TEXTOS DE PESCA - Em Sesimbra, a Ucrânia no seu melhor… (republicação)

 

Aviso já que não vou publicar muitas fotos das pessoas, porque não faz bom cabelo a ninguém ser visado nesta situação. Mas posso dizer-vos os nomes: Oleski, Davydenko, Oleksii, Volodymyr Lytvynenko, e Igor. Vê-se logo que dificilmente é malta do Barreiro. Aconteceu em Novembro de 2019, e tratamos de cinco simpáticos ucranianos que resolveram contratar os serviços da GO Fishing Portugal para fazer uma saída de pesca.




Às 6.30h da manhã, religiosamente, estavam os cinco perfilados à minha frente. Noite cerrada ainda. Perguntei ao chefe deles, Igor, se aquilo era a melhor equipa de cinco pescadores que se podia conseguir na Ucrânia. Um com roupas de centro comercial, sapato de cabedal bicudo, outros de calções e traje desportivo, ninguém diria que iam à pesca. Que sim, que não eram maus, que me iriam surpreender muito.

Olhei para mim: polar grossinho, casaco com o fecho apertado, luvas, gorro de lã, colete posto, que os 7ºC de temperatura não eram para brincar. Olhei para eles: dois marmanjos estavam em T-shirt de manga curta, os outros estavam menos à vontade, mas não iam além de uma roupa que usaríamos em final de Setembro. Tenho sempre a bordo uns cachecóis, uns gorros, tralhas que mais dia menos dia acabam por ser úteis. Um deles aceitou, os outros cruzaram os olhos e entendi logo que estava a oferecer um casaco de malha grosso a um beduíno no deserto: nem pensar. Verdade se diga que o único que aceitou os meus agasalhos tê-lo-á feito por deferência, para ser simpático, que não por necessidade. Como tinham trazido sacos, deduzi que seriam roupas, pelo que não me preocupei em demasia: quando tiverem frio, vão às mochilas deles e vestem-se como deve ser.




Porque tínhamos entre 1,50 a 1.80 mts de ondulação, achei por bem oferecer a todos um comprimido contra o enjoo. Prevenir nunca é demais, e não foi difícil convencê-los a tomar a pastilha. Bem mais complicado foi convencer um deles a tomar o dito comprimido com água. Os outros todos aceitaram, mas aquele recusou e deduzi que iria tomá-lo a seco. Concentrei as minhas atenções na navegação, que à noite sempre implica um pouco mais de cuidado.

À primeira aceleradela, lá foi o gorro. Daí a pouco, lá foi o cachecol e à noite, nem valia a pena procurar muito. É isto que faz com que as tainhas por vezes nos apareçam agasalhadas de gorro polar na cabeça. E os ucranianos aos poucos lá me fizeram a vontade, lá colocaram uns casacos mais consentâneos com a época.

Daí a pouco chegámos ao local do crime: cheio de vida! A sonda estava maluca a marcar uma massa de peixe incrível. Depois de vários dias de tormenta, o primeiro dia de pesca é sempre a estalar! Tínhamos peixe por baixo a aproveitar tudo aquilo que foi desenterrado e aniquilado por vários dias de vagas de 4 a 5 metros. Muita pancada de mar dá sempre boas pescarias a seguir.




E assim foi: as primeiras baixadas foram de dose dupla, dois pargos aqui, duas choupas ali. Os carapaus a aparecerem também, numa entremeada que se adivinhava de muito trabalho de braços. Tentámos com cavala fresca, pescada no local. Tirando a sardinha, não conheço nada melhor. Sem avisar muito os pargos grandes apareceram, e dois deles tinham mesmo o tamanho certo para o forno.



 

É sempre uma alegria, quando as coisas resultam bem, uma alegria para todos. Para quem está a pescar porque se diverte, para quem conduz o barco, porque vê o seu esforço recompensado. Preparar uma saída de mar envolve muita coisa, desde o equipamento à escolha dos locais, ao catering, à parte de merchandising. Nada pode falhar.




O meu convidado Davydenko, entusiasmado com a forma como as coisas estavam a correr, terá tropeçado em algo, e estatelou-se de cara contra a amura do barco. Eu, que estava a cortar filetes de cavala para isca, larguei a faca da mão e corri para ele preocupado. Tirando alguns dentes que já iam próximo do estômago, não lhe vi mal de maior. Voltei à minha função de gajo das iscas e filetei como um pro japonês enquanto houve material. Nisto, o pobre Davydenko, provavelmente parente próximo do meu aftershave Davidoff, resolveu levantar-se. Pareceu-me bem. Mas só me pareceu bem durante uma fracção de segundo! Um passo depois voltou a cair em folha seca, e deu com a cabeça na amura do outro lado do barco, sem colocar os braços à frente. Fiquei preocupado. Os barcos da GO Fishing são rijos, mas era evidente que não iriam resistir a tanta pancada. De joelhos, levantei-lhe a cabeça com as mãos, esperando o pior. Estava combalido. Ainda assim, começou a rir-se, como se tivesse tomado uma caixa de Xanax, ou que lhe tivessem dito que não iria pagar IRS.

Daí a minutos, vi-o a despir-se. Em pêlo. Porque frequento ginásios vai para 40 anos, não achei estranho. O que era estranho era ele estar deitado no barco, de barriga para cima, com um sorriso de Mona Lisa. Daí a pouco, perguntou-me, num inglês retorcido, misturado de russo:

_ "Quanto tempo levo daqui até Sesimbra?"

Respondi-lhe que levaria a vida toda. Ou seja, no estado em que estava, com a água a 14 a 15ºC, cerca de 40 milhas, não seria difícil adivinhar que ao fim de alguns metros estaria no fundo do mar. Iria levar, em rigor, a vida toda que em perspectiva não era muita. Lá o conseguimos vestir. O hálito era o de uma destilaria de bagaço, onde se produz qualquer coisa relacionada com álcool etílico, do forte. Tresandava. Falei com o chefe Igor e ele mostrou-me então a razão daquele comportamento estranho: tinha tomado o comprimido contra o enjoo com duas garrafas de Vodka de litro, em jejum! Lá estavam as garrafas vazias, na mochila dele. Dizia-me o Igor: "É estranho, ele até prefere rhum" mas quando está em dia de sentir a garganta seca, bebe de tudo e muito.




Fiquei apreensivo porque entendi que um dia de pescaria memorável estava a descambar para algo que se sabia como tinha começado, mas que não se sabia como iria acabar. Por aquele andar, algo de bem mais grave poderia acontecer. Levantei a âncora, por entender que estava na hora de sair dali. Perante tal situação, a pescaria estava terminada. Eram 9.25h da manhã. Haveria cerca de 13 kgs de peixe variado a bordo, mais dois pargos bons. Voltámos para casa, deixando para trás um pesqueiro completamente atestado de peixe. O Davidenko cantava como se o nome dele fosse Freddy e o apelido fosse Mercury. Para aquelas cavalas e peixes-agulha nunca se terá cantado tão alto. Desviavam-se bruscamente, não sei por efeitos da pancada e espuma do barco, se do cantar do artista.

A conduzir a embarcação, com um olho no moço ucraniano, e em linha tão recta e tão depressa quanto possível, vim a matutar naquela situação. Como era possível que uma só pessoa fosse capaz de beber duas garrafas de litro de vodka!??

Despedidas, abraços e juras de amizade eterna, como convém. Mil desculpas por parte dos outros, também eles algo preocupados com o estado de saúde do colega. O prostrado e inerte Davidenko foi levado em braços por dois dos colegas, com os pés a arrojar no chão, e atirado para dentro do carro.

Porque gosto de deixar as embarcações limpas e arrumadas, fiquei mais um pouco a dar um jeito nas coisas. A um canto, estava uma terceira garrafa vazia. Desta vez era uma de rhum cubano.

 





Comentários

  1. Bom dia Vítor,

    Oh minha nossa senhora dos navegantes!!! Há la cada um.... haja paciência...de preferência da boa!!!
    Gabo-lhe a paciência para estas "coisas"!!!

    Abraço!

    A. Duarte

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    1. Boa tarde António


      Temos de ter coragem para isto tudo. Foi pena porque lembro-me que havia peixe por todo o lado, e estava com apetite, não era preciso fazer aviõezinhos, ....

      Cheguei agora dos atuns, que hoje não estiveram pelos ajustes. Havia muita isca, cavala miúda e carapau com fartura, mas a zona estava sem actividade nenhuma. Na semana passada, em quatro dias tive os atuns perto três dias....

      Foi ferrado um de cerca de 100 kgs no Tejo, mas foi com um jig, e partiu tudo. O pescador estava a pescar ao robalo, a probabilidade de conseguir era diminuta ou nula.
      Eles andam aí, e mais dia menos dia vamos ser capazes de entalar um dos matulões....


      Amanhã vou pescar para sul, para tentar os pargos.

      Abraço!
      Vitor


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  2. Viva Vítor,

    A beleza da pesca também é isto, raramente existem dois dias iguais.
    Concerteza que mais dia menos dia, a "coisa" irá acontecer!
    Na próxima semana também devo ir fazer o gosto ao dedo!

    Abraço,
    A. Duarte

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