ou pelo contrário, de menos.
Quando jovem, a mim pareciam-me um abuso, uma proibição dos meus direitos de utilização do mar. Do mar de todos nós e também, por consequência, do meu mar.
Perdi o direito de ir visitar os meus buracos de abróteas, safios, sargos e robalos. E fiquei triste por isso, deixei inclusive de mergulhar.
Na altura, o sentimento de frustração e impotência deixou-me devastado.
![]() |
| Manuel Gallego, um cliente GO Fishing Portugal, de Espanha, com uma magnífica dourada de 7.505 kgs. |
Os anos deram-me mais sabedoria, horizontes mais largos, uma forma diferente de ver a questão das reservas.
Hoje, com 63 anos digo-vos que sou um defensor convicto da necessidade de criação e manutenção dessas reservas, e entendo-as como algo não só inevitável, mas, mais que isso, muito útil.
O peixe tem de ser protegido, poupado, defendido de todos aqueles que o querem massacrar até não haver mais, até à extinção absoluta.
As reservas podem ser e quero acreditar que são, uma forma de criar espaços de segurança para todos os seres que fazem parte do nosso catálogo de pesca.
Os peixes e os mariscos de que esses peixes se alimentam.
![]() |
| Ponta do Cabo Espichel, manhã fresca de maio de 2026. |
Alguém se atreve a julgar ser possível que um pescador profissional, ou um pescador lúdico, parem de pescar caso possam fazer mais capturas?
Essa é a questão.
Não temos essa mentalidade, e não a vamos ter nas próximas gerações.
Os espanhóis têm uma frase que resume tudo isto: “Un día de gran abundancia y veinte días de hambre”.
Por palavras nossas, um dia de fartura e vinte dias de fome. Pescamos tudo o que pudermos num dia, e nos dias seguintes se verá.
A seguir, reclamamos de haver pouco peixe, que assim não pode ser, que não vale a pena pagar a licença de pesca.
Sim, esses, os que reclamam, são os mesmos que a seguir irão pescar sarguinhos de 12 cm e convictamente assumem “o que não dá para grelhar dá para fritar”...
Essa gente, que não pescadores lúdicos sérios, pesca, por exemplo, dentro do estuário do Sado, e orgulha-se conseguir baldes cheios de douradas de 14 cm.
Projectos de douradas!! As douradas que não iremos pescar quando adultas, fortes, capazes de se defender.
Quando falo de douradas, falo-vos disto que podem ver abaixo!!
![]() |
| Com a abundância de alimento que temos na costa, e caso pudéssemos dar tempo de vida aos nossos peixes, muitos seriam assim, como este. |
A questão que se coloca é mesmo a fiscalização das nossas reservas.
Se não for feita, então as reservas passam a ser coutadas privadas de alguns. E isso significa tirar a muitos para dar a poucos!
Dessa forma, as reservas não deixam de ser mais que lugares onde alguns “pseudo-pescadores” vão para fazer peixes ou outras coisas, ...para venda.
E se eu vejo aquilo que se passa, outras pessoas porventura mais “dedicadas” à função deveriam também ver.
Não me parece que isso esteja a acontecer.
E voltamos à vaca fria: se as reservas existem e são respeitadas por uma maioria, como devemos reagir quando encontramos gente a usufruir ilegalmente daquilo que é um património de todos?
![]() |
| Esta gente que recolhe perceves para vender pode não ter alternativa de vida. Mas ...e os peixes têm alternativa de alimento? |
Saio cedo para a pesca.
Frequentemente deparo com gente a pescar no Cabo Espichel. Uns tentam os robalos, outros tentam a chumbadinha aos sargos na espuma, ou ao fundo, o que morder, o que calhar...
A primeira reacção à aproximação do barco é a fuga rápida, cordas acima, para um lugar afastado da linha de água.
A seguir, e percebendo que se trata de um mero barco de pesca, é a de continuarem a gozar da sua impunidade, descem de novo e continuam a pescar.
Não seria difícil esperar por eles um pouco acima, ...e perguntar se têm alguma licença especial para pescar na Reserva Marinha Prof. Luís Saldanha.
É que pressupostamente ninguém tem...
![]() |
| Excelente trabalho! O enrolamento do cabo é uma cortesia para com os outros utentes da marina, para que não tropecem nele. Muito bom! |
Também a apanha de mariscos é algo que não deveria ser feito por quem não se encontra devidamente credenciado para o efeito.
A apanha de perceves é uma actividade legal mas está regulada, limitada em termos de quantidades, sujeita a regras rigorosas de licenciamento e sustentabilidade geridas pela DGRM (Direção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos) e pelo ICNF.
Para que a atividade seja legal, devem ser cumpridos os seguintes critérios:
1. Licenciamento
• Apanha Comercial: Requer uma licença profissional específica e está limitada a um número restrito de apanhadores.
• Apanha Lúdica: Exige uma licença de pesca lúdica válida.
2. Limites de Captura
As quantidades permitidas variam conforme a modalidade e a localização:
• Apanha Comercial: Geralmente até 20 kg diários por mariscador licenciado.
• Apanha Lúdica: O limite é muito inferior, normalmente de 2 kg por dia para consumo próprio.
3. Períodos de Defeso e Restrições Locais
Existem épocas em que a apanha é proibida para permitir a reprodução da espécie:
• Período Geral: Frequentemente entre 15 de setembro e 15 de novembro (pode variar anualmente por portaria).
• Reserva Natural das Berlengas: Proibição específica de janeiro a março e de agosto a setembro.
• Costa Vicentina: Período de defeso costuma estender-se de setembro a dezembro.
Nós temos leis, .....a questão é o que fazemos com elas.
Vítor Ganchinho
😀 A sua opinião conta! Clique abaixo se gostou (ou não) deste artigo e deixe o seu comentário.




