A camuflagem enquanto garante de sobrevivência

Temos vindo a abordar nos últimos dias a questão da mimetização com o meio ambiente enquanto fator decisivo na longevidade de inúmeros seres marinhos. Pese embora tenhamos focado a questão dos polvos, não gostaria que entendessem o fenómeno como um exclusivo desta ou daquela espécie. Na verdade, menos ou mais, todos os seres beneficiam de alguma forma deste mecanismo de defesa. Entendam a camuflagem como algo que é conveniente e que pode proporcionar nesta ou naquela circunstância alguma vantagem. 
Aqueles que não o fazem de forma tão evidente quase sempre recorrem a outros argumentos, nomeadamente veneno, ou espinhos que convidam a não tocar. Ou ainda os que utilizam tudo, por atacado, um cocktail de ferramentas de dissuasão que evita os confrontos. E é aqui que as espécies mais apostam, no evitar de confrontação. Trago-vos hoje mais alguns detalhes que mostram como é importante passar despercebido no meio marinho. Alguns exemplos de animais que evoluem a baixas profundidades, e que por isso apostam nas cores que mais se confundem com as pedras desses fundos onde vivem. 

Maiores ou mais pequenos, todos procuram passar por…”inexistentes”...


Um peixe lagarto, espécie que normalmente habita fundos de areia, e que aposta muito na camuflagem. 


Aqui o têm, com as cores de areia, e sem estar enterrado, como é costume. O peixe lagarto é de uma agressividade extrema para as outras espécies.


A mesma espécie, mas aqui num campo de algas, logo, com outras cores.


Temos da natureza a ideia de que há sempre uma profusão de cores, de coloridos, mas em rigor isso não é verdade. O mais corrente é que os animais procurem esconder-se de outros, adotando formas e padrões que lhes retiram destaque. No meio selvagem, dar demasiado nas vistas pode ser contraproducente, e quase sempre conduz a uma morte prematura. Daí os padrões suaves, as cores desmaiadas, que se confundem tão facilmente com o entorno de pedras, algas e outras estruturas. O sistema funciona no dois sentidos, ou seja, serve para esconder dos predadores e serve para esconder das presas. O efeito emboscada tem na camuflagem um dos seus mais importantes vetores de sucesso. 


O choco, um profissional do disfarce. Uma pedra no meio das pedras, que se esconde dos predadores e ao mesmo tempo caça as suas presas.


Ei-lo de novo, abrigado sob uma solapa de rocha, virtualmente invisível.


Uma holotúria, ou pepino-do-mar. São muito apreciados na cozinha oriental depois de secos ao sol.


Até um simples ouriço do mar tenta de alguma forma passar despercebido. Mesmo quando a sua forma e estrutura não é tão conveniente assim.


Dos maiores aos mais pequenos, as cores procuradas são sempre as que mais vantagens lhes podem trazer. Passou um pequeno safio que deixou as suas marcas ao lado deste peixe, se quiserem por outras palavras, foi ao WC mesmo ali, ver rolinhos na parte superior da foto. 


Os cabozes, pequenos peixes oportunistas, que aproveitam os restos deixados pelos grandes, nomeadamente as douradas e sargos que atacam os bancos de mexilhão.


Em mil pessoas, pode haver apenas dez que consigam descobrir na natureza este polvo camuflado de alga…..um espanto de capacidade de mimetização.


Extraordinária camuflagem deste rascasso, que seria virtualmente invisível a olhos menos experimentados.


Descobrem-no, porque eu vos mostro um momento em que está levantado da areia...


Entendem o polvo, porque eu vos mostro onde está. Em condições normais passariam por ele sem o notar.


Este peixe balão açoriano escolhe bem as cores do seu “casaco”, atendendo ao fundo marinho em que se move. Em estado de imobilidade, visto de cima, …não existe.


Há que entender todo este processo de criação de padrões e formas como algo que é particularmente conveniente para seres que não têm outras defesas que não essas. 
Um linguado não mete medo a peixe nenhum, e se sobrevive é por passar incógnito. Essa é a grande arma que algumas espécies têm para esgrimir na sua batalha pela sobrevivência. 

Amanhã vamos ver mais alguns casos nesta área. Vamos falar de... santolas!



Vítor Ganchinho



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