Carlos Campos - A saga continua - Episódio 4

Sempre tive esta fixação na minha vida: “Um dia irei tirar uma foto ao lado do grande Carlos Campos e pôr numa moldura no meu quarto”. Sem descanso, persegui este desejo até ser capaz de o concretizar. 

Acabei por conseguir ir pescar com ele, pese embora a hora a que me fez levantar da cama seja inabitual para mim: 4.00h da manhã. Vim a saber que tem a ver com a possibilidade de ser seguido por outros pescadores que o invejam e lhe cobiçam os pesqueiros. Mas eu estava por tudo e aceitei. Pensei para mim: Nem acredito que vou pescar com o Carlos, um extra terrestre... (por extra terrestre, entenda-se que pesca em terra mas também no mar). 
À hora marcada, lá estava eu, equipado para pescar rijo. Olhei para ele de alto a baixo e pela vestimenta percebi que o dress-code do dia era… “sem abrigo”. No carro, disse-me que já há dois dias que andava com uma fixação por uma corvina: fazia a promessa de, caso lhe viesse a calhar uma corvina, mesmo uma de 6 kgs, que estaria disposto a deixar arrancar todos os seus dentes do maxilar superior, e substituir por uma prótese completa, bastante larga e com folgas. 
Fomos para Porto Covo. Esta simpática vila está cada vez mais evoluída. Tornou-se um sítio desenvolvido, moderno. Nós nem precisamos de levar as nossas mulheres, temos as dos outros. Olhei para o barco que tínhamos alugado. Era um barco semi-rígido feio, reparado com muito mais fita-cola do que seria de esperar. Éramos para alugar por uma semana mas após uma breve vistoria à embarcação, decidimos fazê-lo apenas por 4 ou 5 minutos. Não fomos para longe. À chegada ao pesqueiro, vi-o preparar as canas com muito cuidado. Pesca com jigs sempre novos, bem polidos, brilhantes. Para mudar as fateixas utiliza um alicate de pontas e óculos de soldador. O mar estava relativamente calmo, sem vento, o que ajuda sempre, mas algumas nuvens no horizonte deixavam adivinhar a possibilidade de alguma chuva. E eu que tinha deixado a roupa a secar na corda. O plano era pescarmos de barco durante a manhã, virmos a terra almoçar e ao final da tarde fazermos um pouco de pesca de costa, na enchente. Começámos a pescar e as coisas estavam mornas. Na pesca não vale a pena inventar muito, nem vale pensar nestas coisas dos peixes como se fossem sempre grandes pescarias, episódios bíblicos, acontecimentos épicos gravados nos registos de evolução da humanidade. As coisas são o que são, e na circunstância …os peixes que havia eram pequenos, pouco dados a ficar na História. Ele pescou uma cavala. Logo a seguir fez um filete para isca. A forma limpa como utilizou a faca sugeriu-me alguém capaz de cometer um crime passional sem franzir o sobrolho. E a seguir, pescou outra cavala! E estava feliz da vida. Por efeito de uma qualquer miragem psicótica, via na luta de cada cavala raquítica um pargo grande e gordo, e estava encantado com aquilo. 
Do meu lado, as coisas pareciam animar, os primeiros raios do sol trouxeram um primeiro toque de pargo de bom tamanho, encorpado, que puxava como um culturista. Aquele era o meu tempo, o meu momento. Tinha de ser! E o peixe encostou ao barco. 

Um pargo capatão fêmea, que pesquei com lula viva.


Peixe na caixa e lancei novamente para o mesmo sítio. O grande Carlos lançou para o meu pesqueiro. A dado momento, uma picada tímida, e eis que vem gente. 
Infelizmente era um júnior, uma amostra de pargo: 

Não podia estar a correr pior para o meu ídolo Carlos...


Estávamos a dissertar sobre as enormes vantagens do casamento entre homossexuais, o facto de se estragarem menos casas, quando nisto senti de novo um esticão. Era outro animal de bom porte, que subia dando luta. 
Estava a gostar da pesca. Os peixinhos picavam, o colega não pescava nada, queixava-se da sorte que nem uma Madalena de lágrima no olho. Aquilo era música Quizomba para os meus ouvidos. Ele sem um toque e eu a dar-lhe com força. Disse-lhe: 
_Carlos, isto bom mesmo eram uns pargos matulões, daqueles de 10 kgs, não? À falta disso, se não houver nenhum peixe aí desse lado, talvez apareçam umas italianas de 36 anos, peitudas e já agora, se não for pedir muito, …algemadinhas, para não nos fazerem mal. 
Queixou-se entredentes que havia peixe apenas de um dos lados do barco, o meu. Isto revela o quanto Deus esteve errado na concepção do Universo. Já nervoso, ele começava a aquecer as orelhas e a largar fumo. 
O dia começou a aquecer, a pedir para retirar roupa, e em parte tinha a ver com a neura do Carlos. E eu, fiz-me a outro pargo capatão, na circunstância um macho: 

É muito difícil um peixe resistir a um conjunto de cana Alpha Tackle e carreto Saltiga Expedition. Pargo capatão a rondar os 7 kgs, pescado com cavala viva.


O meu companheiro lançou mais uma vez, e a ponteira da cana tremeu. Veio a revelar-se mais uma missanguinha, mas era o empate técnico: 



Era hora de voltar a terra, para almoço. Uma tasquinha cheia de fumo de peixe grelhado, mas com uma assistente de boa pinta. Uma moçoila nova, de olhos escuros e cintura bem feitinha. Tomou nota do pedido e sorriu-nos com alegria. Trouxe mais para perto o material em exposição por baixo da camisola. O peito subia e descia a um ritmo certinho, suíço, compassado. Muito bom. Por mim, ficava ali, mas o Carlos queria a desforra e lá fomos para as rochas. Confortados de estômago e ele nas suas sete quintas, a pescar de terra, arrancou um lançamento com energia, decidido, com uma chumbada de 180 gramas. Fez fractura exposta da clavícula, e luxação do pulso, mas nem deu por ela: “ sempre estou para ver se não é mesmo ali”!! Mas os peixes estavam longe. A alternativa era procurar algo que andasse a caçar mesmo junto à rebentação, ao spinning, eventualmente um robalo. E foi aí, quando tudo parecia não poder piorar mais para o meu amigo Carlos Campos que algo bastante grande bateu na sua amostra. Algo de errado se passou. Pregou um grito que se ouviu no Barreiro, e veio a correr centenas de metros na minha direcção. Trazia os braços no ar, agarrando a cana bem ao alto, hasteada pelas duas mãos. O Carlinhos, com aquele ar de anticristo que o caracteriza, chegou ao pé de mim a arfar, perfeitamente esbaforido. Infelizmente ficou afónico. Falava mas não se ouvia nada. Os lábios moviam-se, saía ar, mas passados 20 minutos... ainda não se ouvia nada. Gesticulava, abria os braços e queria dar a entender algo, mas eu não entendia. Voltava a abrir desalmadamente os braços como o Cristo Rei. Deduzi que teria ferrado algo muito grande. Deitou-se de costas no chão e eu, aflito, pensei estar com cãibras, e fiz-lhe o que se faz aos futebolistas no fim dos jogos, quando já não podem mais: estiquei-lhe as pernas fazendo força na ponta dos pés. Não deixei de reparar que tinha mais varizes nas pernas que um mapa de estradas secundárias. Terá sido um robalo muito grande que lhe levou a amostra Silent Assassin azul da Shimano, a sua preferida. Não lhe iria passar tão depressa o trauma de ter ficado sem a sua amostra favorita. 

A partir daí, o Carlos passou a ser muito mais cauteloso na escolha dos seus locais de pesca. Só vai pescar para praias com bandeira verde, vigiadas, e só lança para onde o nadador salvador lhe indica. Por isso, o resultado das suas pescarias começou a ter de ser visto com óculos grossos de ver ao perto, versão miopia agravada. Na verdade ele já foi bom. Hoje, a ideia que me fica é de que o Carlos está reduzido a umas quantas capturas de bogas lusitanas, em regime de anzol auto-ferrante. Por mim, ele deveria ser submetido ao teste do polígrafo e ter de contar a verdade toda sobre aquela baila de 18 quilos que afirma ter rebocado até à margem, e que desferrou mesmo junto à areia.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Boa tarde Vitor,

    Acho que podemos afirmar que a partir de hoje o caríssimo Carlos Campos ficou imortalizado e eternamente ligado às lendas da nossa maravilhosa costa Alentejana! :-)

    Sábado e se o vento assim o permitir, devo ir meter uns anzois de molho e dar comida aos peixes!

    Abraço,

    A. Duarte

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    1. Bom dia António Duarte

      Fui ontem a o mar, para explicar a um amigo como é que se utilizam os equipamentos de Light Rock Fishing. Ao principio muita dificuldade, mas a seguir, e como de costume, cada lançamento cada peixe. É a magia dos equipamentos ligeiros, os peixes não desconfiam, e entram com as ganas todas.

      Não deixa de ser giro observar a rapidez da evolução de uma pessoa ao longo das horas de prática. Já há muito peixe, mas acho que o fim de Outubro vai trazer mais carga sobre as pedras. As douradas já aí andam, os cardumes começam a deslocar-se. Ontem estavam uns 20 barcos lá fora, nas zonas onde é suposto elas aparecerem. Por sinal, não é ali que elas andam, ...é um pouco ao lado....

      Abraço!

      Vitor


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