Esqueçam os equilíbrios, os meios termos.
Por força das alterações climáticas, estamos hoje muito mais expostos a fenómenos atmosféricos extremos.
Quando eles acontecem, (e a sua regularidade é cada vez maior), vamos sempre chegar a limites: muita chuva, muito vento ou muito calor.
A pesca à linha não pode alhear-se destes excessos naturais porque sofre directamente os seus efeitos, mas podemos tentar tirar partido dessas ocorrências ditas fora do “normal”.
É disso que tratamos hoje aqui no blog, de pescar mais, ...pese embora as dificuldades.
![]() |
| Nestes dias, os passeantes e os poppers são as amostras indicadas. |
Quem faz spinning sabe que diariamente tem dois grandes momentos em que tudo parece estar alinhado para uma boa pesca: o amanhecer e o entardecer.
Se é muito produtivo pescar à alvorada do dia, também não é menos interessante pescar ao crepúsculo, pese esse período seja mais curto.
Isto é aquilo que todos nós que pescamos e lançamos amostras temos interiorizado e não é por acaso: a experiência prática diz-nos que é assim.
Durante o resto do dia e com o sol alto, ...parece que nada resulta.
Lançamos centenas de vezes e nada parece fazer efeito: zero toques. Trocamos as amostras, as cores, os tamanhos, e ...nada.
Meus amigos, não depende do pescador, do equipamento, e nem sequer da técnica de pesca.
No período estival, será mais fácil fazer um robalo à noite que durante o dia, ...se a meio do dia.
E porquê?
Em bom rigor, o peixe está lá, vive lá, e não tem muitas possibilidades de ignorar o efeito fisiológico da ...fome!
Por defeito, haverá sempre um momento do dia ou da noite em que o peixe come. Com quaisquer condições de mar.
Pode afundar um pouco mais, pode comer à noite, mas come.
São necessárias condições draconianas para que o peixe não se alimente e essas condições passam muito por temporais muito intensos, prolongados no tempo.
Ainda assim, o antes e o depois do temporal são momentos aproveitados pelos peixes para comer. Haja um mínimo de possibilidades e o peixe come.
![]() |
| Aquilo que nos pode dar mais peixes em águas calmas é a discrição da amostra, a sua capacidade de pescar um deles sem afugentar todos os outros... |
O mar calmo interessa-nos a nós, achamo-lo conveniente, mas não interessa tanto ao peixe.
Na verdade a calmaria até desmobiliza os predadores, que sabem ser mais difícil surpreender as suas presas.
Os nossos olhos conseguem vê-los, a sensação de termos um “torpedo” atrás da nossa amostra é algo impagável, ver o sulco que fazem na linha de água quando perseguem o nosso artificial deixa-nos ultra excitados, e justifica a nossa saída à costa. Porém, para um preddor essas são condições menos fáceis de trabalhar, tornam-se demasiado visíveis e previsíveis.
Mas, mesmo se temos um mar sereno como um lago ...e se soubermos onde, quando e como lançar, é difícil que não consigamos resultados.
Se temos um mar liso, calmo, mar de “óleo”, então é quase certo que os peixes estarão mais próximos da superfície, a não mais de um metro desta.
Mas sempre? Ficam lá todo o dia?
Não, nem nada que se pareça, não estarão lá sempre. Nem podem estar...
Vamos ver o porquê, e que tipo de amostras devemos utilizar em mar ...manso.
O dito ...mar de senhoras.
As primeiras duas horas do dia trazem-nos o enquadramento perfeito para pescarmos com amostras, a lançar horizontalmente: o dito “spinning”.
Temos peixes activos, ainda activos depois de terem passado a noite a procurar comida, temos a superfície do mar lisa, e temos algo muito mais importante que aquilo que possam pensar: oxigénio suficiente à superfície.
A água fria da noite retém taxas de oxigénio acrescidas, e, mesmo em caso de noites tropicais, com temperaturas acima dos 25ºC, os primeiros raios de sol descobrem os peixes no máximo da sua actividade.
Por esse motivo, por poderem respirar sem esforço, os peixes podem evoluir junto à linha de água sem constrangimentos, procurando o alimento de todos os dias.
Mas quando o sol sobe e fica a pino, perpendicular à superfície da água, os raios solares irão incidir sobre os primeiros metros e irão aquecer a primeira capa, reduzindo drasticamente os seus níveis de oxigenação.
Assim sendo, de manhã bem cedo o peixe pode posicionar-se a caçar bem subido, leia-se na linha de água, quantas vezes com a dorsal de fora, mas a seguir as condições mudam e deixa de poder estar nesse local.
Obrigado a isso, sai, afunda, e vai à procura de um outro patamar que lhe permita continuar a sua incessante busca por comida.
E nós deixamos de os ter ali à “mão de semear”. Logo... deixa de fazer sentido continuar a lançar amostras para onde eles já não estão.
Porque não podem estar.
O processo é algo complexo, e não tem uma resposta única. Depende dos locais e das condições ambiente.
Bem sei que há quem seja tão absolutista que não admita uma explicação rígida, única. Mas neste caso, há que dizer que a única coisa que é totalmente branca ou preta é o urso panda.
Há que perceber que em função dos locais e das condicionantes ambientais estes dados podem ser alterados.
Aquilo que temos à nossa frente são muitas vezes situações híbridas, digamos que tons mesclados de cinza, se formos pouco dados a radicalismos.
Temos para nós que haverá sempre melhores condições de oxigenação nos períodos de menor luminosidade, e pode não ser assim.
Pode até acontecer que estes dados se invertam, no caso de locais com muita vegetação marinha/ fitoplâncton, grandes produtores de oxigénio.
Tecnicamente é isto: num dia quente, a taxa de oxigénio dissolvido no mar varia num ciclo diário imposto pelo balanço entre a alta temperatura (que reduz a solubilidade do gás) e a fotossíntese do fitoplâncton (que produz o dito oxigénio).
Os níveis de concentração flutuam significativamente, atingindo os valores mais baixos de madrugada e os mais altos ao final da tarde.
As dinâmicas principais ao longo do dia incluem estes factores que enumero a seguir:
• Durante a madrugada e manhã: O pico de frio noturno aumenta a capacidade de a água reter oxigénio. Contudo, sem luz solar, não há fotossíntese e os organismos continuam a respirar, a “gastar”.
O oxigénio é consumido e, em termos gerais, ao fim da noite encontra-se no seu ponto mais baixo.
• Durante a tarde (período mais quente): O sol intenso acelera a fotossíntese das microalgas marinhas, que libertam grandes quantidades de oxigénio para a água.
• O "conflito térmico”: simultaneamente, o calor aquece a água da superfície, o que lhe diminui a capacidade natural de dissolver gases.
Como podem ver, há condicionantes que jogam para um e outro lado, e a resultante depende das condições do meio ambiente em que pescamos.
![]() |
| Por princípio as primeiras e últimas horas do dia trazem-nos um abaixamento de temperatura, logo maior capacidade de fixação de oxigénio na água. |
O Equilíbrio de Forças
Apesar do aquecimento da água à tarde reduzir a sua solubilidade limite, a intensa atividade fotossintética das zonas estuarinas normalmente supera essa perda.
Como resultado, a percentagem de saturação de oxigénio tende a aumentar, registando-se os níveis mais altos de oxigénio dissolvido ao final da tarde.
Este processo de oxigenação depende decisivamente dos primeiros metros da coluna de água, onde a luz consegue penetrar.
Sabemos por experiência própria que o final de tarde traz os predadores para próximo da costa, e sim, eles estão disponíveis para atacar as nossas amostras.
Daí a conjugação de factores que se interligam para que o entardecer seja tão favorável a que lancemos amostras.
Temos a entrada de predadores à costa, para comer, temos oxigénio suficiente, e temos a queda acentuada das condições de luminosidade, as quais favorecem a aproximação às ....vítimas.
O período de pesca é curto, mas vale a pena. Enquanto dura é bom!
Há outros detalhes que saem fora do âmbito deste trabalho, mas que contam.
Falo-vos do facto de a profundidade e a pressão alterarem este ciclo, também do impacto que a poluição marinha tem sobre as taxas de oxigénio, e ainda daquilo que pode ser entendido como os valores críticos abaixo dos quais a vida do peixe passa a estar em risco. Sem níveis mínimos de oxigenação, as águas tornam-se impraticáveis.
Mas fiquemo-nos pelo mais simples: queremos lançar as nossas amostras e queremos saber que haverá algo que as vai morder!
Quais são então as amostras mais fiáveis?
![]() |
| Mar liso é mar de grandes oportunidades de pesca para quem pesca à vista e...ligeiro. |
Amostras de pequeno tamanho, não mais de 10 cm de comprimento, com um peso tão ligeiro quanto aquilo que a nossa cana nos permite lançar, são verdadeiramente assassinas.
Tudo deve estar em harmonia: se pescamos com uma cana de acção 3-12, ou 5-15, um carreto 2000 a 2500, máximo um 3000, de nada serve aplicar uma linha grossa.
O nosso multifilamento deve estar correlacionado na perfeição com o tipo de peixe que procuramos.
Se o alvo são os pequenos robalos de 1 a 2 kgs, então um PE 0.8 a 1.2 está perfeito. Se alguém entender que o medo de perda é mais forte que a veia corajosa de pescador, que deve acionar o sistema de alarme e o “air-bag” antes mesmo de bater, ...então que aplique um PE 1.5. E aí, meus amigos, já há mais linha que peixe, de certeza.
Quando pescamos fino, não só ganhamos em distância de lançamento, facto muito importante, como damos à amostra a possibilidade de trabalhar de forma mais convincente.
Quando o peixe morde, se tivermos boas mãos e carreto bem lubrificado, então com um PE 1.2 estamos mais que bem, seguros, sem temer alguma rotura inoportuna.
Tenho para mim que a distância de lançamento joga nestes casos um papel muito importante.
Os robalos “parvos” já são poucos, e o mais natural é que ao fim de duas ou três capturas se “envergonhem”, que se abstenham de correr a amostra.
Se de início se empertigam e chegam a disputar com os outros peixes do cardume a possibilidade de ficar com a amostra, ao fim de algumas lutas já a olham apenas pelo canto do olho, com a desconfiança a que votamos um inspector das Finanças....
Nessa altura, o facto de a amostra ser pequena e leve terá uma importância acrescida.
Quando mandamos para o “charco” amostras ultra pesadas, a vontade de se aproximarem reduz a níveis drásticos. Ficam desconfiados.
Rejeitam e sabem bem porquê: nenhum peixinho pequeno faz aquele ruído de ferro caído do céu quando salta fora de água. Desconfiam....e fecham a boca.
Por isso, neste verão/ outono, é experimentar amostras muito ligeiras, simples, (nada de palas frontais), com cores discretas, e trabalhadas com alguma suavidade.
Não necessitamos mais que um ou outro movimento brusco, mas curto, a dar sinal de que por ali está um pequeno peixe em apuros.
A sensibilidade acrescida dos sensores do robalo fazem o resto: eles estão com fome, a movimentar-se lentamente, atentos, e percebem perfeitamente a queda de algo na água.
O sulco que risca a superfície diz-lhes que há ali uma presa que está debilitada.
E atacam!
Vítor Ganchinho
😀 A sua opinião conta! Clique abaixo se gostou (ou não) deste artigo e deixe o seu comentário.










