TEXTOS DE PESCA - Pesca às douradas na Vereda - Episódio 1

Pedro Meireles nunca foi um homem de sorte com as mulheres. Sempre rejeitado por aquelas a quem quis dedicar o seu amor, de menor fluência no verbo, com conversa a menos, outras vezes a mais, nunca conseguiu acertar o passo com as ditas. Apaixonava-se mas não era correspondido. Quando um dia julgou ter encontrado a mulher dos seus sonhos, Verónica, uma morena capaz de lhe fazer coagular o sangue, bonita de cara, longos cabelos brilhantes e um par de peitos daqueles que empurram a camisola para a frente até ao limite elástico do tecido, pernas bem depiladas, linda, aquela por quem ele seria capaz de fazer tudo, mesmo tudo, …ela confessou-lhe estar apaixonada por outra pessoa. Na circunstância, por uma médica espanhola. Isso arrefeceu-lhe o entusiasmo pelo sexo oposto a níveis de gelo glaciar, e foi um enorme incentivo à sua dedicação à pesca à linha. 
Resolveu pois mudar de ramo e investir todas as suas economias em material. Ao fim de umas semanas, a lista de despesas com canas, carretos, chumbadas, anzóis e missangas, estava idêntica ao orçamento de construção de um porta-aviões americano. Findos os preparativos, chegou o momento de fazer a sua primeira saída de mar. Para a Vereda pois, a famosa pedra das douradas. 


Para o Bruno Cabrita, esta é apenas mais uma…mas ele pesca como poucos. 


Acordou cedo, impaciente e mal dormido. Eram 3,25h da manhã. Tinha a certeza sobre a hora exacta, porque o relógio do quarto estava parado nas 3.25h havia um ano, por falta de pilha. Não tendo ideia do que iria encontrar, fez-se acompanhar de grande parte do seu novo equipamento. As botas de borracha até ao peito, um kit completo de pesca à mosca, e inclusive a tenda de carpfishing camuflada, uma última inspiração do vendedor da loja de pesca, pressupostamente necessária. Uma empresa de mudanças facilitou-lhe o camião com báscula necessário para que se conseguisse apresentar a tempo e equipado na marina de Sesimbra. Ali estava ele, pronto para a sua primeira experiência de pesca numa embarcação marítimo-turística. Sem conhecer ninguém, deu um bom dia sussurrante, não correspondido, e entrou para o barco ocupando o lugar que lhe destinaram. Exactamente ao lado de um mocinho novo, cabelo rasta aos canudinhos, sinais evidentes de pouco banho, pouco juízo e pouco dinheiro. Resolveu meter conversa: 
_ Nós não nos conhecemos? Dá-me ideia de que já nos cruzámos em qualquer lado. Ou então vi-o nas notícias. O amigo por acaso não tem cadastro na polícia? Não foi preso por roubo de esticão?
Não lhe respondeu. Percebeu que não era pessoa de muitas falas. Sentia-se um pouco só, largado na natureza, sem ter com quem conversar. Pelo canto do olho viu que estava vago um lugar do outro lado do barco. Carregou com todos os apetrechos e foi sentar-se ao lado de um individuo que se destacava pelo seu porte físico. Perguntou-lhe: _ E então, …a água está lusa? O peixe está fixe?
Sem resposta, resolveu concentrar-se na pesca em si, e fez a montagem do carreto na cana. A seguir, conforme constava no catálogo, armou um chicote de nylon, com missangas coloridas, crossbeads, estralhos de aço e tudo o que era necessário para decorar uma árvore de Natal. Sentia-se pronto, e de acordo com o figurino. 

Arrábida no seu melhor: a Pedra da Anicha.


Segundo o dono da embarcação, estavam a chegar ao local. Fateixa ao fundo. Dizia o mestre: _Este sítio é tão bom e tão secreto que nem a minha mulher sabe as marcas. Só eu é que sei! Estão apontadas num papel, guardadas na caixa forte do banco. 
Os homens olhavam à volta e viam dezenas de barcos à volta deles, encostados, a pescar. Pedro Meireles ripostou: _ Então e estes barcos todos que estão aqui à nossa volta?
O que ele havia de dizer! O comandante não se conteve: _Oiça lá! Se eu digo que aqui este pesqueiro é bom, é porque é! Este sítio é autêntica água benta. 
Um dos pescadores, habitual na traineira, sussurrou-lhe ao ouvido: Você esteja calado. O ano passado, quando o mestre ia despejar o lixo ao contentor, foi abalroado por dois homens encapuzados, vestidos de escuro. Depois de o deitarem ao chão, ataram-lhe as mãos, injectaram-lhe um líquido roxo no pescoço e jogaram-no para dentro da mala de um carro. Quando veio a si, estava atado a uma cadeira e tinha um saco plástico na cabeça. Queriam saber as coordenadas deste sítio. 
_ Pois sim. Olhando à volta, está visto que ele…deu-lhas. Certo?
_ Não! Ele não se chibou! Durante dias, foi pressionado, levou choques eléctricos, meteram-lhe uma broca de cimento pelo ombro dentro, arrancaram-lhe as pestanas com um alicate, meteram-lhe palitos entre os dedos e as unhas, foi queimado com cigarros nas costas, meteram-lhe a cabeça dentro de um balde com água quente, mas ele não lhes deu o ponto! Mandaram uma das orelhas numa carta registada com aviso de recepção à mulher, a avisar que, caso não enviasse o ponto GPS de imediato, o iriam matar. Ela pôs logo luto carregado, porque não sabia mesmo de nada. Voltaram à carga com murros, chicotadas, arrastaram-no no chão preso pelo pescoço com um arame farpado, mas ele não abriu a boca. Ameaçaram-no que nunca mais iria ver a mulher, e ele encolheu os ombros. Por fim, quando lhe disseram que nunca mais iria ao Estádio da Luz ver a águia Vitória, fez um semblante carregado e deu umas marcas que ficam a dois metros deste sítio. Por isso é que estes barcos todos estão aqui. 
Dezenas de barcos tentavam as douradas na Vereda. As moedas tilintavam nos bolsos dos arrumadores de barcos, que não davam mãos a medir. Pedro Meireles acabou de montar a sua cana de carbono e largou dois caranguejos gourmet para o fundo. Seguiu a chumbada com os olhos, sempre a olhar para baixo. Às tantas enevoou a vista e sentiu um ligeiro mareio. Fixou a vista no horizonte. Tinham-lhe dito para fazer isso, que resultava muito bem contra o enjoo. Não via era a cana. Tentou colocar um olho na cana e outro nas chaminés de Sines. Apenas conseguiu uma blefarite aguda na vista, mas o resultado era nulo. À sua volta via-se peixe a subir para o barco. Era uma guerra aberta, um Vietnam de peixe, douradas aos molhos, e ele sem conseguir olhar para a ponteira. Sentia-se desgraçado e infeliz por não ser estrábico.
_ Eu puxo quando a cana mexer, …é isso? Ninguém lhe ligava. Via os outros a levantar a cana com força. Com uma incredulidade que normalmente reservava apenas para situações de recebimento de dinheiro de volta das Finanças ou avistamentos de OVNIS, começou a tentar dar esticões violentos seguidos, na ânsia de conseguir ferrar qualquer coisa. _ Vocês não desistam de mim!...Ajudem-me! Os outros todos a puxar peixe, a pescar douradas grandes, e ele nada. Tinha o balde do peixe vazio. Já se viram dias de finados bem mais entusiásticos. Em desespero, olhava para o outro lado do barco, na tentativa de encontrar alguém que lhe explicasse como fazer. O último pescador da proa dizia-lhe algo sobre pescar ao sentir, mas ele no meio de tanto barulho não o ouvia e muito menos entendia as instruções. Tentava ler nos seus lábios, mas na verdade, aquilo que lhe via não era perceptível, nem sequer muito diferente dos movimentos labiais ritmados de uma estrela sexy-porno em serviço. Recolheu a chumbada e viu que estava sem isca, os anzóis estavam limpos. Já tinha visto coisas muito mais estranhas na vida, mas de momento não lhe ocorria nenhuma. Descascou mais dois caranguejos e lançou para o pesqueiro do calmeirão do lado. 
_ Tu tás a pescar no meu pesqueiro?! Não tás a ver que vais enlear isto tudo? Chega pra lá a cana! Não queres antes pescar com uma bengalinha de cego?! E continuou, dizendo coisas que o Coro de Sto Amaro de Oeiras teria dificuldade em cantar sem se sentir comprometido e ruborizado. 
_ Eu é a primeira vez que pesco, estou pouco prático. Não sinto nada e vocês estão fartos de pescar peixes grandes. A mim, parece que me besuntaram as iscas com Raid Casa&Plantas!!  Acho que aqui neste lugar, a única coisa que consigo apanhar é um melanoma na pele. Vou voltar para o outro lado do barco. 

Gustavo Garcia com um peixe piloto atrevido.


Com a maré a baixar, a ondulação a subir, andava tudo aos tombos. Olhou, mas não viu nenhuma placa amarela a dizer “ piso escorregadio”. Foi à confiança. Arrastando os equipamentos todos, passando por cima das canas, dos fios, e dos parceiros de pesca. 
_ Sócios, desculpem lá pisá-los! Numa manobra menos bem calculada, pregou uma cotovelada no olho de alguém a quem fez saltar a lente de contacto. Derrubou dois baldes, e perdeu alguns minutos a ajudar os donos a juntar os peixes que saltitavam no convés como se estivessem a ter lições de samba. Pedro estava com vontade matar o apresentador do Boletim Meteorológico. Os comentários eram pouco abonatórios: “Não pára quieto, de um lado para o outro! Tem hemorróidas ou quê?! Este gajo faz tanta falta aqui como o cancro da mama!!”
Quando chegou junto do rasta, comentou: _Voltei! Daquele lado o barco baloiça muito. 
Não lhe respondeu, encolhendo apenas os ombros. As horas a passar, todos a tirar peixe, e ele nada. A ideia de se aconchegar com um cinturão de explosivos e antecipar a ida para o céu, começou a tomar forma. Ainda assim, e com grande pesar das 40 gajas boas e mamalhudas que o esperavam, resolveu lançar mais uma vez, iscando com uma tira de choco. Passados segundos, sentiu um peso na cana, e resolveu enrolar a linha. Estava pesado. Vinha devagar mas com peso. O colega do lado esquerdo, Zé de seu nome, largando milhares de perdigotos da boca, disse-lhe: _Pesa? Deve ser um polvo. É certo e sabido que se não cabeceia, é um polvo. Com tração às 4 rodas e as redutoras engatadas. Vou-lhe explicar: É como se ferrássemos um presunto de Barrancos. Faz peso mas dá pouca luta. Não cabeceia, …percebe? Com tempo e paciência isso sobe! Tudo sobe. As moças do ataque que o digam. 
Pareceu-lhe que o Zé Pedro poderia ter razão. Podia ser um polvo. Começava a gostar dele, parecia ser boa pessoa. Provavelmente, com tanto perdigoto, não seria bom estar por perto sem um guarda-chuva, sobretudo se ele viesse-se a dizer a palavra “destorcedor”. Ficou a olhar para o fundo. Eram metros e metros de linha. Com o coração a dar pancadas brutais entre as costelas, os pulmões a ameaçar saltar pela boca, olhou para a água e viu aproximar-se uma mancha clara. Fosse o que fosse, era grande! E ali estava ele, tentáculos bem abertos, enorme, com um ar meio atabacado, a jorrar tinta preta do sifão. Era um polvo bom, jurássico, velho como os filmes da Pamela Anderson a correr na praia em fato de banho vermelho, com as mamas aos saltos. 
Conseguiu finalmente cativar a atenção do colega do lado: _ Bom polvo! Um bicho destes é como o sexo anal: aparece uma vez por ano. Valente bicho!
Quando tentou ajudar o estreante a sacar o polvo do camaroeiro, Pedro Meireles, cioso da sua captura, ferrou-lhe os dentes no pulso com força. “Deixe-me ser eu a fazer. Tenho de aprender a tirar o anzol.” 
Animado, esqueceu por instantes o tormento do enjoo que o matava. _ Sabe amigo, parece que estou choroso, mas isto é alergia ao pólen do mar. Eu sinto-me muito bem. 
E continuava, animado, pensando que a vida poderia ser perfeita, se houvessem muitas douradas grandes, anzóis e fios com fartura, canas e carretos, e uma boneca insuflável de tamanho médio. Tinha a barriga às voltas. Bem que o tinham avisado que não havia maneira de se desenrascar a bordo da traineira. A casa de banho ali era deitar fora pela borda, mas quem é que iria atrever-se a fazer isso no meio do pessoal a pescar? Tentou aguentar o máximo possível. Pelo sim pelo não, mandou-lhe com 14 Ultralevures e 6 Imodiuns fortes, em carteirinhas efervescentes, para acalmar os intestinos. Durante três meses e meio viria a sentir-se algo obstipado. 
_Vamos lá rapazes, isto agora é para dar tudo! E lançou mais uma vez para o fundo. 

As douradas e sempre elas, a mexer com o mundo da pesca.


Pensou para si mesmo: Ora digam lá se isto não é muito melhor do que estar internado! Um individuo estar à pesca numa traineira, um dia de sol bonito, não é bem melhor que andar a deambular entre camas de hospital, a ver velhotes a passar pelos corredores com pijama às riscas, com os penicos na mão, os tabuleiros das bolachas maria, as algálias cheias, enfermeiras velhas com ar aziago. Quanto mais não vale o ar puro e a brisa marítima? Sob todas as perspectivas, mais valia levar com uma cagadela de ganso patolas em cima, do que um espirro ou uma tossidela profunda de um doente tuberculoso. Sentia-se mesmo feliz.
Passou ao largo um barco à vela, devagar. A bordo do veleiro, uma loira dos seus 30 anos em bikini era olhada pelos colegas pescadores como se fosse bife do lombo. Infelizmente ia com o acompanhamento ao lado, o marido. Durante minutos, não houve um toque, ninguém levantou a pesca. O pessoal, concentrado nas formas curvilíneas, comunicava da popa para a proa, em código morse. Todos pensavam no mesmo: espojar-se em cima dela. 
Pedro Meireles foi forçado a quebrar o encanto e o silêncio: _Tenho algo agarrado! Vem qualquer coisa presa e tem de ser muito grande! É enorme! Eu sou bom é nisto! Nasci pr`á pesca! E ainda a minha mãe me queria ver como vendedor ambulante de cobertores eléctricos.
O colega do lado, pendurou-se da amura do barco, espreitou para baixo e resolveu dar um palpite: cá para mim, e com a cana dobrada dessa forma, é uma dourada. 
_ Seja o que for é muito grande. Parece que ferrei um porteiro de uma discoteca africana em zona duvidosa, ali p`rá Musgueira. Vem a largar faíscas. Isto é coisa que o bicho está encharcado em Viagra! E continuava a fazer força na manivela do carreto, os dentes a morder a língua, os braços a dar tudo, a despertar em si a sua veia de camionista. 
_ Trabalhe o peixe. Tem a cana toda dentro de água. Suba a ponteira da cana! Dizia-lhe Zé Pedro, temendo o pior. 
_Mais?! Mais alto do que isto, só se montar uns andaimes, já estou em bicos de pés!
Sentia que chegara a sua hora de saborear um pouco de honra e glória. Mas a má disposição não passara. De olhar para a água com a cabeça baixa, voltou novamente a surgir-lhe um enjoo felino. Mudou de cor. A dada altura já não distinguia o Zé Pedro nem o mocinho rasta de uma laranja cortada às rodelas. Manivelava freneticamente, na ânsia de poder ver o peixe. Quando chegou à superfície, ...um lindo piço laranja e branco. Preso pela barriga, como a maior parte dos piços. _Isto por acaso, é …bom?…perguntou, pouco convicto.
O Zé Pedro, compadecido das dificuldades do camarada, olhando o pequeno e miserável peixe, daqueles que recebemos a bordo sempre com má vontade e eventualmente com uma saraivada de tiros de revólver, resolveu animá-lo:
_ Então não é?! dizia-lhe, condescendente. _Não desanime. Sabe que estes peixes, para além de serem bonitos, também se comem bem, fritinhos. Por exemplo, na Sexta-feira Santa. 
Nada convencido e vendo os outros todos a pescar douradas de bom tamanho, atacou a lata do caranguejo com esperança redobrada. O eterno dilema, iscar com ou sem patinhas, foi rapidamente ultrapassado pelo ressurgir de um nó na garganta, umas voltas ao estômago, a ameaçar enjoo iminente. Fixou a vista na proa do barco. Não passou. Inspirou fundo. Não passou. Emborcou sofregamente o resto dos comprimidos Vomidrine com meia garrafa de água. Lançou a pesca mas já com pouca convicção. A primeira golfada foi cair em cima do rasta. A partir daí, foi tudo o que tinha no estômago. Sentia-se tonto, sonolento. Os movimentos saiam-lhe lentos e pastosos. Teve ideia de que o colega lhe perguntou se estava bem. Na verdade, estava a pescar sem chama, sem ver o que estava a fazer. Tinha engolido uma caixa completa de sedativos em 10 minutos, e os comprimidos faziam o seu efeito. Meireles oscilava entre o parado e o adormecido. Qualquer cadáver, ainda quente, pescaria com mais nervo e com mais decisão. 



O companheiro do lado tocou-lhe no ombro para entender se estaria consciente. _ Sente-se bem?
Abriu um dos olhos. O rasta tinha-se pirado, e estava a pescar em cima da cabine, a 2 metros de altura. Procurou concentrar-se no que estava fazendo. Deu-lhe ideia de que algo fazia vibrar a ponta da cana. Tentou ferrar, mas o melhor que conseguiu foi inclinar-se perigosamente para a borda do barco. Uma vaga, um balanço, e ali estava ele, de cabeça para baixo, caído ao mar. 
_ O artolas caiu ao mar!, gritava o rasta, de mãos na cabeça. 
As tonturas não o deixavam raciocinar devidamente. Dali até à Comporta, a nadar à cão, eram seis dias na água. Na direcção do mar aberto, indo com as correntes para não se cansar, o ponto mais próximo era Lampedusa. Sentiu um frio pela espinha acima, o coração parou, e deu por si a tentar chegar ao barco. Enquanto lutava por dominar a técnica de nadar agitando freneticamente os braços e pernas, e de se aproximar o mais que podia, engoliu meia dúzia de gorgolejos de água salgada. Não viu a bóia enviada pelo mestre. Também não viu os canudos do rasta, desesperadamente lançados para ele se agarrar. O seu colega Zé Pedro, de estômago cheio e a fazer a digestão de um croissant com fiambre, não se atreveu a lançar-se à água. Resolveu pescá-lo. Lançou-lhe primeiramente uma Rapala de superfície, 12 cm, cor chartreuse, com dupla fateixa, mas não pegou. Tentou a seguir com um popper azul, a imitar sardinha, com anzol simples, também olimpicamente ignorado pelo esbracejante Meireles. Respirou fundo e foi acabar de comer um mil folhas com creme para acalmar o estomago. Limpou as mãos à toalha, e lembrou-se de tentar algo mais afundante, na circunstância um vinil soft-tail com cabeçote de 90 gramas, na cor rosa. Funcionava bem com as corvinas. Reduziu o diâmetro da linha e aplicou um 0.25 em fluorocarbono. Lançou para onde já só se via a ponta de um nariz e algumas bolhas. Achou-o mais receptivo à amostra. Desta vez mordeu e mordeu bem. Conseguiu rebocá-lo até ao barco, com o devido cuidado para não partir a linha, dando fio quando tinha de dar fio, trabalhando bem com a embraiagem. Já junto ao barco, Meireles foi então embicheirado pelo sovaco. 
Perguntou-lhe o mestre: _Então homem, …como é que se arranjou? Teve um mareio?
_ Tou ben. Tilando o inzol que teno clavado no canto de lígua, qase nã me dói nad. Esto pasa. 
Mudou de vestimenta, desta vez para um fato de mergulho em neopreno, colocou duas bóias à cintura, e depois de desferrado pelo mestre com um alicate, voltou a pescar. Olhava com inveja para os baldes dos outros, cheios de douradas. Compadecido, um dos colegas veio oferecer-lhe uma cavala. Agradeceu mas recusou: _ Eu quero mesmo é tirar uma dourada grande. Para andar a pescar miudezas, antes prefiro um gelado com 3 bolas. Esta má disposição é que não me deixa trabalhar, mal consigo abrir os olhos. 

Todos querem douradas bonitas…


Lançou uma pesca oferecida pelo Zé Pedro, conhecida por chumbadinha. Num dos anzóis colocou um caranguejo, no outro, um donut bem embebido em chocolate Bolicao. Foi tiro e queda. Mal atingiu o fundo, sentiu um esticão violento que quase lhe arrancou a cana das mãos. O efeito sedativo dos Vomidrines não o deixava reagir a preceito. Saltava linha do carreto. Já se viram filmes do Bruce Lee e do Chuck Norris com menos violência. A ser uma dourada, era daquelas que merecia umas seis idas a Fátima, de joelhos. Sem força nos braços, sentiu-se fraquejar. Deu-lhe a sensação de ter adormecido a meio, mas com esforço e arreganho manivelou mais um pouco. Via uma coisa amarelada a subir. Ou era a Shakira, ou era mesmo uma dourada grande. Recorreu ao resto das suas forças, e conseguiu encostá-la ao bordo do barco. Era um grande cachucho de dourada! A primeira da sua vida. Faltava-lhe o camaroeiro. Gritou por ajuda em desespero, mas ninguém lhe valia. Todos estavam ocupados a puxar peixe para cima. Gritou pelo mestre. Estava na cabine, a olhar embevecido para uma foto de um calendário oferecido por uma garagem de bate-chapas. A dourada dava luta e não se rendia. Com a cana toda dobrada, tentou chegar ao camaroeiro. Com a mão esquerda segurava na cana e com a direita tentou esticar-se até ao limite. Estava a um palmo da rede. Nisto, afrouxou um pouco a linha, o peixe desferrou-se e fugiu. 
Desesperado, Meireles mudou de cor para branco pálido com riscas verdes. Se era possível um peixe daqueles fugir, se as coisas se podiam passar daquela maneira desoladora e sem piedade, isso era uma perfeita injustiça. Ficou repentinamente com suores frios e com a boca seca. Sentiu palpitações. A língua colou-se-lhe ao céu-da-boca e não conseguiu articular bem as palavras “ora bolas”. Saiu-lhe outra coisa. Começou a perder os sentidos. Ao longo da traineira, o pessoal da pesca, alinhadinhos na amura do barco, em fila como nos concursos da Miss Universo, olhavam para ele de olhos esbugalhados e viram-no desfalecer, lentamente. Previa-se o início de um ataque cardíaco. Foi feita uma breve reunião do gabinete de crise. Considerando o estado crítico dele, ao drama da situação e atendendo à quantidade enorme de douradas que já tinham nos baldes, foi decidido que continuavam a pescar. No entanto, adivinhando o pior, o mestre resolveu dar por terminada a pesca, voltando ao porto de imediato. 
_Já vamos embora?!-protestava um dos ocupantes. Às 5 da tarde!? Eu paguei 40 euros! Então tinham-me dito que no fim até íamos ter fogo-de-artifício e danças de varão à proa!... 
Pelo VHF o mestre pediu uma ambulância do INEM à chegada. 

A ambulância já estava no cais à espera do desafortunado Meireles.


Pedro Meireles não dava sinal de si. Estava atordoado, num estado de saúde a precisar de uma injecção intravenosa de um líquido qualquer. Em completo estado de desidratação, com os rins a trabalhar em seco, conseguiu ouvir, ao longe, alguém dizer: 
_ É natural que fique assim. Parecia ser uma dourada grande, e para quem nunca pescou nada, é um abalo muito grande. O moço até podia vir a ganhar o prémio Dourada do Ano-Tony Carreira com aquele peixe. E logo este ano, que o prémio é uma garrafa de anis escarchado. Vamos lá ver se ele se safa.  
À chegada, a ambulância esperava-o com as rotativas azuis ligadas. Atado que foi à maca, o carro arrancou desalvorido direito às urgências do Hospital Curry Cabral.


Vítor Ganchinho



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