As lagostas e seus parentes próximos

Não deixam de ter uma aura muito especial. O valor que lhes é atribuído advém da sua relativa raridade e do facto de as considerarmos algo de distintivo em termos sociais, um alimento de luxo. 
Na verdade, a sua rarefação é relativamente recente, e quanto a qualidades gastronómicas isso é perfeitamente discutível. Digamos que se tivermos muitas à disposição, todos os dias, acabamos por nos fartar delas rapidamente e então sim, colocar estes crustáceos no seu lugar, atribuindo-lhes somente a exata importância que devem ter. 
Temos em Portugal diversas espécies de decápodes, a lagosta, o lavagante, o cavaco, a bruxa, o lagostim, enfim, uma série de dignos representantes desta longa série de seres a que damos o genérico nome de mariscos. 
O lavagante europeu, Homarus gammarus, é um pouco mais pequeno que o peso pesado do outro lado do Atlântico, homarus americanus, esse sim o maior crustáceo conhecido, com um exemplar capturado no Canadá, com 64 cm, excluindo patas e antenas, e que tinha o assinalável peso de 20.1 kgs. 
A lagosta nacional, Palinurus Elephas, não é tão rara quanto se pensa, sendo que ainda assim longe vão os tempos em que se apanhavam à mão a poucos metros de profundidade. Recordo-me de uma zona no Cabo Afonso, entre Sesimbra e Setúbal, onde havia sempre muitas, e de eu as deixar ficar nas frestas durante muito tempo, semanas ou meses, a aguardar um bom momento para as ir recuperar. Normalmente uma festa com amigos. Um petisco típico eram duas ou três lagostas, uma ou duas santolas, duas dezenas de navalheiras e alguns cavaquinhos. E muitas cervejas, que não fazem mal nenhum à apneia de quem treina muito…e é novo.

Atribuem-se a este crustáceo qualidades que pode não ter... trata-se de um necrófago, que se alimenta de peixe morto, basicamente.


As lagostas podem ser vistas à luz do dia, em zonas menos exploradas, pese embora seja cada vez mais difícil este tipo de encontros.


Se existe a crença de que se tratam de exemplares solitários, pois digo-vos que não, que adoram formar grupos e povoar os rasgos nas rochas que mais lhes convêm. O crescimento é lento, e a pressão de pesca profissional é muita, pelo que encontrar hoje em dia lagostas em zonas baixas será francamente mais difícil. Entram nas caixas de polvos e gaiolas de marisco dos profissionais, e sobretudo ficam emalhadas em redes que permanecem muitos dias no mar, com peixe morto, a apodrecer. Sim, esta é uma realidade que temos de assumir: as famosas lagostas que aparecem nas mesas dos melhores restaurantes nacionais são... necrófagas. Alimentam-se de peixe morto, sobretudo. 
De hábitos noturnos, os nossos “mariscos” fazem longos percursos pelo leito marinho, na procura de alimentos. Tal como já vos falei relativamente às santolas, as lagostas também procedem a mudanças de carapaça. Nos primeiros tempos de juvenis mudam diversas vezes ao ano, sendo que a partir da maturidade sexual, aos 4 anos, passam a uma muda, ou ecdise, por ano. O processo é conhecido, uma pele elástica, flexível, chamada cutícula, aparece por baixo da carapaça formada, que aos poucos se despega do corpo. É um período em que os crustáceos em geral se recatam, permanecem o mais escondidos possível de predadores que os procuram avidamente. Imaginem o que faz um cardume de pampos, balistes carolinenses, a uma lagosta se a descobre nesta altura. Mesmo com a carapaça formada é o que se sabe, aqueles dentes fortes não perdoam, e daí os cuidados que estes animais têm de ter nas suas deslocações. 
Todos já vimos as ovas de uma lagosta, estão fixas ao seu abdómen em filas de óvulos com cerca de 1mm, e são libertados ao fim de um mês de gestação. Estima-se que apenas 0.1% venha a sobreviver até à idade adulta. 

O figurino é sempre o mesmo: uma fresta que dá proteção, uma parede que se desce para procurar comida no fundo.


Também na zona do Cabo Espichel havia bastantes, debaixo das chapas do barco afundado River Gurara. As pessoas do mergulho com garrafas acabaram com elas….
Eram famosas as grandes lagostas e lavagantes da Ilha do Pessegueiro. Para que tenham uma ideia, as redes de emalhar com que eram pescadas, tinham…15 cm de malha. 

A navalheira será eventualmente o mais comum crustáceo que habita as nossas águas. Saem das tocas durante a noite, para se alimentarem livremente, sem a pressão dos predadores. 
As pinças são fortes, diria mesmo muito fortes para um animal com este reduzido tamanho, e merecem cuidados acrescidos a quem as manuseia sem luvas.

Assim, peludas, meio empoeiradas de se roçarem nas pedras, mas um marisco de respeito, que dá trabalho mas compensa. A navalheira é muito nossa, muito portuguesa, e encontra-se de norte a sul.


Algo que se vê muito debaixo de água: a cópula de casal de navalheiras. Estão sempre muito próximo de uma fenda, um buraco, algo que lhes dê proteção contra predadores.


Reparem que existe sempre um plano de fuga, há sempre uma zona estreita, escura, onde só o corpo achatado de um crustáceo como este pode entrar.


Também a santola é algo de muito corrente, as zonas rochosas com algas têm bastantes, provavelmente mais do que se imagina...



A aposta que fazem na sua dissimulação faz com que a contagem dos efetivos seja subestimada. Mas há bastantes santolas, sem dúvida. 

A sapateira, um peso pesado que é raro encontrar em Portugal. O seu baixo valor comercial advém do facto de serem importadas em larga escala, em grandes camiões TIR, das piscifactorias de França.


O cavaquinho, ou bruxinha, um petisco de se tirar o chapéu, com uma cerveja ou um vinho branco, ou verde.


Existe depois uma infinidade de outros crustáceos que pululam por essas pedras, ou mesmo habitantes das areias ( sim, vivem enterrados durante o dia e saem à noite para comer), que são menos conhecidos, porque não são comestíveis, ou porque ficam a perder para os seus parentes mais nobres. 

A capacidade deste caranguejo penetrar em fendas estreitas é assinalável, eles conseguem fazê-lo em rasgos de poucos milímetros.




Existe uma infinidade de formas e diferentes soluções, para um mesmo fim: comer e não ser comido. 
Ficam apresentados os nosso bichinhos de patas, e fica a ideia de que a vida na natureza é dura para todos. Quando tudo parece correr bem, a velocidade de deslocação para a fenda mais próxima, pode não ser suficiente para os dentes impiedosos de um... pampo.



Vítor Ganchinho



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