TEXTOS DE PESCA - Como é pescar no Brasil, com jigs? Como é pescar com jigs em qualquer lugar do mundo?...

Recebemos por cá cada vez mais pessoas do Brasil, país irmão. Pessoas que vêm para passar uns dias de férias, trabalhar alguns meses, ou mesmo viver para Portugal.

São pessoas bem dispostas, alegres, com uma forma muito “light” de encarar a vida, com sentido de humor. Tenho alguns amigos em S. Paulo que me enchem de alegria cada vez que decidem visitar-me e passar uns dias de mar comigo. Não são grandes pescadores, mas dão um colorido a uma saída de pesca que mais ninguém dá. Querem saber de tudo aquilo que se passa no nosso país, e começam a perguntar às “aeromoças” do avião e só acabam de fazer perguntas quando vão embora. Para eles, é estranho sermos um país tão pequeno, e com tanta diversidade de possibilidades de pesca, de peixes e técnicas. E normalmente gostam das experiências de mar que lhes proporcionamos.




Algumas pessoas, porque faziam pesca pesada do lado de lá, sobretudo speed jigging, (ou, como eles lhe chamam por lá, “jumping jig”), querem chegar cá e continuar a fazer.

Mas sofrem a maior das decepções quando percebem que deste lado é necessário reafinar a bitola, reduzindo as expectativas. Os nossos peixes são curtos.

Como acontece com muitos outros países, o Brasil tem peixe grande, e sobretudo tem um nível médio de capturas muito superior ao nosso. Pescar peixes de 5 a 6 kgs é frequente.


Este é um pargo muito comum. O sotaque da língua portuguesa é diferente, mas as técnicas são as de sempre,... jig para baixo, …peixe para cima.



Verdade que também têm de se esforçar, que são obrigados a fazer muitas milhas náuticas, por vezes 60 a 70, para chegarem aos locais de pesca indicados, mas ainda assim, têm peixe grosso.

É possível pescar o lirio, o atum de barbatana amarela, yellowfin, o king fish, que não temos por cá, e uma data de garoupas, peixe de fundo.

Fazem pesca com equipamentos pesados, e a profundidades significativas, em locais longe da costa, onde há menor movimentação de barcos, e necessariamente locais menos explorados.




O slow jig dá frutos, sobretudo quando aplicado a peixes que patrulham o fundo. Para os lirios, a música é outra, são predadores do azul e preferem uma boa corrida, logo jigs muito mais animados.

Estas garoupas pescam-se com jigs mais achatados, a trabalhar mais pausadamente, a deixar a amostra planar sobre o fundo, …com tempo.

 

E voltamos sempre a lembrar os ensinamentos do grande pescador japonês, mestre Norihiro Sato, inventor do slow jigging, ou se quiserem, Slow Pitch Jigging.

Na verdade, fazer jigging convencional durante horas e horas, com violentos esticões e contínuo enrolamento rápido de linha, é trabalho para super atletas.

O desgaste físico é tremendo, e nem todas as pessoas são capazes de subir jigs que podem, em determinadas circunstâncias, ultrapassar as 500 gramas.

Norihiro Sato fez a sua reflexão e entendeu que haveria vantagens em criar uma nova técnica, derivada do speed jigging, mas muito mais lenta, e não necessariamente menos produtiva por isso. Na verdade, trata-se de um up-grade ao que existia.

Os peixes de fundo não baseiam a sua técnica de caça na velocidade, mas sim na emboscada, em fazer valer o efeito surpresa. Assim sendo, uma técnica que privilegie a animação lenta, dá tempo a esse predador para se posicionar, e desferir um ataque a uma presa, que na circunstância é o nosso jig.

Se seguirmos o raciocínio de mestre Sato, faz sentido que um peixe persiga uma presa fácil, um peixe moribundo, afectado, eventualmente ferido, e não persiga um peixe rápido, supostamente cheio de força e vitalidade. Faz sentido!

Por outras palavras, quando acontece que um cardume se veja cercado de predadores, aquilo que se segue é uma concentração compacta das presas, o que designamos de uma “bola de peixe”, ou seja, peixes miúdos que tentam entrar e esconder-se na parte interior do cardume. Mas não podem estar lá todos, pelo que alguns serão os de fora e vão pressionar os outros no sentido de conseguirem o seu lugar protegido dos ataques exteriores. Por vezes, os mais rápidos e saudáveis saem do cardume e tentam fugir, isolados.

Porque a grande massa de peixe continua presente e disponível no local, é natural que os predadores queiram dar-lhe prioridade, em detrimento de perseguir um peixe apenas.

Os mais fáceis serão aqueles que caem lentamente em folha seca, para o fundo. O slow pitch jigging reproduz isso na perfeição. O conceito desta técnica de pesca baseia-se exactamente nisso, na “oferta” de algo que parece ser uma presa fácil.

Trata-se de uma pesca bem mais acessível, que não exige tanta força e resistência ao pescador. Podemos perder algo quando tratamos de ferrar os nossos tunideos, pequenos atuns sarrajões por exemplo, ou lirios, mas ganhamos em quantidade de toques de pargos, bicas, sargos, douradas, etc. Todos aqueles que caçam de emboscada, mais oportunistas, ficam mais próximos de nós, quando executamos os movimentos de forma mais pausada. 


Lindas, estas garoupas!....



Em suma, poderíamos concluir que, grosso modo, teremos a considerar a utilização de jigs rápidos, mais longos e estreitos, formato agulha, para a pesca de pelágicos, peixes que caçam no azul, eventualmente os nossos robalos, lirios, sarrajões, etc. No polo oposto, teremos então que com jigs mais curtos e largos, mais espalmados, mais formato moeda, conseguiremos fazer os peixes de fundo, um pouco mais lentos, que caçam sobretudo os peixes em más condições físicas, mais fracos e debilitados, de emboscada.

Como decidir que técnica utilizar? Eu levo ao mar cinco a seis conjuntos de canas previamente montadas e, em função do estado do mar, do vento, das correntes desse dia, assim decido aquilo que vou fazer, que cana vou utilizar nesse momento, nessa circunstância.

Nas minhas malas de acessórios existe sempre um pouco de tudo: vinis, jigs ligeiros e jigs mais pesados. Se estou num fundo de 120 metros, não irei seguramente utilizar material para pescar a 40 metros. E vice-versa. Se procuro pargos, dou um especial enfoque à pesca no fundo, digamos nos primeiros 6 metros a contar do ponto em que o jig bate no fundo. Se procuro robalos ou tunideos, é natural que as camadas superiorers sejam mais interessantes. Aqueles que costumam sair comigo sabem que vou equipado para inúmeras situações e deixo que seja o mar a decidir. Em função das condições, se há comedia a meia água, se há cardumes no fundo, tudo isso altera aquilo que se procura. Também a visibilidade das águas tem importância quando chega o momento de decidir sobre a cor dos jigs. Grosso modo, o critério é pescar com cores naturais sardinha cavala, quando as águas estão mais claras, e pescar com cores mais vivas, mais flash, quando temos águas mais tapadas.

Estes princípios enunciados acima são universais e servem para decidirmos como pescar em qualquer parte do mundo. De resto, costumo dizer que quem pesca um sargo em Portugal, tira a carta para conduzir, leia-se pescar, em qualquer lugar do mundo.

 

Em circunstâncias extremas, em que não conseguimos fazer interessar pelos nossos jigs nenhum peixe de bom tamanho, podemos sempre tentar um equipamento ligeiro.

No fim de tudo, como se costuma dizer, “teremos sempre Paris”, ou seja, teremos sempre a possibilidade de nos divertirmos com uma cana de Light Rock Fishing, LRF, ou se quiserem, micro jigs. Pica sempre!


Estranhos peixes, os dos nossos irmãos brasileiros.






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