TEXTOS DE PESCA - Pesca ao robalo grande, na Nazaré

Nada tenho contra o sr padre Búzio. Pároco da freguesia de Barrio, concelho de Alcobaça, foi seguramente uma pessoa ímpar para todos aqueles que contribuíram com donativos para erigir o seu busto de bronze. Merecida homenagem a um homem que muito terá feito pela sua terra. Não tive o prazer de o conhecer pessoalmente, mas é minha forte convicção de que teríamos feito grandes pescarias de robalos juntos. A ajuda divina de um padre nunca será demais nestas coisas de ferrar uns peixes renitentes na picada. Protesto e discordo em absoluto é que não seja dado o mesmo tratamento ao meu amigo Mário Lopes!



O Mário não tem uma aldeia com o seu nome, não tem uma rua com o seu nome, nem tem sequer uma estátua no Sítio da Nazaré…ainda. Está desprezado! Mas merece ter e vai ter! Se o Garrett McNamara tem uma estátua só por ter descido uma onda empoleirado numa tábua de engomar, então o que merece o Mário Lopes por me ter convidado a mim e ao meu inseparável Gustavo Garcia para irmos aos robalos gigantes das pedras da Nazaré?! Um convite destes é de amigo, é de quem gosta de receber em sua casa, no seu mar. É de quem nos quer bem e gosta de nos ver felizes. Venha de lá a estátua para o moço!



Penso que o Mário, quando nos disse que o tempo iria estar bom, o mar calmo, a água com visibilidade, vento fraco de não levantar do chão uma pena de cú de galinha, estava convicto de que seria mesmo assim. Nós, na nossa santa inocência, fomos direitos à Nazaré como quem vai em peregrinação a Fátima, com fé, na mira dos robalões que levam fio, partem linhas e põem à prova os nossos nervos e habilidade de pescadores. Passámos as duas dezenas de portagens com um sorriso nos lábios, com o barco semi-rígido atrelado ao carro, uma remessa de caixas de esferovite para trazer o peixe, catorze canas de pesca amarradas com elásticos, e três malas cheias de amostras infalíveis. A rampa da Nazaré é indiscutivelmente boa, é larga e está desimpedida. Ficaria perfeita com um guincho eléctrico prático, maneirinho, para descer e subir o barco. Ou até manual, a exemplo daquilo que é corrente nos Açores. Bom e barato! Depois de uma hora a lutar contra a chapa de matrícula, os cabos, as cintas do atrelado e de andarmos a fazer ski nos limos verdes, o barco foi à água. 
Ao passar a Pedra do Guelhim para norte, levámos um soco no estômago: as ondas rebentavam muito longe da praia, impossibilitando encostar às pedras que o Mário tão bem conhece. Pensei para mim: mas o fim do mundo não era para ser só na próxima segunda-feira? Olhei para o Mário, desalentado. Ele mergulha, faz caça submarina, e é um mocinho encorpado. Teve azar: casou com a Sara que cozinha muito bem. Do alto dos seus 120 quilos, nem precisa de lastro para afundar, basta-lhe um capacete de mota integral para proteger a cabeça dos impactos nas rochas do fundo. Ex atleta de competição, tem no seu curriculum uma resma de robalos grandes com mais peças que a Colecção Berardo. Respondeu-me: “as previsões eram para mar chão, mas em média está um pouco acima de 3 metros”…



Penso que ele próprio reconhece que aquilo era motivo para administração imediata de uma injecção letal. Aquela coisa da eutanásia assistida, neste caso aplicada em série, a ele e aos artistas do Windguru, por ordem de chegada à seringa. Tentámos pôr em prática algumas técnicas de pesca conforme vem nos livros, …sendo que o resultado foram meia dúzia de sardas e cavalas. Havia peixe debaixo do barco, mas pelos vistos os robalos estavam desmotivados com o serviço, ou a banhos para o Cartaxo. Disse para os meus colegas: hoje é dia de comermos um magnífico jantar de peixe. Latas de atum. 
Com umas marcas de pedras na cota dos 40 metros, fomos tentar salvar o dia a pescar ao fundo, com isca, longe da costa. Na circunstância, aquilo era mesmo o melhor que se podia fazer mas confesso que preferia tentar ganhar a vida a pescar bogas numa baía abrigada. Entraram alguns carapaus do alto, fanecas do baixo, umas quantas sarguetas curtas e um besugo de dimensões épicas. 



Com o pessoal do sul já a gritar ao Gregório, o Mário bebia cervejas Super Bock em série, atacadas com sandes de presunto. Todavia, o mar cresceu mesmo demasiado, a âncora terá desgarrado da rocha, o peixe desapareceu e resolvemos voltar a terra. Mais escama menos escama, a pescaria estava feita. Para não ficar por lá perdido na espuma, o Gustavo Garcia benzeu-se, apertou bem o colete salva-vidas e firmou-se bem com os dentes ao varão de inox da consola. Aparecemos no porto da Nazaré com um baldinho de peixe, mas também com uma série de contusões e hematomas inexplicáveis. Um mar revolto daqueles faz pior ao nosso corpinho do que qualquer rapariga italiana de 30 anos, morena, assanhada e sedenta de folia. Não será muito diferente estar dentro do tambor de uma máquina de lavar. 




Era opinião generalizada de que tinha sido um grande azar o mar estar tão alto, porque sentíamos que o peixe estava lá, a sonda marcava cardumes a meia água e junto ao fundo. Para o Garcia, a pesca correu bem. Segundo ele, se não é necessário chamar a Policia Marítima pelo VHF para fazer um daqueles resgates em condições difíceis, se não somos içados de helicóptero e aparecemos nas notícias do telejornal, a coisa corre …bem. Mas levámos uma sova tremenda, e a protecção do porto de abrigo soube indiscutivelmente a uma entrada num SPA. Para andarmos no meio daquela espumarada aos pulos e cabeçadas, com resultados tão fracos, mais vale arranjar duas viúvas ricas e fazer-lhes  a manutenção. Sempre se lhes pode exigir uma renda mensal. Uma pescaria daquelas é um horror, desanima o mais aficionado. Mais triste, como costumo dizer, só chorando aos gritos. 
No dia seguinte, o Mário prometeu-nos um dia melhor, até às 13 horas. A partir daí, as coisas iriam “aquecer”, com vento de 40 nós. A rapaziada é crente. Todos nós acreditamos na irmã Lúcia e nos 3 pastorinhos e às seis da manhã já estávamos a pé. A pesca tem um horário religioso: começa cedo e acaba quando Deus quiser. Pequeno-almoço com meia dúzia de nêsperas do quintal, e aí vão eles, prontos para a guerra com os robalos. 
Nazaré, 7.00 AM: uma ventania de morrer. Olhei para o Mário e ele olhou para mim, com aquele olhar de quem sabe o que está do outro lado da falésia. Fui ver o mar. Eles gostam sempre que seja eu a ir ver o mar. Vaga cavada, espuma longe da costa, cristas das ondas a partir…percebi de imediato que não ia dar. A Pedra do Leme aparecia e desaparecia, submersa na vaga. Eu tenho um sexto sentido para estas coisas de não pôr o pé na água quando não vale a pena. Fazendo as artes marciais parte do meu curriculum técnico, tomei a decisão, enchi o peito de ar e avancei sem medos direito aos meus dois companheiros. 
_Rapazes, sei que tinham grandes expectativas e que se levantaram de madrugada para vir pescar, mas…isto está lixado. Não vamos!

Dois malandros! Gustavo Garcia e Mário Lopes.


Desânimo geral. O meu amigo Mário, por não demonstrar arrependimento sobre as suas fracas previsões meteorológicas, foi logo ali condenado a duas prisões perpétuas consecutivas. Caminhámos até ao molhe junto à praia, onde estavam a pescar uns quantos atletas à bóia, ao sargo e a tudo. Canas de 5 metros, oxigenador para camarão vivo, tiagem, minhoca branca, a mesa estava posta. Resultados nulos, pese embora um deles nos tenha dito que lhe tinha fugido um sargo de quilo e meio, mas que não chegou a ver porque desferrou. Olhavam uns para os outros à espera de um sinal, que teimava em não chegar. Nesta coisa da pesca de muralha, penso que a única forma forma de garantir picadas sucessivas é excomungar o mau-olhado, fazendo uma benzedura de água com azeite. 
Saímos dali e fomos tomar um café a uma sociedade recreativa. Reuniu-se o comité de crise, e foi decidido que iriamos pescar para o mato, com as canas de Light Rock Fishing. Há valas de rega com água doce, junto aos pomares. 

O pesqueiro.


A ideia era ir pescar rãs à linha, algo corrente e habitual na Nazaré quando os robalos não picam. Posso dar-vos uma descrição pormenorizada do equipamento utilizado, afinal eu estou aqui é para vos ensinar a fazer estas coisas: Cana Daiwa Infeet de acção 1-7 gramas, carreto PENN Clash 2500 com 250 metros de linha trançada J- Braid de 0.06mm e chicote em nylon de 0.20mm. Não foi necessário em circunstância alguma dar linha aos bichos, mas convém estar preparado para tudo, deixar a embraiagem um pouco solta, porque nunca se sabe se aparece um sapo grande que arranque com o anzol cravado pela vala fora. Este é um tipo de pesca específica que não vale a pena fazer embarcada, pesca-se da margem. Como amostra, utilizei cabeçotes de 5 gramas e vinis da Savage na cor rosa e madrepérola. Notei uma preferência generalizada por esta última, embora tenha tido bastantes picadas com a Sandeel Slug Savage rosa. Se não resultar, podem sempre recorrer a uma iscada de linguiça assada no álcool. Se não fosse eu a dizer-vos isto, não sabiam. Isto de ensinar a pescar é arte e deve ser reconhecido como tal.



Basicamente, a técnica mais simples consiste em lançar para cima da rã, que numa primeira fase mergulha e se afasta esbaforida, mas depois de algumas subidas e descidas, à conta da falta de ar, volta à superfície e já encara com melhores olhos a questão da picada. Tivemos muitos casos de picada dupla, em que se lançavam várias ao mesmo tempo sobre a amostra, o que quer dizer que há possibilidades de utilização de baixadas de vários anzóis ou mesmo anzóis triplos. Com alguma subtileza, pode fazer-se passar a amostra à frente dos olhos da rã durante alguns segundos, imitar uma mosca ou uma libelinha e provocar a picada. Não bandear a isca mais do que dez vezes à frente dos olhos dos bichos, porque os batráquios podem ficar hipnotizados. Isto é muito técnico. As rãs ficam a olhar para a isca com os mesmos olhos vidrados das mulheres que param em frente às montras das lojas da Louis Vuitton para ver malas e sapatos. E lançam-se. As rãs e as miúdas. Não precisam de me agradecer estas dicas. Estes cursos de pesca por correspondência que vos dou não estão sujeitos a receita médica e são gratuitos. No entanto, se não obtiverem resultados e em caso de dúvida ou persistência dos sintomas de falta de picadas, é virem à GO Fishing fazer um curso intensivo de pesca à rã. 



De resto, os workshops da GO Fishing estão a ficar famosos. O último que fizemos, sobre a pesca ao peixe-agulha pequeno com iscada de bifanas de Vendas Novas, esteve animado. Houve troca de tiros entre as primeiras filas da audiência, tendo o orador ficado ferido com um projéctil no céu-da-boca. 


Vítor Ganchinho



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