O BLOG RESPONDE - Com lua o peixe deixa de picar de dia?

Bom dia António Duarte,


Pela experiência anterior que tenho, acredito que pode ajudar-nos a explicar alguns detalhes, mas não acho que possa ser assim tão decisivo e simples do género "há lua, logo não comem". Não acredito nisso. Nós tendemos a humanizar as criaturas cujo desempenho queremos entender. A nossa tendência é para criar nos bichos comportamentos que são apenas os nossos. Se nós dormimos à noite e trabalhamos de dia, temos esse impulso de querer que tudo e todos se guiem por nós, pelo nosso ritmo de vida. Na verdade, aquilo que é um factor mesmo decisivo são as marés, e é isso que, mais que tudo, influencia o ritmo biológico dos peixes. Eles não estão à nossa espera, não contam com as nossas iscas para a sua rotina de vida. É desprezível a influência que nós, enquanto pescadores desportivos, podemos ter no comportamento da massa de peixe que habita no mar. Não contamos. Por mais que queiramos que os peixes estejam de boca aberta à espera dos nossos jigs, das nossas iscas, a verdade é que eles têm um ritmo próprio. A questão da lua grande, e da quantidade de luz que chega ao fundo pode ajudar a que se alimentem, mas mais uma vez estamos a querer humanizar os peixes. Eles não precisam de ver para comer!...Leia o artigo anterior em que falo sobre a linha lateral do peixe. Para nós resulta incompreensível que um ser possa ter sensores laterais que lhe dão o sabor, o tamanho, a textura de qualquer alimento, sem lhe tocar. Porque nós não somos capazes de fazer isso! Estamos a vê-los à luz daquilo que nós sabemos fazer, daquilo que somos. Um vulgar cachorro de rua dá-nos dez a zero em relação a entender as coisas pelo olfacto. Um javali pode detectar uma feromona diluída numa solução de duas mil feromonas. Se quiser, o António toca num grão de areia, eu misturo num balde com outros 1999 grãos de areia, e o javali sabe exactamente em que grão é que o António tocou. E nós não somos capazes, porque evoluímos noutro sentido. O cheiro para nós existe, mas diz-nos menos que a outros bichos. Relativamente aos sons, é igual, somos mesmo ruins, quando comparados com o cãozinho rafeiro da sua vizinha do lado. A vista é para nós o sentido mais importante, mas para os peixes, para a maioria deles, até poderiam prescindir dela. Utilizam-na no último instante, para focar a presa e desferir o ataque final. Mas muito antes disso já houve uma data de processos que levaram o predador ao contacto com apresa. E a vista não participou em nenhum deles. Quando as águas estão turvas, e isso acontece com frequência, eles comem na mesma. Sem ver.
O primeiro passo para os entender é desligar esse fio de pensamento humano e passar a raciocinar como se fossemos um peixe, com as necessidades de um peixe. Trabalhar a partir daquilo que eles sabem fazer. Dessa forma, é mais fácil entender as questões que têm a ver com o universo deles, que passa por segurança, alimentação e reprodução. Os factores podem inverter-se dependendo de inúmeros factores biológicos. 

O meu colega Gustavo Garcia, a pescar ao robalo em Sines.


Quem já mergulhou à noite e viu o comportamento do peixe entende melhor a diferença entre o que fazem de dia e o que fazem de noite. Praticamente não há diferença, apenas existem peixes que jogam a sua cartada de dia, e outros que actuam, porque têm olhos e sensores adaptados a isso, durante o período da noite. Mas aquilo dentro de água é uma luta constante e que não está compartimentada, não existe essa diferença do dia e noite tão marcado assim. Não há período de folga. Eles não se deitam e já está, amanhã é outro dia. Esse período de descanso não existe. Peixe grande come peixe pequeno, a qualquer momento, sem pausas, sem intervalos. E o que rege aqueles ciclos de forma mais marcante são mesmo as marés, o grande dinamizador de "vontade de", de ir ou não ir, de fazer isto ou fazer aquilo. 

Aqui, eu estava pescar numa baixa afastada da costa, nos Açores, e a dada altura, entraram dourados às dezenas, que ficaram no barco durante uns 30 minutos. Pescámos cerca de 25, com jigs ligeiros.


Evidentemente há múltiplos factores, temperaturas das águas, pressão atmosférica, presença de comida, pilado, sardinha, cavala, carapau, por exemplo, que interferem. Mas as marés, para mim, são o factor mais decisivo. E nós quase não ligamos, entendemo-las como algo inevitável, que acontece porque sim, e que hipoteticamente não altera nada. Mas altera! Altera tudo. São as marés que regulam o ritmo biológico, porque são decisivas na vida dos peixes. 
Sem ter muito a ver, e para que entenda que os factores que influenciam os comportamentos vão muito para além da lua ser grande ou pequena, conto-lhe isto: eu estive a pescar em Fevereiro deste ano no meio de um grupo de golfinhos roazes, que estavam a caçar carapau, a sul da Comporta. Havia bolas enormes de carapau à superfície. Como sabe, o carapau gosta de andar é lá pelo fundo, na sua constante procura de comida. Os roazes empurraram-nos para cima e estavam a dar-lhes uma sova tremenda! Havia bocados de peixe em todo o lado, cortados pelos dentes dos golfinhos. Os carapaus, em bola, tentavam escapar de qualquer forma daquele pesadelo. Comecei a lançar jigs ligeiros, de 7 gramas, a poucos metros da superfície...e pesquei cerca de 3 kgs de carapau grande. Cheguei a lançar os jigs a poucos metros da espuma levantada pelos saltos dos golfinhos. E ainda assim, picavam!! Para mim foi algo de extraordinário. Fiquei a pensar naquilo durante semanas porque não consegui, nem ainda hoje consigo, encontrar qualquer explicação suficientemente boa para aquele facto. Eu estava a pescar e não estava a conseguir entender. 
Verdade que estávamos na altura certa da maré, aquela em que os carapaus comem que nem loucos, mas aquilo era um inferno para os bichos, porque os golfinhos estavam a dizimar centenas de quilos de peixe a poucos metros. Havia bolas à superfície, e os golfinhos davam golpes com a cauda que faziam saltar peixes fora de água. E eu lançava e eles …picavam! 
Não tem lógica. Raramente me acontece mas é a prova provada de que ainda não sou bom naquilo, tenho de ler mais, de experimentar mais, de arriscar mais em situações práticas que não consigo dominar. Tenho 57 anos de idade e 51 de pescador. E sinto que ainda estou longe de saber o suficiente, não me sinto preparado para entender coisas que estão mesmo à frente dos meus olhos.

Obrigado por ter colocado a questão. 

Abraço!!


Vítor Ganchinho



Comentários


  1. Amigo Vítor,

    Desde já o meu muito obrigado pela clarificação.

    Puxando apenas a parte final do post em questão, é realmente bastante insólito e surpreendente, como é que os carapaus, numa situação de fuga pela vida, ainda tiveram vontade de se lançar aos seus jigs!!!

    Cpts,
    A. Duarte

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    1. Bom dia António

      Este fim de semana foi interessante. Consegui pôr duas pessoas que nunca tinham experimentado a fazer jigging, a pescar pargos e bicas. E conseguiram! O light jigging é de facto uma técnica incrível, e proporciona momentos muito excitantes. No total entraram cerca de 10 pargos. Pese embora as más condições, havia de facto muito vento.

      Sobre esta questão dos carapaus, o Gustavo Garcia que estava a meu lado e pescou também uns quantos, nem queria acreditar. Há que estar lá, há que viver estes momentos porque eles são únicos.

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  2. Boa tarde Vítor,

    Fazer peixes na primeira saída, é muito bom, é sempre motivador para quem se inicia, caso contrário só sobrevive quem é realmente perseverante!

    Vamos a isso!!! 😁

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