A um leigo em termos de pesca, parece-lhe bem a imagem do pescador sonolento, absorto, de olhar fixo na ponta da cana. Esse é o estereótipo que ainda vigora aos dias de hoje na população menos familiarizada com o fenómeno.
Somos frequentemente julgados de pessoas estranhas, alienadas, até de loucos, por quem não tem da pesca a menor ideia e aceita a imagem da captura de uma bota velha.
Nada mais falso!
Num país com uma costa imensa onde felizmente ainda há peixe, o difícil é escolher a espécie a que podemos dedicar-nos.
Sendo hoje a pesca à linha uma actividade multidisciplinar, a qual abarca uma infinidade de diferentes possibilidades técnicas e preceitos, esse é o primeiro problema que se coloca a quem se inicia:
afinal eu vou ser pescador ...de quê?
Se é verdade que nunca houve tanta informação disponível, tão à mão de utilizar, tão próxima, também não deixa de ser verdade que o excesso de informação pode dar pistas erradas, induzir a erros.
Aceito que alguém que se assume como um pretendente a lançar um anzol para a água, não saiba nem por onde começar.
Tomemos como boa a opção por ...adquirir o material.
Sem ele não se pesca, sim, é verdade, mas atendendo ao elevado preço dos produtos, será essa uma medida acertada? Pode alguém cometer erros nessa fase sem comprometer irremediavelmente a ...carteira?
Para cada tipo de peixe o seu equipamento especifico, logo e antes de mais impõe-se saber quais as espécies disponíveis. Pescamos a quê?
Poupo-vos a elencar as toneladas de material adquirido por milhares de entusiastas neste país que, passados dias, já estarão arrumadas a um canto, sem qualquer utilidade.
Provavelmente o leitor estará incluído no lote daqueles que cederam a um impulso momentâneo e compraram um “kit” barato, ...para experimentar.
Esse é um erro comum, e a seguir, o material a sério, aquele que já permite pescar uns peixes, irá custar o seu preço de loja mais o preço deste desditoso ...”kit”.
Começar por falar com quem pesca é uma medida avisada, sensata.
Ouvir a opinião de quem sabe ...faz sentido.
Sem isso, trata-se de dar um salto no abismo, à espera que não haja problemas. Há sempre!
A mensagem de hoje é esta: comprar o quê, se isso varia em função do peixe pretendido?
Será razoável ir por corricar aos atuns se na sua zona de pesca eles não são habituais?
Vamos por uma cana forte para safios e com ela tentamos os desconfiados sargos à boia? Acaso podemos tentar fazer spinning com uma cana curta de 1,80 mts?
A resposta é negativa.
Como forma de obviar a um “estrago” maior, muitos aspirantes a pescadores optam por mandar vir material da China, através de uma plataforma de compras.
Pois sim, ...mas essa gente não aconselha, não conhece nem quer saber de desventuras. Desde que facturem, para eles é-lhes indiferente que alguém do outro lado do mundo pesque ou não pesque.
Existem enormes assimetrias na presença de espécies aos longo dos diferentes habitats disponíveis na nossa costa. Aquilo que aqui é comum, ali é raro ou não existe.
Por isso pode não ser um bom princípio comprar equipamentos a um fabricante chinês que de pesca em Portugal apenas poderá saber aquilo que pode ler no Google.
Que podem essas empresas/pessoas saber sobre aquilo que funciona bem aqui?
Os conselhos de um lojista português, preferencialmente sediado na zona onde a pessoa pretende pescar, serão seguramente muito mais assertivos e confiáveis.
Por ter recolha permanente de informação, alguém que opera em Matosinhos saberá mais das possíveis espécies e locais de pesca produtivos no norte que alguém que se encontra em Faro. O princípio base é este.
Vamos ver se consigo explicar-vos isto: não há dúvida de que as soluções de pesca que cada um deve ter no seu repertório devem estar ajustadas à realidade em que pesca.
O objectivo é pescar na rocha ao sargo? É lançar aos robalos na rebentação? É passar a ir ao mar embarcado, nas traineiras MT e fazer pesca de fundo?
Talvez valha a pena ler algo sobre isso, recolher informação e tentar perceber se é mesmo aquilo que queremos e podemos fazer na zona onde vivemos.
Existem em Portugal fóruns de troca de informação que funcionam muito bem.
Os blogs, escritos por pessoas que sacrificam algum do seu tempo livre para partilhar dados, também podem ser uma fonte de conhecimento.
E, dentro da medida do possível, cabe ao promitente pescador a tarefa de compilar essa informação e adequar a dita ao que pode e quer fazer.
Não vale a pena querer ir por todas as estradas ao mesmo tempo.
Sendo eu um apologista confesso de que a informação nunca é demais, ainda assim reconheço que para certas pessoas resulta difícil conseguir abarcar todo um leque de conhecimento desproporcionado em relação ao que podem e querem vir a fazer.
De que serve a alguém saber muito de pesca à mosca ou pesca big game se essa pessoa só pretende pescar ao choco?
Também a quem ensina, a mim parece-me que de nada adianta tentar forçar a absorção de conhecimento a alguém que não vai poder fazer nada com ele.
A uma pessoa que calça um 43 não lhe damos uns sapatos tamanho 38…. a cada um aquilo que lhe serve.
Se insistirmos, essa pessoa nunca se sentirá confortável, nunca fará uso da informação, não irá fazer com ela mais que ...nada.
A mim, já me ligaram às 4.00 da manhã a perguntar-me se deviam pescar ao sargo com lingueirão ou com minhoca....
Frequentemente pedem-me que indique uma cana que dê para tudo. Para todos os peixes e todas as modalidades de pesca.
Já me calhou quererem encomendar linha multifilamento para aplicar em carreto de pesca à dourada. Até aí tudo certo. Mas exigindo 3.000 metros, em comprimento único!
Mas esta gente pesca douradas de quantos metros?!!
Vamos lá com Deus com as pessoas que me questionam sobre uma linha “trançada” grossa, que tenha um diâmetro próximo de 1mm, para “não rebentar facilmente”...com sargos e choupas.
Evidentemente estas pessoas precisam de apoio, de ajuda.
Ninguém nasce ensinado, e todos nós um dia não soubemos fazer.
Sempre estive, e estarei, disponível para ajudar quem vem por bem, quem quer ir em frente neste complexo mundo da pesca e precisa do conforto de uma informação.
Quantas vezes isso faz a diferença entre ser pescador e ser um ex-candidato a pescador.
Uma palavra amiga, esclarecedora, pode ajudar a encurtar o caminho.
Para isso, eu estou aqui.
Vítor Ganchinho
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