Hoje vamos aprender a olhar para a água do mar e perceber onde estão os peixes.
Já aqui vos trouxe alguma informação técnica sobre óculos de sol polarizados, e mostrei a sua influência positiva no processo de pesca.
Conseguir ver para além dos reflexos de sol é importante.
Diria mais: uma das mais importantes armas de um pescador de spinning é a sua percepção visual periférica.
Ou seja, podemos e devemos treinar a nossa visão periférica para identificar movimentos de peixes que se alimentam activamente à superfície, ou logo abaixo dela, porque isso vai dar-nos mais peixe ao final da pescaria.
Enquanto pescam, há pessoas que não conseguem ver as breves e fugazes movimentações dos predadores, pelo canto do seu olho.
Serão mesmo capazes de as negar, até que nós lhes chamemos a atenção, apontando para elas.
Robalos, anchovas, atuns sarrajões, peixe agulha, sardas, cavalas, lírios, etc, todos estes peixes caçam activamente à superfície, se por lá houver comida.
Quando estão “bem dispostos” a comer, e quando se sentem seguros para isso, atacam na linha de água e provocam respingos de água visíveis a centenas de metros de distância.
E todavia, muita gente não vê isso, porque não sabe ver. Não sabe sequer o que é aquilo que desfila frente aos seus olhos.
No entanto, sempre que um ou vários predadores atacam isca viva junto à superfície, isso significa que a oportunidade de pescar existe!
Potencialmente esse é o melhor momento para lançar uma amostra porquanto ele revela onde os peixes estão activos.
Com isso temos tudo: peixe localizado, peixe com fome, peixe a morder. Falta o quê?!
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| Temos tendência para focar um objecto, e a descurar tudo o resto. Ao olharem para esta foto, da autoria do meu amigo Carlos Campos, acontece-vos isso.... |
Fazer cair uma amostra no local certo não pode ser nem é difícil. Afinal de contas, um pescador de spinning lança muitas centenas de vezes num dia de pesca, e muitas centenas de milhares de vezes ao longo da sua vida.
Se ao fim de tudo isso não é capaz de “espetar” a amostra no sítio certo, lá onde o predador está a morder no peixe miúdo, então nada vale.
Mas não ficamos por aqui, porque a questão não é só lançar a amostra.
Tem de saber que amostra e como a apresentar ao peixe.
Mais que isso, tem de saber “ver” aquilo que os seus olhos veem.
É incrível como muitos comportamentos alimentares dos peixes passam despercebidos aos pescadores durante uma sessão de pesca. Porque não utilizam a visão periférica.
E o que é isso?
A visão periférica é o que vocês conseguem ver fora do centro do vosso olhar.
O centro do nosso olhar é chamado de visão foveal, uma pequena área no centro da retina e, basicamente, quando olhamos diretamente para um objeto distante, usamos essa nossa visão central (foveal) para focar esse objeto.
Esta região é responsável pela visão de alta resolução e pela percepção de cores, permitindo atividades de detalhe como a leitura e o reconhecimento facial.
Funciona da seguinte forma: elevada concentração de cones. A fóvea está repleta de fotorreceptores chamados cones, que necessitam de boa luminosidade e fornecem imagens nítidas.
Nesta área, as camadas celulares da retina afastam-se, permitindo que a luz incida diretamente sobre os cones sem obstáculos, maximizando a acuidade visual.
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| Este é o mar que permite ver os robalos a “picar” a superfície... |
Todo o resto é sua visão periférica.
Os números variam, mas, de acordo com estudos feitos, a visão periférica de um indivíduo estende-se a cerca de 167 graus com a cabeça e os olhos fixos.
Se o indivíduo girar a cabeça e os olhos, essa visão alarga a incríveis 237 graus, permitindo que ele literalmente veja algo atrás das suas costas. Pelo menos até aos 210 graus.
Nada mau para quem tem os olhos a apontar para a zona frontal do crânio...
Nem todas as pessoas conseguem estes resultados.
E menos ainda se o pescador tiver algum problema de glaucoma, uma limitação visual.
Mas podemos fazer um teste a nós próprios: para avaliar rapidamente a nossa visão periférica, podemos olhar fixamente para um ponto na parede à nossa frente, à altura dos olhos.
Estendemos então os braços para os lados e procuramos ver os dedos.
Se os braços estiverem bem abertos, bem estendidos para os lados, o ângulo é de 180 graus. Consegue ver os vossos dedos?
Se não, aproximem-nos um pouco mais da frente do corpo, mas já sabem: quanto mais para a frente, menor visão periférica temos...
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| Aqui nitidamente vão focar os perceves....mas também há uma lapa na foto. |
A visão periférica, também chamada de visão lateral, é boa para captar movimentos, mas ruim para captar cores.
Isso é uma função da estrutura do olho. A retina possui dois tipos de fotorreceptores: bastonetes e cones. Os cones, que estão densamente agrupados no centro dos olhos, captam as cores.
Os bastonetes, que são mais densos na parte externa da retina, são responsáveis pela visão noturna, detecção de movimento e visão periférica.
Usamos nossa visão periférica todos os dias. Por exemplo, ao conduzir no trânsito ou ao vislumbrar coisas que despertam o nosso interesse.
Como o número de bastonetes e cones é fixo, vem connosco “de série”, provavelmente não podemos melhorar nossa visão periférica. Mas podemos aprender a usá-la com mais eficiência.
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| Esta também é fácil demais... |
O que tem isto a ver com pesca? Várias coisas.
Em vez de apenas procurar pistas de actividade de peixe na água à sua frente, se o pescador desenvolver a sua visão periférica ele pode expandir significativamente o seu campo de visão.
Não conseguirá concentrar-se em algo que apenas vê com a sua visão periférica, mas, tendo um campo de visão mais amplo, verá algo.
E, a partir daí, filtrará uma gama maior de possíveis pistas de actividade de peixes.
Além disso, o movimento, uma área em que a visão periférica se destaca bastante, é uma das melhores maneiras de avistar peixes.
Os peixes estão sempre a mover alguma parte do corpo, seja agressivamente para capturar alimento ou tão só subtilmente para manter a sua posição na corrente.
Acreditem que há quem não seja capaz de detectar um peixe na água!
Nem conseguem vê-los à sua frente, através da visão central que funciona entre os 75 e os 95 graus de abertura, nem os detectam pelo canto dos olhos, através da visão periférica, que vai facilmente desses valores aos 140 a 170º.
Dou-vos um exemplo prático para que entendam com mais facilidade: quando estamos a conduzir na estrada, nós absorvemos uma data de sinais e comportamentos que acontecem à nossa frente.
O carro da frente trava e nós sabemos que aquelas luzes são um sinal de perigo e travamos também. Conseguimos identificar o que significa.
Tal como entendemos se um sinal de trânsito está verde ou vermelho, sem olhar para ele directamente. Precisamos da nossa visão central para ver bem o que acontece na nossa faixa, à nossa frente.
Mas temos de ir mais longe: precisamos também de aproveitar todo o potencial do nosso campo de visão, porque por vezes é ele que irá dar-nos a informação mais valiosa.
Imaginem uma criança que corre para o meio da estrada. Ainda não está à nossa frente, mas vai estar.
Os médicos têm um termo para quem só vê um cone estreito à sua frente: tem visão de túnel.
Isso acontece na pesca!
Há pessoas que estão tão focadas numa coisa que ignoram tudo o resto. Não ajuda quando estamos procurando robalos a comer à superfície!
Depois de selecionarmos o nosso alvo, quando já detectámos o peixe a atacar a isca, aí sim, podemos concentrar-nos nele. Até lá, a visão periférica deve estar ligada em permanência.
Uma das melhores maneiras de praticar a identificação de movimentos prometedores de peixes a comer com a nossa visão periférica é focarmos um objeto distante no rio ou no mar, e fazermos uso da nossa visão lateral.
Enquanto mantemos os olhos concentrados no objeto, devemos tentar ver outros objetos ou movimentos para baixo ou acima, com os cantos dos olhos.
A dada altura passamos a ver aquelas “estrelas” que os robalos, e outros peixes fazem quando tocam a superfície. São círculos concêntricos, por vezes muito dissimulados.
Tentem fazê-lo num dia de mar calmo, liso.
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| Foto boa para quem se concentra apenas no centro de uma imagem. Há mar batido em baixo. |
Conselho prático: quanto mais tempo vocês fixarem o olhar num só ponto ou objeto, menos eficaz se torna a visão periférica.
A falta de movimento ocular significa que estamos a olhar fixamente usando apenas a nossa visão central.
A solução para evitar a “visão em túnel” é manter os olhos em movimento (varrendo a água) enquanto procuramos peixes.
Ao varrermos mais espaço com os olhos, vamos passar a identificar objetos ou pontos de interesse que não apenas peixes, como pedras, vegetação submersa, troncos, tufos de algas, etc.
Aí, aquilo que fazemos com os olhos é “passar o scanner”.
Isso deve ser feito em menos de dois segundos, movendo a cabeça lentamente, apenas o suficiente para que os nossos olhos possam ajustar-se.
Assim que encontrarem algo que pareça “suspeito”, então sim, usamos a nossa visão central para focar o objeto, eventualmente o peixe que tanto procuramos.
Combinando a visão central e periférica, podemos cobrir uma área maior e maximizar as chances de ver todos os detalhes.
Para quem faz spinning, como eu, essa é uma forma de estar “entretido”, tentando não pensar num movimento tão repetitivo e rotineiro quanto lançar e recolher uma amostra.
Porque ao fim de algumas horas de lançamentos, sobretudo quando não há robalos, ...já não as podemos ...nem ver.
Vítor Ganchinho
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