A maior parte das pessoas pensa convictamente saber o que é uma linha multifilamento.
Vulgo ...”trançado”, ou, para os amigos, simplesmente PE.
Arrisco dizer que 99% das pessoas que pescam regularmente com esse produto sabem mesmo muito pouco sobre ele. Sabem próximo de zero.
Em termos de relação peso-resistência, o UHMWPE, o nosso multifilamento, é até 15 vezes mais forte que o aço.
E, ao contrário do fio de aço, o multifilamento de pesca ...flutua!
A partir deste momento, pode ignorar o que está escrito abaixo, (e continua a saber o mesmo que já sabia), ou vai em frente, e passa a saber com que linhas ...se cose.
Temos duas grandes opções a fazer: linhas trançadas Dyneema® ou Spectra®.
Trata-se de material caro, não pode ser barato pela complexidade da sua produção, e por isso convém conhecê-lo bem antes de comprar, antes de gastar o dinheiro, e não ...depois.
Quando este princípio não é respeitado, as gavetas enchem-se de linhas ruins, descartáveis, e a carteira esvazia-se de conteúdo, emagrece, levando-nos ao desespero.
Não precisamos de ficar pobres para aprender a adquirir linhas, precisamos sim de saber o que escolher em função da nossa modalidade de pesca.
Afinal de contas, o que é de facto importante saber antes de comprar um multifilamento?
Vamos ver isso hoje, aqui no blog.
O ponto prévio é este: sim, as linhas multifilamento oferecem muito mais resistência à rotura do que as tradicionais linhas de monofilamento, o nylon ou fluorocarbono, e por isso são hoje em dia amplamente utilizadas pelos nossos pescadores.
Não há dúvidas para ninguém de que são um avanço tecnológico importante.
Dyneema e Spectra são conceitos comerciais de fibras de polietileno de alta densidade, vulgo PE, e são a base de trabalho de muitas marcas de linhas nossas conhecidas.
A linha que o meu caro leitor utiliza, encaixa numa ou noutra destas duas versões.
Ambas, quer a Dyneema quer a Spectra, são linhas compostas por uma infinidade de filamentos, um elevado número de fibras finíssimas que se juntam e, depois de trabalhadas, nos aparecem aos olhos sob a forma de uma trança compacta, geralmente com um revestimento a protegê-la.
Mas falamos de dois conceitos de produção de linha diferentes.
De facto existem grandes diferenças entre elas sendo que as principais consistem no material em si, no tipo de trança que é feito, no revestimento e na construção da própria linha.
Afinal de contas, qual o seu princípio de construção?
A base é esta: um filamento muito fino, mais fino que um cabelo, unido a centenas de outros filamentos, os quais no seu conjunto formam um fio. Chamemos-lhe uma fibra.
Por sua vez, essa fibra é entrelaçada a outras, e o conjunto passa a formar a linha “multifilamento” conforme a conhecemos, nas versões 4, 8 ou 12 ou mesmo 17 linhas.
As mais baratas são sem dúvida os trançados de 4 fios mas infelizmente possuem um formato achatado, algo rugoso, diria ...“quadrado”.
Embora nos pareçam redondas quando são muito finas, a sua estrutura trançada apresenta uma certa aspereza, e é possível sentir ruído nos passadores da cana ao recolher esse tipo de linha.
Oferecem resistência ao vento, mais do que as linhas de 8 e 12 filamentos, logo voam mal e não são convenientes para quem faz spinning. Mas na água são estranhamente mais rápidas na descida, e por isso ajudam na técnica de jigging.
Vocês sabem que as bolas de golfe com pequenas covas, ou alvéolos, voam mais que as lisas.
Isso acontece porque na superfície da bola é criada uma turbulência controlada do ar, o fluxo de ar circundante mantém-se colado à esfera por mais tempo, reduzindo drasticamente a zona de baixa pressão e o arrasto atrás dela, permitindo assim que voe quase o dobro da distância de uma bola lisa.
Razão técnica para isso: numa bola lisa, o ar descola facilmente da superfície logo na primeira metade da esfera, criando uma enorme bolsa de vácuo e turbulência atrás dela que a "puxa" para trás, (o chamado arrasto de pressão).
O princípio com a linha PE4 é o mesmo. Se isso nos levaria a optar por 4 fios, outras razões existem para não o fazermos e ...vamos vê-las aqui.
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| Com peixe miúdo nunca há problemas, as linhas nunca partem. Mas, ....e quando surge um dos grandes? |
Os PE trançados com 8 linhas, (as mais vendidas), gozam de uma vantagem clara: os filamentos são mais finos que as linhas de 4, logo o conjunto apresenta-se mais homogéneo, mais redondo, e por isso proporciona maior suavidade.
São destinadas principalmente à pesca vertical e pesca jigging em mar e regra geral são excelentes, pese o seu custo mais elevado.
A suavidade é um factor fundamental, pois, no jigging a linha entra em contato directo com os passadores sob uma tensão relativamente alta.
O jig, um peso em chumbo, só por si já oferece alguma resistência, e quando temos um peixe a debater-se na outra ponta ...o atrito inicial é multiplicado por muitos.
Imaginem agora o desgaste que sofre uma linha destinada à pesca vertical profunda, com carreto eléctrico. Ao peso da chumbada, sempre significativo, acresce o peso e resistência do peixe, quando é o caso.
Daí a necessidade de canas próprias para o trabalho com carreto eléctrico, com um número acrescido de passadores, e acção parabólica, de forma a dar apoio constante à linha.
Meus amigos, quem não observa este princípio, quem compra canas comuns, baratas, paga-as todas juntas a seguir na compra de linhas, que passa a ser muito mais frequente.
A quantidade de apoios é determinante para que a fricção e consequente aumento da temperatura baixem consideravelmente.
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| O ambiente em que trabalham as nossas linhas é muito agressivo, frequentemente roçam na pedra, logo há que ter cuidado ao comprar. |
Para aqueles que não sabem, estas linhas flutuam, pois possuem uma densidade relativa de 0,97, enquanto a da água é de 1,0.
São pois mais leves que a água, aquilo que as afunda são os pesos que lhes aplicamos: amostras, jigs, chumbos, etc.
A maioria das linhas multifilamento possui algum tipo de proteção contra abrasão, pois a fibra PE (polietileno) tem menor resistência à abrasão do que as linhas de monofilamento, os nylons ou fluorocarbonos.
Um dos revestimentos mais rígidos é encontrado nas linhas Berkley Fireline e Spiderwire Fusion. A Fireline parece uma fibra única, mas é composta por 4 filamentos trançados e revestida com uma camada plástica.
A PowerPro possui um revestimento relativamente rígido, aplicado a cada filamento individualmente, permitindo identificar facilmente o trançado da linha.
As linhas YGK Power Hunter, WX8 e WX4 possuem um revestimento muito fino à base de flúor, sendo por isso tão macias quanto as linhas de PE sem revestimento.
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| Pode pescar-se muito fino, se as perspectivas de pesca forem muito modestas. Assim sendo, as linhas aguentam sempre... |
O revestimento confere à linha maior rigidez e comprime-as, o corpo fica mais fino. Um perfil mais fino sofre menos influência do vento ou da corrente, e isso é uma vantagem.
No entanto, linhas mais rígidas geram mais atrito com os passadores durante o lançamento, reduzindo a distância alcançada.
O material de fibra de PE em si não possui memória, mas o seu revestimento rígido sim. E isso limita os nossos colegas do spinning....
Linhas mais macias e com menos revestimento exigem cuidados especiais no seu manuseio para evitar enleios, as ditas “cabeleiras”, mas permitem lançar mais longe.
E agora ficamos na dúvida: considerando o nível de proteção adicional contra a abrasão proporcionado pelos revestimentos e as suas desvantagens, que linha preferimos usar?
A resposta certa é esta: depende da técnica de pesca.
Eu a fazer spinning prefiro utilizar linhas com revestimento fino, ou sem revestimento, pois elas permitem-me lançamentos muito mais longos e um recolhimento mais suave.
Quando pesco jigging a opção é outra e diametralmente oposta: linhas mais macias e sem revestimento tendem a apresentar-nos problemas de travamento por afundarem nas espiras inferiores, por penetrarem entre espiras no carreto.
Explico-vos melhor: se a linha tiver a cobertura e estiver bastante esticada e firme, cada espira ocupa uma posição acima da anterior, logo quando desenrola segue a ordem natural de saída.
Caso a linha seja demasiado macia, sem cobertura, a pressão exercida pelo peixe obriga a que a linha supostamente da camada acima penetre a seu lado, que afunde e prenda na camada inferior.
Ao bloquear deixa de correr, trava, e aquilo que acontece é que a linha corta, rompe...porque a sua resistência transversal à abrasão é diminuta, a própria linha corta-se a si própria.
Na Europa e nomeadamente no nosso país, existe ainda a cultura do “diâmetro” da linha. Queremos saber dele em....milímetros.
É um absurdo já que quem faz as nossas linhas não sabe sequer o que é um milímetro. Da mesma forma que 99% dos meus leitores não sabem o que é uma onça...de peso, ou uma jarda ...de distância.
O diâmetro, se aplicado a um multifilamento, é apenas um valor estimativo.
Não é dessa forma que os japoneses determinam a classe das linhas que produzem. Essa classe é sim determinada pelo peso da linha.
O diâmetro e a resistência dependem de como a linha é trançada.
De qualquer forma, as linhas japonesas feitas para exportação, (de menor qualidade que as linhas feitas para o mercado interno...!!), também apresentam a resistência em libras (ou quilogramas), ...embora algumas indiquem isso e outras não.
No entanto, essa medida em libras difere daquela que é utilizada nos EUA. É isso que causa confusão e que faz com que as pessoas estejam completamente “baralhadas” quanto a estes dados.
No próximo número vamos continuar com este tema.
Vítor Ganchinho
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