O preço dos produtos de pesca de alta qualidade é elevado, e os carretos bons, esses ...estão pela hora da morte.
Para isso muito contribui o nosso querido Estado ao aplicar-lhes uma taxa de Iva de 23%, acrescida de taxas de direitos aduaneiros e outras “brincadeiras” que custam aos pescadores um horror de dinheiro. Mais de 30% do custo de um carreto são impostos.
Também os custos de transporte, da fábrica à loja de venda, são assustadores. Podemos deduzir que a soma de custos de transporte + taxas possa chegar a metade do custo de qualquer equipamento de pesca.
Se o meu caro leitor costuma comprar carretos baratos, modelos chineses descartáveis que custam de 8 a 12 euros, tem o problema resolvido: é deitar a “ave rara” fora a cada mês de utilização e adquirir outro.
Com uma dúzia de carretos “racing” já tem para um ano.
E a leitura deste artigo acaba aqui, não vale a pena queimar pestanas a ler o resto.
Se prefere adquirir carretos para durarem uma vida, as máquinas que deixamos aos nossos filhos, então sim, vale a pena passar os olhos e ir ao fundo da questão.
Vamos daí a um mergulho no estranho mundo dos lubrificantes e dos procedimentos de limpeza.
A última coisa que alguém deseja ao travar uma dura batalha com o peixe da sua vida é que o equipamento lhe falhe devido à falta de manutenção adequada.
Já vi isso acontecer muitas vezes! Demasiadas.
Quantos peixes de bom porte se espreguiçam hoje pelo fundo do mar, felizes, depois de terem escapado a pescadores que não sabem o que significa a palavra “manutenção”.
Sobretudo para quem utiliza estas fantásticas máquinas de enrolar linha em água salgada, é muito importante realizar a manutenção periódica a fim de garantir o desempenho ideal.
E quando se lê “manutenção periódica” já estamos a entrar num detalhe importante: os carretos devem ser tratados todos os dias que saem ao mar, mas a cada estação do ano, periodicamente, podem e devem ser objecto de uma revisão mais cuidada.
Separemos pois aquilo que são cuidados diários de cuidados periódicos.
Quando alguém adquire um carreto de alta qualidade, diga-se um Daiwa Saltiga ou um Shimano Stella, deve aprender a cuidar dele.
Existem alguns modelos mais, não muitos, que também merecem a nossa confiança. Normalmente estas máquinas situam-se a meio termo entre um topo de gama e um carreto de baixo preço.
É o caso dos Shimano Twin Power, por exemplo. Ou dos Certate, da Daiwa.
São seguros, podemos acreditar que quando chega o momento H eles não nos deixam ficar agarrados.
Já outros...mesmo quando novos, têm tudo para nos deixar mal.
Mas com os ajustes certos, a maior parte dos nossos carretos pode efectivamente ser ainda muito melhor. Mesmo os que são absolutamente novos, ainda dentro da caixa, podem ser melhorados.
Percebi há anos, na casa de um dos grandes gurus da pesca mundial, concretamente o meu amigo Satoh sensei, a diferença entre um carreto saído de fábrica, novo, e um carreto novo tratado pelas mãos de um especialista em carretos. Não é igual.
A lubrificação ajuda um pouco, a afinação dos apertos das peças ajuda muito mais.
Fiquemo-nos aqui neste artigo pela lubrificação.
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| O guia fios deve rolar bem, não deve prender, sob pena de ser um elemento perturbador da boa qualidade da linha. |
CUIDADOS DIÁRIOS
Refiro-me a procedimentos que devem ser realizados ao final de cada dia de pesca, (mesmo que estejamos numa viagem de vários dias e possamos vir a utilizar o carreto novamente na manhã seguinte).
Atenção a um detalhe importante: quando saímos ao mar com um carreto montado numa cana, (quer numa simples pesca de costa, quer numa ida ao mar aberto em barco), o ar já transporta salitres e elementos corrosivos.
Quer queiramos quer não vamos estar numa atmosfera agressiva, água pulverizada vai entrar nas juntas, nas reentrâncias mais pequenas, e vai acumular elementos destrutivos na nossa máquina.
Borrifos de água são sal, e sal é um problema!
Mesmo que essa cana e carreto fiquem de reserva e não pesquem, devemos ainda assim proceder à sua limpeza cuidada.
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| As “articulações” são pontos críticos onde não pode faltar lubrificante. |
Vamos ver como:
O passo 1 é mesmo preparar o carreto para ser lavado.
Aperte o botão de ajuste de fricção, o drag, e a manivela; em seguida, segure o carreto na horizontal e enxague bem com água doce corrente, (de torneira ou garrafa).
Use os dedos ou uma pequena escova (uma escova de dentes velha serve na perfeição) para remover quaisquer manchas de sal ou vestígios de isca ou sangue visíveis.
Aproveitamos também para enxaguar também, com atenção redobrada, a linha da bobine. É ela que irá reter a maior parte da água salgada corrosiva — e o guia-linha da alça do carreto.
Se o carreto for selado, o caso dos carretos Daiwa Saltiga com Mag-Sealed, pode ser mantido em qualquer posição durante a lavagem.
Caso não, a posição perfeitamente horizontal é a mais segura para os modelos não selados, pois minimiza o risco de entrada de água.
Não queremos que o óleo de lubrificação se misture coma água da lavagem, certo?
Será necessário realizar uma etapa adicional se vocês tiverem a sorte de possuir um dos seguintes modelos: Saltiga Expedition 2014, Saltiga 2015 ou Saltiga Dogfight 2015.
Esses carretos não possuem vedações de borracha nas aberturas da manivela; em vez disso, contam com um rolamento vedado magneticamente (*mag-sealed*) em cada lado.
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| Se o peixe for bom, a bobine irá girar a um ritmo alucinante, e por isso o lubrificante a aplicar deverá suportar altas temperaturas. |
Trata-se de um incrivelmente engenhoso sistema japonês de selar a entrada de fluidos através da utilização de uma das características do óleo de magnésio, a de formar um anel estanque.
Passo-vos a informação original da Daiwa, sem qualquer alteração de texto:
A tecnologia MAG SEALED DAIWA é baseada num óleo magnético desenvolvido pela NASA. Esta junta líquida magnética foi originalmente usada na transmissão dos discos rígidos dos computadores.
Ela era porém estanque à poeira mas não à água. Foi necessário superar o problema da pressão de água.
O grande desafio para os engenheiros da Daiwa foi o de controlar a intensidade da força magnética, o que levou à repetição de centenas de ensaios e ajustes da ordem do mícron.
Os testes de campo realizados pelos melhores especialistas em cada técnica de pesca mostrou um ganho considerável de fluidez e rotação.
Para estes carretos Daiwa Saltiga, é necessário desroscar a haste da manivela e remover a tampa do lado oposto, deixando um fluxo suave de água doce entrar em cada abertura para remover quaisquer resíduos de sal.
Realize duas ou três lavagens de cada lado e, após cada uma, aponte o lado enxaguado para baixo para permitir que a água escorra.
Podem ignorar a lavagem dessas aberturas se o carreto tiver permanecido seco durante a pescaria e não tiver sido encharcado ou atingido por borrifos intensos.
A qualidade de construção acrescida do carreto permite que isso aconteça, são extremamente fiáveis.
Para que tenham uma ideia, há uns anos circulava um vídeo onde alguém lançava uma amostra de terra, a seguir enterrava a cana e carreto em areia, desenterrava, dava animação à amostra e a seguir ferrava e trabalhava um peixe pesado, sem que o carreto denota-se alguma anomalia. O objectivo era demonstrar a enorme fiabilidade que uma máquina destas tem.
Claro que não aconselho ninguém a encher o seu carreto de areia, é apenas um “fait-divers” curioso.
Pode assumir-se a robustez da máquina , mas isto é mesmo só para quem tem carretos topo de gama, na circunstância os Daiwa Saltiga, equipamentos sólidos, de precisão, verdadeiros Rolex concebidos para ...pescar.
Carretos para deixar aos netos.
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| Há produtos que os japoneses não deixam sair do seu país, por apresentarem condições instáveis quando colocados sob pressão, nomeadamente um avião a grande altitude. |
Voltemos a modelos mais “terrenos”, aqueles que representam o grosso da coluna do parque de carretos em Portugal.
Após enxaguar o carreto — independentemente da marca ou modelo —, sacuda-o vigorosamente para eliminar o excesso de água e deixe-o secar ao ar livre ou perto de uma janela.
Não o deixe directamente exposto ao sol.
Nunca guarde um carreto molhado dentro de um saco plástico ou recipiente hermeticamente fechado. É pressuposto que a água possa evaporar e a máquina fique seca.
E já está: o carreto está pronto para mais um dia de pesca.
Nota: se o carreto foi usada apenas em água doce, não é necessário enxaguá-lo; basta remover resíduos, sangue ou manchas de isca com um pano húmido.
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| Alguns dos produtos que uso para lubrificar os meus carretos. Em breve a GO Fishing Portugal terá no seu stock lubrificantes da marca Studio Ocean Mark. |
Para aqueles que tratam de fazer uma limpeza sumária e aplicam umas borrifadelas de WD40, lamento desapontá-los, mas não estão a fazer mais que prejudicar o carreto!
O WD 40 não é um lubrificante!
O WD-40 é um solvente altamente potente que dissolve lubrificantes; remove o lubrificante!
Portanto, deve ser usado apenas para limpar as peças do carreto antes da aplicação do lubrificante.
Infelizmente, muitas pessoas acham que ele é um milagre da tecnologia e também serve de lubrificante, o que causa muitos danos ao carreto.
Para lubrificar corretamente um carreto, os meus caros amigos precisam de óleo e massa gorda.
Não serve só óleo, porque esse não dura nas engrenagens sequer o tempo de uma pescaria.
Vamos ver no próximo número do blog como hibernar ou lubrificar a fundo o nosso carreto. Trata-se de lhe dar aquilo que chamamos de “cuidados periódicos”.
Repito: trata-se de uma manutenção de fundo e deve ser feita sempre que entendermos que já fomos vezes suficientes à pesca que o justifiquem.
Se o leitor for à pesca meia dúzia de vezes por ano, faz isto uma vez. Se for meia dúzia de vezes à pesca por mês, faz a cada três meses.
Caso vá à pesca, o meu caso, quatro a cinco vezes por semana, então faz isto no fim de cada mês.
Vamos ver a seguir o que fazer quando sabemos ir passar bastante tempo sem utilizar os carretos.
Vítor Ganchinho
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