DOURADAS - ELAS ANDAM AÍ...

É uma ideia peregrina essa de pensar que as douradas, um peixe comum na nossa costa, só aparecem por cá em Outubro, Novembro e Dezembro.
Nada mais errado.
A dourada é um peixe de todos os dias, assim as saibamos procurar e convencer a morder.
Sobrevoam as lajes de pedra batidas pelas ondas, lá onde cresce o seu alimento: bancos de mexilhões, lapas e perceves.
Trata-se de uma tarefa árdua, feita onde ninguém quer estar: na espuma, na ressaca do mar, onde tudo é mais difícil de fazer, onde as “condições de trabalho” são mínimas.
Mas é ali que elas se sentem como peixe na água, é ali que elas mariscam, dando uso à sua a sua poderosa dentição romba, própria para arrancar e esmagar.
É fácil saber por onde passam: deixam atrás de si uma longa esteira de cascas partidas.

Lindas! A minha simpática amiga holandesa, e a dourada que brilhantemente capturou, com cavala.
A minha veio por uma pele, ...presa por fora da boca. Vejam o filme abaixo.

Também os alevins não estão a salvo dos seus instintos predatórios, (perseguem e capturam regularmente pequenos peixes) e fazem-no ...todo o ano.
A dourada é um espárida menos comum que o sargo, mas temo-las com alguma abundância. E bravas, não douradas de aviário conforme acontece em locais onde as piscifactorias as perdem para a natureza por cortes ou outros acidentes na manipulação das redes de contenção dos viveiros.
Aqui ao lado, no interior do Mar Mediterrâneo, os valencianos pescam douradas fugidas das explorações de aquacultura como quem pesca carapaus, à conta da sua inocência.
Os bichinhos...acreditam.


O sentimento que um pescador tem ao pescar um peixe criado em cativeiro será pouco menos que desolador...
Embora se misturem de imediato com a população selvagem, estes exemplares não chegam a desenvolver os mesmos instintos apurados de sobrevivência que as nossas douradas possuem.
Devemos pensar que durante a sua fase de crescimento em tanques de engorda, são alimentadas a ração por humanos, e por isso confiam, deixam-se capturar facilmente.
Não é o nosso caso.
Continuamos a tê-las bravas, as nossas lindíssimas “Sparus aurata“, bem bravas, a fazer-nos suar para as conseguirmos.
Felizmente que assim é.

Douradas: um peixe que nos alegra sempre a pesca e, dando resposta à pergunta do meu amigo Patrick, sim: pode comer-se.

Confesso a minha predileção por pescar douradas com jigs, mas por vezes saio com clientes que me obrigam, pela sua insistência em pescar com isco orgânico, a pescar com filetes de cavala fresca.
Pescamos a cavala no local, recorrendo a pequenos jigs de 5 a 7 gramas.
Na verdade trata-se de uma tarefa divertida, rápida, a qual se executa em pouco mais de 10 minutos, mas para a qual eu tenho sempre muitos voluntários: todos os que estão a bordo.
Aproveito o tempo para preparar as canas de pesca ao fundo, distribuo panos para limparem as mãos, enquanto eles se entretêm a recolher a quantidade de cavalas necessárias para algumas horas de pesca.
Fico espantado por ainda haver quem compre isco...
Há quem adquira ganso coreano, navalha, ameijoa, etc, e gaste algum dinheiro nisso, sendo que as cavalas estão sempre lá, são “frescas”, e gratuitas.
Quanto aos resultados, a pergunta que se impõe é esta: conhecem algum peixe que não coma cavala?!....


Quando o banco de douradas encosta ao barco, a pressa de as conseguir não deixa muito espaço de tempo para comer.
Se isso coincide com o tempo em que o estômago reclama atenção, há que enganar o dito com qualquer coisa, porque o tempo de permanência do banco de peixes debaixo do barco é sempre limitado.
Sem aviso, a dada altura vão embora, saem e continuam mar fora a sua interminável procura de alimento.
Fazem-se danos com as linhas, ficam alguns exemplares bonitos nas caixas, mas o cardume segue a sua vida.


Vejam aqui abaixo a captura de um desses exemplares:

Clique na imagem para visualizar e na rodinha das definições para melhorar a qualidade.

A dourada goza de um estatuto que o sargo nunca terá.
Por razões que se prendem com a sua menor quantidade, mas porventura por atingirem dimensões que os nossos sargos nunca conseguirão, (por cá uma dourada de 7 kgs já é muito boa, mas na Galiza os espanhóis pescam-nas com ....9 kgs!!), as douradas sempre foram objecto de culto, de um lugar à parte, um pedestal reservado a peixes mais nobres.
Essa é a imagem que criámos ao longo dos anos delas: um peixe nobre.
Um cachorro vadio não lhes atribuirá mais valor que o dedicado a um sargo...
É tudo uma questão de estatuto.


Tivéssemos nós a paciência de as deixar crescer e teríamos douradas grandes para pescar durante todo o ano, e não apenas no período de desova, momento fatídico em que os bichos se encontram a comer para si e para muitos milhares de “projectos de futuras douradas” no seu interior.
O defeso da dourada de Outubro a Dezembro é algo que se impõe, para que as possamos pescar em quantidade e qualidade nos outros meses do ano.
Sem dúvida que isso terá forçosamente de ser extensivo à pesca profissional, aos homens das redes. Claro que sim!


Se cuidarmos delas, se as pouparmos a chacinas de juvenis de 12 cm pescados dentro dos estuários, se as deixarmos desovar em paz e sossego, as douradas voltam a ser o que já foram, e vão dar brilho a muitas das nossas pescarias.
Se bem geridas, ...douradas sim!


Vítor Ganchinho


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