TEXTOS DE PESCA - Os nossos grandes atuns

Este verão temos sido frequentemente visitados por ilustres figuras do mar. Tenho visto anormal quantidade de baleias anãs, a Balaenoptera acutorostrata, baleias comuns, muito tubarão azul, centenas deles, e alguns atuns de bom porte, entre os 60 e os 100 kgs, em cardumes a atacar peixe à superfície. Sabemos que quando conseguimos ver seis atuns a saltar, temos trinta ou quarenta por baixo. 
Não será estranho a isso o facto de as cavalas já terem chegado em força, e haver na baía abundância de cardumes de carapau e sardinha. É certo e sabido que estes peixes forragem atraem os nossos grandes para cotas em que nos ficam perfeitamente acessíveis. E porque estes encontros entre peixes e pessoas começam a acontecer cada vez com mais regularidade, é natural que queiramos medir forças. Fica-nos sempre o “bichinho” de os tentar capturar. 
Deixamos as baleias de parte por razões óbvias: para além de simpáticas, são espécies protegidas. Deixamos de parte as tintureiras, porque não somos nós que as descobrimos, são elas que nos encontram e quase sempre com grande pesar nosso. Se não estivermos preparados, é quase certo de que pelo menos a baixada de anzóis e chumbo, vão à vida. E no fim deste desfile de gigantes, sobram os atuns. 


Os atuns apresentam um corpo fusiforme, de músculo puro. São extremamente compactos, curtos e grossos, sendo que junto à barbatana caudal bifurcada têm duas alhetas laterais duras, em queratina, muito fortes. A queratina é uma proteína de origem animal, formada por cerca de 20 aminoácidos, que está presente na nossa pele, unhas e cabelos. Cuidado com o manuseamento da cauda de um atum sem luvas, porque um acidente grave pode ocorrer facilmente. As cores das várias espécies de atuns existentes aproximam-se bastante, os tons de azul-escuro e prata, que os mimetizam no azul profundo do oceano. O seu metabolismo corporal é muito elevado, o que o obriga a conseguir alimento com frequência. De resto, algumas espécies podem mesmo elevar a sua temperatura corporal até 10 a 15º C acima da temperatura da água circundante. Por isso se chama um peixe endotérmico. Este tremendo nadador pode fazer até 170 km num só dia o que o torna difícil de referenciar. Ser visto hoje numa determinada zona não significa que lá esteja, ou próximo do local, no dia seguinte. O seu sistema vascular é complexo, sendo que os músculos também colaboram na captação e filtragem de oxigénio. É essa particularidade metabólica que dá à sua carne o tom avermelhado que conhecemos. Na verdade, o atum é um concentrado de energia. 
Sendo mais comum em águas abertas, não deixa de se aproximar da costa, e aproveitar as suas oportunidades para se encher de comida junto à costa, onde as cavalas, os carapaus, as sardinhas, se deixam enredar nos seus movimentos de cerco. O peixe miúdo forma bolas, os pequenos peixes do exterior da formação tentam entrar para o meio da concentração do cardume, e aí está tudo perdido, torna-se uma presa fácil para estes velozes predadores. Ver um ataque de atuns a peixe miúdo, com pássaros a aproveitar a sua oportunidade é um espectáculo tremendo. 
Sendo um peixe dióico, ou seja, sem dimorfismo sexual, machos iguais a fêmeas, apenas forma cardumes com peixes do mesmo tamanho. Os maiores exemplares tenderão assim a ser encontrados em grupos de menor quantidade, o que faz sentido, dada a sua escassez. Um grande exemplar de atum é um peixe acima dos 600 kgs de peso e não há muitos lugares do mundo em que sejam comuns. 

O autor com um atum “galha-à-ré”, uma das espécies mais procuradas. 


Pescar atuns não é uma tarefa fácil. Desde logo porque, força por força, eles ganham! O atum é um oponente honesto, bem armado para um combate de força, que não se rende sem luta, e que nos faz transpirar até à última gota. 
É um peixe que aplica as armas que tem: a sua velocidade de deslocação, o seu peso e resistência física. A sua pesca será sempre difícil, raramente encontrarão um atum que se renda sem tentar partir todo o nosso equipamento, durante tempo e tempo. 
Difícil porque implica desde logo que tudo esteja alinhado, que tudo saia perfeito, já que a menor fragilidade no equipamento, a menor falha de actuação, é a última. Estes peixes não perdoam amadorismos. Falo de materiais improvisados, ou se quiserem, de testes com os carretos e canas para “safar”, o tal equipamento das...douradas. Não é o mesmo, e eles encarregam-se de mostrar imediatamente que não. 
Porque já me saí bem do desafio algumas vezes, sei o que é exigido, quer em termos de materiais, quer em termos de capacidade física. 

Pelo estado do barco conseguem imaginar a luta que não foi para ter este atum a bordo…


Vamos analisar em detalhe aquilo que é necessário para que se consiga arrojar um destes peixes. 

A cana - o serviço que se pede a este acessório é o de servir de mola, de ser algo capaz, pela sua acção de amortecedor, de minimizar os esticões do peixe ao mesmo tempo que o fatiga, que o esgota até ficar sem forças. 
Não deixa de ser uma tarefa inglória, a de lutar com um peixe que entra facilmente no ranking dos mais fortes que podemos enfrentar. Um tubarão dá um arranque ou dois e encosta ao barco. Um atum, ao segundo arranque ainda está apenas a tentar saber de que forma deve preparar a sua fuga. A cana amortece os esticões, dentro de um determinado limite, e permite-nos interferir na sua deslocação, mas sem excessos. Na verdade, não mandamos neles, o atum vai para onde quer por uma razão simples: é demasiado pesado para ser travado e se o quisermos fazer à bruta, aquilo que conseguimos é partir o equipamento. As canas com roletes, não sendo imprescindíveis, são no entanto aconselháveis, já que permitem uma saída de linha sem criar tanto atrito. Um nylon que seja sujeito a uma pressão constante e a um atrito considerável, tem tendência a aquecer e a perder as suas características. E parte. 

O carreto - Existem meia dúzia de marcas fiáveis, sendo que pontificam as japonesas e as americanas. No fundo, aqueles que verdadeiramente se especializaram em atuns. Se os Tiagra, os PENN International não forem capazes de resolver a questão, mais vale nem ir pescar. 
Um carreto de Big Game deve ser preenchido com largas centenas de metros de linha, sob pena de o vermos esvaziar até ao fim, logo no primeiro arranque. Não há um padrão fixo no comportamento do atum após ferragem, uns avançam horizontalmente, outros preferem afundar e vão até onde podem. Eu lembro-me de um atum yellow-fin que me levou cerca de 500 metros de linha para o fundo, quase vertical, obrigando a uma penosa recuperação até à superfície. Fez isto quatro vezes, e por isso podem imaginar o esforço de braços e costas que foi necessário para o encostar ao barco. E o quanto foi importante a qualidade do carreto e da linha. 

A linha - Poderão achar estranho, mas a única parte da linha que é deveras importante, é apenas o líder. Falamos dos últimos 6 a 10 metros de nylon que ligam à amostra. Aí, os grandes especialistas defendem que o diâmetro são 2mm e ponto final. Consigo entendê-los, porque a fase crítica é mesmo a recolha do atum quando está junto ao barco. É aí que tudo se joga. Os últimos metros implicam esforço físico, a força do atum nunca desaparece, o peso é muito, e em caso de descuido uma última cabeçada pode ser fatal e comprometer a captura. Eu não pesco com terminal de 2mm, mas já senti que seria bom tê-lo, naqueles momentos em que o atum dá uma corrida e é preciso ter controlo sobre o seu posicionamento. O resto da linha apenas serve para garantir contacto num momento em que o esforço é menor. Não se puxa um atum como se fora uma cavala pequena, é um trabalho de paciência. A alternativa é fazer uma pressão máxima, constante, e estar sujeito a que alguma peça da engrenagem falhe. Os pontos fracos são normalmente as ligações terminal/ anzol, o aquecimento da linha nos passadores, e a capacidade física da pessoa que trabalha o peixe. Tentar acelerar a situação pode trazer dissabores, porque tudo leva o seu tempo. Esta é mesmo uma corrida de fundo, que a tentar ganhar no primeiro sprint vai estragar alguma coisa. 

A amostra - A maior parte dos fabricantes sabe ao que vai, tem a experiência necessária, de milhares de relatos feitos pelos seus clientes, e por isso produz material que suporta as investidas destes colossos. Marcas como a Rapala, Williamson, etc, sabem o que fazem. Em marcas mais baratas, o tradicional “made in China”, pode acontecer que a amostra se desintegre, ou mesmo que as fateixas abram, pura e simplesmente. Materiais produzidos para ser baratos têm a falta de qualidade de todos os materiais baratos. Neste caso, perde-se um peixe destes por uma questão de 3 ou 4 euros….

A capacidade física - Este é um factor que parece ser de menor importância, mas quem o julga assim não tem ideia das forças envolvidas e da resistência destes peixes. Ao fim de uma luta que pode exceder as 3 horas, posso garantir-vos que é um detalhe importantíssimo. Tudo depende do tamanho do atum, e um pouco da espécie em causa. De qualquer forma, é sempre necessária alguma robustez física, sem dúvida. Também é importantíssimo que a pessoa utilize luvas, para proteger as mãos de fricções e desgaste que inevitavelmente vai chegar. O cinto de combate, onde apoiar a cana é fundamental, sob pena de no dia seguinte o atleta pescador ter as partes baixas todas negras da pressão da cana. Nada deve ser negligenciado….

O peixe em si - Isso na maior parte dos casos é o menos, tem um interesse relativo. De qualquer forma, e para quem não quiser fazer o tradicional “catch&release”, captura e solta, vai ter shushi para muito tempo. Aquilo que eu fiz aos meus foi sempre guardar uma pequena parte e oferecer no cais a pessoas que estavam de passagem. Ficamos sempre bem vistos... e o problema fica resolvido. 


Neste momento temos atuns na costa, tenho conseguido avistar os cardumes com alguma regularidade. A última vez foi há três dias….



Vítor Ganchinho


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