TEXTOS DE PESCA - Pesca no Hospital Curry Cabral - Episódio 2

A primeira coisa de que se lembrou quando voltou a si, foi: _Então e o meu balde do peixe?
A enfermeira de serviço procurou descansá-lo, dizendo-lhe que tinham guardado o polvo nas câmaras frigoríficas da morgue, congelado, junto com um acidentado num desastre de mota. 
_ Descanse um pouco, dizia ela. Você passou por um momento muito mau. 
_Há quanto tempo é que estou aqui? Não me lembro de quase nada. 
_Vai para um mês. Sai hoje. Têm vindo cá duas pessoas todos os dias. Um mocinho com cabelo rasta, e um senhor que diz que é o Zé Pedro. Ele trouxe-lhe umas queijadinhas de requeijão. 
Como tem estado em coma profundo, e eu achava que você não se ia safar, tenho-as ido comendo eu. Pediu-me para lhe perguntar onde é que está o vinil soft-tail com cabeçote de chumbo de 90 gramas, na cor rosa, da Daiwa. O que funciona bem com as corvinas. 
_Então e o rasta? Ele veio ver-me todos os dias? O mocinho é boa pessoa. 
Daí a pouco, entrou mesmo o rasta, o seu companheiro de aventura. Logo a seguir a mulher, feia como uma noite escura de trovoada, carregada de tatuagens, também com cabelo rasta, empurrando um carrinho de bebé. Pedro Meireles achou que era demasiado tarde para a humanidade: já se tinham reproduzido. 

O colega de pesca da traineira de pesca embarcada.


_E então, como é que está?
_Sinto-me bem, obrigado. Já sei que tem vindo cá todos os dias. Eu devo sair hoje. Estou fino!
_ Pois, era a ver se me podia pagar uma camisola nova, porque o amarelo do seu vomitado está entranhado, não sai.
_Ah, obrigado…pois, não será por isso. Então e o resto da pescaria? Correu bem? 
_ Mal, …correu mal. Viemos logo embora, quando entrou em coma. O mestre arrancou com a âncora pendurada, porque ninguém quis ajudar a subir o ferro. 
_Sim, …pois. Nisto, entrou o Zé Pedro, sorridente. _Então como é que estamos hoje? Está com melhor cara. E o seu colega de quarto, também me parece estar mais bem encarado. 
Pedro Meireles reparou então que não estava só no seu quarto. Perguntou educadamente o que tinha o seu colega de infortúnio.
_ Eu estou aqui há três meses. Tenho uma hepatite. Ou seja, esqueci-me completamente como é que se empatam os anzóis. Tenho estado estado muito mal, porque a seguir a juntar as duas pontas do fio de nylon, não me lembro de mais nada. Varreu-se-me a maneira de fazer a volta à argola. 
Dizia-lhe o Zé Pedro: Trouxe-lhe uma revista de pesca, com um artigo interessante, “ a pesca à dourada com caroço de pêssego de roer”. Colam-se umas patinhas de silicone, e fica a parecer um caranguejo. Tem também um artigo técnico de três páginas sobre a pesca ao robalo com explosivos. Ensinam em detalhe a fazer as bombas. Há aqui muito que ler e você precisa de distrair o tempo. Eu perguntei por si lá em baixo na recepção e disseram-me que estava na ala dos doentes terminais. Mas tirando as olheiras negras e fundas, o amarelado da pele e a queda total do cabelo, …estou a achá-lo um pouco melhorzinho. 
Chegou então a enfermeira: _Sabe que vai sair daqui, dos cuidados intensivos? E nisto começou a juntar os pertences de Pedro Meireles. Disse-lhe então: _ Quem esteve aí foi uma morena, a perguntar por si. 
_Uma morena? Como assim? Diga-me tudo o que sabe sobre isso! Não guarde segredos e diga-me a verdade, olhe que é melhor para si! 
_Sim, esteve cá uma senhora alta, bonita. Diz que volta. 
_ Bom, eu fico aqui. Eu não quero ter alta. Disse-me que a senhora voltava, é isso? Estou com umas tonturas que nem posso. E tenho a língua branca, cheia de aftas. Eu é que sei. Não me podiam mandar vir os quadros lá de casa? Eu sei que vou ficar aqui muito tempo. 
Daí a segundos, ouviu um som de saltos altos a bater no chão, compassadamente. Alguém se aproximava. O coração começou a acelerar. Pedro Meireles salivava por todos os lados. Já se viu muito menos água em concursos de Miss T-Shirt molhada. Podia perfeitamente ser Verónica, a eleita, a deusa dos seus sonhos. Mas não, era ainda melhor, tratava-se de uma médica espanhola, Dra Paloma, a psicóloga de serviço, que era uma bomba, e com muitos calores. 



_Então já está acordado? Finalmente! Como se sente?
_ Mal! Muito mal! Tão depressa não saio daqui. Tenho catarro, formigueiro na língua e porque tomei uma dose cavalar de Ultra-levur, estou entupido até ao pescoço. Não sinto as pernas. 
Ela olhou-o fixamente nos olhos. Fez um pouco de vento com as pestanas carregadas de rimmel para a cara do estasiado Pedro, e lamentou: 
_Que pena! Eu estou de serviço aos doentes que estão melhorzinhos, em convalescença, na outra ala. Disseram-me que é um pescador tremendo. E o que eu gosto de pesca. Sou perdida por pesca!... Exibia um decote assanhado, peitos empinados a saltar para fora, que obrigaram de imediato Pedro a um looping invertido:
_ Bom, na verdade eu já estive pior…agora até estou quase bom, sinto-me bem melhor. Nunca estive tão bem! Veja o cardio-frequencímetro, quase não mexe, estou com 240 pulsações. Não é nada! 
Pedro gaguejava e sentia que estava a haver um grande terramoto, embora apenas em cinco metros em seu redor. Quando se pergunta a um condenado qual o seu último desejo, 98 em 100 querem aquilo que estava a ver à sua frente. Começou por criar condições: 
_ Deixe-me agradecer às pessoas que me vieram visitar, porque eles estão cansados, e precisam de se ir embora. É isso, vão-se embora já, não é? Obrigado aos dois. E agora diga-me, doutora: para onde é que nós os dois vamos a seguir?
Mas o rasta não saía dali: _ Temos de falar! Anunciou ele com um timbre encharcado em mau agoiro. _E o dinheiro da camisola?
Adivinhava-se um segundo holocausto. Possesso, Pedro estendeu-lhe uma nota, e fez-lhe um sorriso metálico e desinteressado só ao nível de uma assistente de bordo da TAP, quando oferece chá e café. Despediu-o num ápice: O meu colega de pesca agora tem de sair, porque está muito cansado e vai devolver ao dono uma pastilha elástica que pediu emprestada antes do Verão. Muito gosto! Adeus!
A espanhola enchia o peito de ar, enquanto esfregava as pernas bronzeadas nos olhos de todos os presentes. Zé Pedro insistia, tentando fazer boa figura para os lados dela:
_ Eu uma vez ganhei um primeiro prémio num concurso de pesca à fataça. Um faqueiro de 6 peças em prata. Pesquei com atarrafa. Dizia isto enquanto aplicava mais uma borrifadela do seu descongestionante nasal. _ A minha casa é um pouco húmida, eu moro sozinho…
Pedro ripostou: _ Sim, mas agora é melhor ir embora. Esta unidade é para quem esteve em coma. Nós mal nos conhecemos, mas ainda assim obrigado por ter vindo. 
A sós com a médica, num quarto de recobro, a tirar-lhe as medidas de cima a baixo, Pedro Meireles sentiu-se finalmente feliz da vida. Como se tivesse feito uma agradável viagem, algo como sair de um estabelecimento prisional para prisão domiciliária. 
_Sabe, vamos lá esquecer aquilo da padeira de Aljubarrota. Estamos calmos e pacíficos. Aquilo foi um mal-entendido. Se houve algum atrito, é esquecer, isso são coisas que já vêm do século XV. Éramos nós e vocês, espanhóis, a assapar, a ver que é que chegava primeiro à Índia. Chegámos nós. É natural que tenhamos ganho. O Vasco da Gama não tinha barcas com ailerons Matias, os tais que cortam o vento às fatias, mas você sabe como são os homens portugueses, …somos fogosos e potentes!... 


Perguntava a doutora: _ Lembra-se do que lhe aconteceu?
_ Bom , …estávamos no barco à pesca, já não me recordo se estávamos a falar de economia europeia, de uma nova teoria sobre isótopos radioactivos, ou de gajas. É provável que fosse de gajas. Nisto ferrei uma dourada, …e quando já estava cá em cima, não tinha o camaroeiro à mão, …fugiu. Por amor de Deus, isto é doloroso, doutora! Tire-me o cinto e a gravata, não vá eu auto-enforcar-me! Um peixe daqueles!
_ Calma, calma! Você precisa de relaxar. O que é que faz na vida?
E ele olhava para ela, para o decote cavado a mostrar um pouco do soutien preto, para a bata meio transparente a insinuar uma reduzida lingerie. Achava-a muito mais interessante que um campo de golfe de dois buracos. 
_ Sabe, eu sou “gigalo”. Mas a si não lhe cobro! Ou melhor, deixe-me explicar… não era isso que eu queria dizer. Estava a olhar para ela e a pensar que bom mesmo seria raptá-la, levá-la para casa e …pimba. _O que eu queria dizer é que eu sou uma pessoa calma, respeitadora, e que faz a lida da casa toda. Eu engomo, eu cozinho, eu aspiro, a minha amiga só tem de dizer o que não quer fazer. Na minha óptica, acho que sou um individuo impecável, consciente dos malefícios do tabaco, e até lhe digo mais...eu sei que me vai achar um génio por isto, mas tenho de lho dizer: Em termos de pesca, acredito que sou o último elo entre o homem macho português, pescador a sério, duro, que aguenta mar, e esses beatniks novos que apregoam novas técnicas e estrangeirismos, mas que não tocam na borracha e vomitam por tudo e por nada. Aliás, viu-se bem na traineira quem é que estava a tirar peixe! Se não fosse eu morriam todos à fome. 
_ Estou a pensar se não será melhor colocar-lhe um cateter e pô-lo a soro novamente. Você tem comido?
_ No barco não deu tempo. Estive o tempo todo em luta com os peixes, e já se sabe que algo tem de ficar para trás. Ferrei um polvo enorme que era o semental da zona, e só isso já é obra. O que me safou foi a força brutal de braços que eu tenho. Logo a seguir pesquei um piço. E depois vim aqui parar. Devo ter tido um esgotamento, com tanto peixe ferrado. Os peixes estavam desvairados, alguém deve ter estado a espalhar vodka e tequila na água. Mas está a convidar-me para ir jantar a algum lado? Se eu tivesse aqui a minha caixa das iscas…aquilo sim, é um restaurante de sushi. Penso mesmo que ganharia facilmente umas quantas estrelas Michelin! Mas podemos ir a qualquer lado, escolha a doutora. Se formos para minha casa, podemos fazer uma linguiça assada no álcool…ou depois logo comemos, depois…não sei. 
 “Se temos de viver de sonhos, que sejam os nossos sonhos”. Fernando Pessoa disse-o. A situação não podia correr melhor. Ela estava pelo beicinho. E ainda por cima gostava de pesca. Imaginava-se a entrar em casa carregando com a espanhola Paloma, e subir as escadas a arfar-lhe para os peitos. Tentava imaginar aquelas unhas de gel cuidadas a descascar um caranguejo. Ela era o par ideal! E dissertava: _Sabe, isto da pesca não deixa de ser uma escravatura. Só pensamos nos peixes, nas iscas, nas canas, no mar. Não vemos mais nada diante dos olhos. Por exemplo, eu estou a olhar fixamente para o seu decote, e para o seu par de mamas impressionante, e no entanto não o estou a ver, percebe? Aos meus olhos, … são ondas. Para mim, o mar é para largar amarras, soltar velas e não olhar para trás. É seguir em frente fazendo uma esteira de espuma até o mar acabar. Eu já sou marinheiro há muitos anos e tenho este espirito de liberdade. Não sei se sabe mas eu fui o responsável pela introdução da pastilha elástica em Portugal: tudo começou com uma teca de percebes da Arrifana, mal cozidos… 

Pastilha elástica da Arrifana.


A Doutora chamou-o à realidade: _ Então e se agora baixasse as velas um pouco e atracasse o barco, para descansar? Ora deixe-me ver como está a sua tensão.
E posto isto, abriu-lhe o botão do peito. O frio do estetoscópio trouxe-o de novo à realidade. 
_ Mas doutora, acha que há algo que está menos bem?
_ Tirando ter 1.80 mt de altura e 42 kilos de peso, menos 36 quilos do que seria normal, e ter um físico seco e fininho que parece um crucifixo, está tudo bem. Nada que uns quilos de pão da Lagoínha e meia dúzia de queijos de Azeitão não resolvam. 
_E podemos ir pescar os dois, …e …vai-me fazendo umas sandes? O que diz? Em contrapartida eu ensino-a a iscar com sardinha, que é uma coisa que faz sempre falta na vida de uma pessoa. Nem sei como há gente que passa a vida inteira sem saber iscar com sardinha. Morrem nas trevas e na ignorância. Eu quando tenho ganas de pescar um peixe grande, isco com 132 beliscos de bochecha de sardinha. É um trabalho de filigrana, de precisão. Leva tempo, mas resulta muito bem. Já tenho tido picadas de me provocarem paragens cardíacas. Por isso tenho sempre na mochila um desfibrilhador. 
_E sabe usar?
_Eu sou muito técnico. Vai ficar surpreendida comigo. Como tenho uma experiência de pesca muito grande, posso ensiná-la a desferrar polvos, por exemplo. Posso explicar-lhe porque não devemos pescar com canas de carbono em dias de tempestade. Se cai um raio em cima de nós, podemos levar 25 anos até conseguirmos parar de piscar os olhos. Posso falar-lhe também de um outro projecto meu, um programa de estudo muito ambicioso, sobre a distribuição da faneca ao longo da costa portuguesa, segundo camadas de água horizontais e verticais. Muito técnico. Só eu é que sei fazer. Eu queria monitorizar a distribuição do peixe até aos 400 metros de profundidade. Infelizmente o governo português entendeu que as verbas para este estudo seriam muito mais úteis e mais bem empregues se gastas em subsídios a confettis coloridos para festas de anos. Bom, mas saímos já ou só daqui a bocadinho? Para minha casa ou para sua?
_ Agradeço, mas estou a acabar o serviço por hoje. A minha companheira deve estar a chegar. Desejo-lhe as suas melhoras!
Pedro Meireles empalideceu. _Companheira?
_Sim, Verónica….a minha namorada. 
Ficou a pensar naquilo que tinha ouvido, num estado de concentração máximo. Daqueles de lhe arrancarem os dentes da boca todos, substituírem por duas placas dentárias postiças, sem ele dar por nada. Petrificado, tentava perceber o que se estava a passar. A ser verdade, se ela era mesmo comprometida, já era mau. Até porque a haver um tipo qualquer, de certeza de que não era homem para ela. Se era comprometida com outra mulher, era horrível. Mulheres com mulheres é quase tão mau como homens com homens, aos beijos na boca. No limite, se a companheira da Dra. Paloma era…Verónica, a sua mais que tudo, …se a natureza podia ser assim tão cruel, isso era um sinal evidente da não existência de Deus. No mínimo, Cristo deveria ser constituído arguido, crucificado e cremado de imediato, sem mais conversas. Ouviu passos de sapatos de saltos altos no corredor. A porta abriu-se. Era Verónica. 


Vítor Ganchinho



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