Quando pensamos que já vimos tudo, ....afinal não.
Tenho, ao longo dos meus longos 57 anos de pescador, deparado com as situações mais inusitadas.
Há pessoas que quanto a entendimento de pesca não vão muito além da primeira linha de um extenso e pesado livro.
Para essas pessoas, para quem não domina de todo o fenómeno de enganar peixes, nada funciona, os bons pesqueiros são sempre os outros, mais longe, todos aqueles onde não estão.
É claramente impossível agradar a essas pessoas, porque em rigor não sabem o que querem.
Solicitam um tipo de cana e carreto para uma determinada técnica e antes de eu conseguir preparar esse conjunto já estão a sugerir que talvez um outro fosse melhor...
Não há ventos favoráveis para um marinheiro que não sabe para onde quer ir...
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| Lindos estes nossos peixes de fundo. A adaptarem-se a um aquário, valeriam uma fortuna. |
Tenho o meu grande amigo Carlos Campos como uma das mais pacientes pessoas à superfície da terra.
É óbvio que nasceu para ajudar os outros.
De tal forma que não se importa de sacrificar a sua natural vontade de pescar um bom peixe, para dedicar esse tempo a “inventar” uma forma de pôr um simpático inglês a subir alguns peixes ao barco.
Acreditem que não é fácil quando as opções da pessoa vão de pescar sentado, ...a pescar deitado.
Na circunstância tratava-se de uma joia de pessoa, um médico legista, especializado em autópsias a cadáveres, e que, provavelmente por defeito profissional, estará habituado a tratar de “pacientes” algo estáticos....
A questão é que os nossos peixes são irrequietos, serão tudo menos passivos...
Os falhanços eram seguidos, a pessoa não fazia mais que atirar comida para o fundo, sem conseguir qualquer captura.
Um desbragado “bar aberto” de sardinha e cavala, uma pesca sem peixe, sem mais interesse que a emoção de tentar iscar bem, ou próximo disso.
Imaginem-se no mar a tirar um curso acelerado de iscagem perfeita. Era assim que eu o via.
O objectivo da pessoa era tão só ser capaz de manter a isca mais que alguns instantes no anzol.
Havia peixe em barda no fundo, o tempo de reacção dos peixes não excedia a meia dúzia de segundos, e obviamente eles estavam a ganhar.
Não se ouvia o arrotar dos bichos a 70 metros de fundo, mas dava-me a sensação de que pediam guardanapos de papel para limpar as beiçolas.
A dada altura vejo o Carlos pousar a sua cana, dirigir-se ao penitente médico e dizer-lhe:
_ Amigo, vamos lá ver se entre os dois conseguimos fazer alguma coisa....
Pegou na linha à mão e foi aí que deu um "desarricanço" da arte de “bem pescar ao sentir” sem cana.
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| Aqui podem ver o Carlos nesta sequência a ferrar peixes para o doutor subir. Pesca a dois, como o tango... |
A dada altura, mais animado, já via o doutor sorrir.
Admito que alguém que passa a vida a cortar a pele a mortos, a vasculhar nas entranhas de acidentados, seja alguém com um sentido de humor algo reprimido.
Pior que isso, parecia-me que ele não estava satisfeito com o estado do mar. Reclamava das ondas, as poucas que havia, como se tivesse a sensação de que o vento para si soprava incessante, violento, um mar alteroso a esmagar contra o casco enormes vagas de seis metros, enquanto que do outro lado, o meu lado, estava liso, uma calmaria de mar de azeite...
Eu, livre de “encalhos”, dava-lhe com força.
Havia peixe, os pargos saltavam animados na caixa e até uma reluzente e gorda dourada veio compor o leque de peixes elegíveis candidatos a ..."melhor do dia".
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| Um milagre: este pequeno pargo foi “arrancado a ferros” mas subiu. |
Quando ouço os comentários destas pessoas, fica evidente que andam a ser muito maltratados pelo pessoal das MT`s.
_ “Saí com um barco em Cascais, ...mas não havia nada”.
Há quem foque a sua atenção na poupança, no baixo consumo de combustível.
Há quem aposte tudo em conseguir para o cliente meia dúzia de desluzidas bogas e cavalas, e quem dê o seu melhor a arranjar desculpas para explicar que ali, precisamente naquele sitio, a meia dúzia de metros do lado de fora do porto de abrigo, é um excelente sitio para peixes grandes: pargos, corvinas, meros, atuns, inclusive marlins....
Mas os maganos, infelizmente, hoje, por azar, ....”não estão cá”.....
Vitor Ganchinho
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