TEXTOS DE PESCA - Desenrascar - Parte II

Disse-vos que a capacidade imaginativa do ser humano para resolver problemas tem o seu expoente máximo em África. 
Por aquilo que vi, por aquilo que passei naquelas terras, não tenho dúvidas de que, se os portugueses são bons a “safar” situações, temos quase tudo para aprender com os africanos. Desde logo porque têm muito menos recursos. Isso obriga-os a fazer muito com o pouco que têm. Vamos ver hoje mais alguns aspectos que para vós podem ser curiosos: 



A venda de mangas é algo de surrealista. Existem árvores deste fruto em todo o lado. A diferença de as apanhar da árvore ou comprar uma tijela delas, é muitas vezes uma questão de dez metros. 
Ainda assim, a profissão de “quintandeira” de venda de mangas existe. Mas espantem-se com isto: quem vende as mangas que estão nas árvores a dez metros da estrada, tem um intermediário, alguém que as apanha. 
O resultado da venda é dividido entre todos, embora o apanhador seja quem menos ganha. As mangas são deliciosas, sem fibras, e sumarentas. Uma porção como a que vêem acima custa à volta de 1 euro, preço para turista. 

 

Pode parecer-vos estranho…não é invulgar o artista que faz com as suas mãos este tipo de arte desvalorizar a sua obra, encolhendo os ombros, esboçando apenas um sorriso, de quem sabe que a peça final sempre esteve lá, dentro do tronco que esculpiu. O valor da arte em África é o valor do momento. Depois de concluída, pode ser vendida por meia dúzia de euros. O suficiente para esse dia. Porque a seguir, com mais madeira, a mesma ferramenta e as mesmas mãos, pode ser feita outra. 

A arte senegalesa é algo de extraordinário. A partir de quase nada, os artesãos fazem surgir peças que são absolutamente espectaculares. Quando visitamos os seus “ateliers” custa-nos a crer que seja possível que aquela peça tenha saído dali, com aqueles meios. 

Destas mãos e de um tronco de madeira encontrado no chão, saem incríveis trabalhos. 


Este quadro é bem ilustrativo daquilo que eu encontro em África: arte no seu estado puro.


Não negociar algo que se compra é absolutamente ofensivo para quem vende. Tudo aquilo que se compra é objecto de uma negociação que, se demorada e difícil, eleva os dois participantes a um nível superior. 
Quanto mais tempo dura a batalha negocial, mais em conta se têm os negociantes. Cada um esgrime os seus argumentos, até à exaustão. Quando fecham o negócio, que pode ser um peixe, uma garrafa de água ou um quadro, abraçam-se. 


Deixem-me falar-vos sobre as pirogas senegalesas. São chamadas de “Almadias”, têm o fundo triangular, e autenticamente voam dentro de água. Um motor de 15cv é mais que suficiente para as fazer disparar mar fora. A instabilidade é uma constante, mas ficariam espantados com aquilo que é possível fazer dentro de um barco destes. Eu já fiz surf nas ondas com elas. São feitas a partir de ripas de madeira, ao contrário das canoas guineenses e são tomenses. A almadia, nome dado pelos portugueses ao barco local, é uma embarcação extremamente versátil, que aguenta mar, que é rápida, que não exige nenhuma manutenção, e que transporta aquilo que há para transportar: peixe. 
Os tamanhos são diferenciados, sendo que é frequente o comprimento de oito metros. Existem modelos muito acima, para transporte de pessoas e ainda um tamanho intermédio, com os seus 15 a 20 metros, para pesca profissional. 
 


E depois, há a minha!
 


Uma piroga pode ser também motivo de arte. Esta, com a bandeira de Portugal estilizada na popa, e o nome de uma das minhas empresas, levou poucas semanas a construir. No fim de tudo, o erro também faz parte e neste caso, o nome da minha mulher saiu como Nevez, em vez de Neves. Eventualmente eu poderia ter casado com uma mexicana…mas não, não me venham com “burritos”, prefiro sardinha assada.
De qualquer forma, valeu. Quantos de vós já ofereceram uma piroga à sua esposa?!! 


Vítor Ganchinho




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