Para quem não mergulha, alguns detalhes do fundo do mar

Só muito recentemente a prática da natação se democratizou e expandiu no nosso país. Por estranho que pareça, há apenas 50 anos atrás, morriam imensas pessoas no mar que desde crianças trabalharam…no mar. Ser pescador ou marinheiro não queria dizer exactamente saber movimentar-se e estar à vontade no meio líquido. Ainda hoje, a geração mais velha conta com uma elevada percentagem de pessoas que, por este ou aquele motivo, nunca aprendeu a nadar. Os mais velhos marinheiros portugueses tinham poucas possibilidades de aprender. 
Se querem que vos diga, o método mais corrente de “ensinar” alguém a nadar era….jogar essa pessoa para a água. 
O trauma de se ver bruscamente numa situação nova, difícil e desesperada era de tal ordem que muitas pessoas nunca mais voltavam a tentar. E assim ficavam o resto da sua vida a odiar água e a ter medo do mar. 
Ainda que dele tivessem que vir a tirar o seu sustento. 

Essas pessoas nunca tiveram a possibilidade de apreciar os encantos da vida marinha, de ver com os seus próprios olhos uma pequena parte daquilo que é um mundo diferente, e que temos aqui bem perto de casa. 
Para esses, para os pescadores de linha que ficam na costa, ou dentro do seu barco, e não têm ideia de onde lançam as suas linhas, aqui vão algumas fotos comentadas, em jeito de visita guiada. 



Na zona entre marés, a quantidade de vida é enorme. O espaço de cada centímetro é disputado por todas as criaturas que ali querem viver. 
Nesta foto, podemos ver mexilhões, perceves, cracas, algas, e, para quem for perspicaz e tiver bons olhos, um polvo. Sim, um pequeno polvo a meio da fresta, com parte do seu sifão bem visível. Se olhar bem, vai ver a sua pele enrugada, os seus olhos, tudo lançado correctamente para ser mais um pouco de …rocha. 




Aqui temos uma pinhoca de perceves, e mais alguns habitantes da zona interdital, ou zona entre marés. É muito frequente que se encontrem linhas de nylon, sejam fios de pesca, ou restos de cabos lançados ao mar pelos marítimos, quando deles já não necessitam. A vida marinha dispensa esse tipo de …ofertas. UM cabo de nylon leva gerações a decompor-se, e na melhor das hipóteses será um dia mais um resto de micro-plásticos que irá entrar na nossa alimentação. Não deitem detritos para o mar. 




No meio de pólipos, algas e corais moles, podemos descobrir aqui uma toca de polvo, abandonada por momentos. O seu inquilino estará algures a caçar. 
Reparem que a rocha está coçada na parte de baixo, ou seja, na zona em que o animal costuma passar frequentemente. 




A paleta de cores que podemos encontrar em zonas sombrias, protegidas da ressaca das ondas, é algo de impressionante. 
A agressividade do impacto das ondas nunca permitiria a existência destas formações. 




Conforme acima, também esta situação nos mostra algo que nunca poderia subsistir numa zona de rebentação. A maior parte destas estruturas vegetais e animais, não suportaria o impacto das ondas. 




E mais um bom exemplo de vegetais marinhos que nunca poderiam sobreviver em zonas expostas à força das correntes. 



As anémonas são altamente urticantes, provocando inflamações, bolhas e comichão durante dias e dias. A nossa pele não suporta o contacto com estes animais, que são basicamente um pé circular preso ao fundo do mar, e uma ramificação de tentáculos. 
Estes, são chicotes cheios de toxinas, que defendem o animal e ao mesmo tempo lhe permitem caçar as suas presas. Os tentáculos dispõem de sensores que injectam veneno, altamente tóxico para peixes e crustáceos, e que lhes paralisa os nervos. É difícil entender este ser à luz daquilo a que convencionamos chamar de animais: a sua boca e ânus são no mesmo sítio. Dispõem de uma cavidade gastrovascular que é o seu estômago, onde alojam as presas capturadas. O que não é digerido é expelido para o exterior pelo mesmo sítio de entrada. 
Podem viver na zona entre marés, e podem ficar toda a sua vida no mesmo local, desde que não atacadas por predadores. Em caso extremo, podem soltar-se e deixar-se levar pelas correntes para outros lados mais seguros. Existem bancos de anémonas com milhares de indivíduos, na nossa costa. 


Reparem nesta “floresta de anémonas”. Não são plantas, são animais.




Aqui temos um espirógrafo, um animal que parece uma planta, mas …não é. Trata-se efectivamente de um animal, normalmente entre os 20 e os 50 cm de comprimento, e que normalmente vive acoplado a um estrato rochoso. 
Já os encontrei fixos em chapas de barcos afundados, por exemplo. Os seus corpos são protegidos por um tubo, constituído por pequenas partículas coladas com um muco segregado pelo próprio espirógrafo, as quais formam uma estrutura cilíndrica dura. Aquilo que vêem a branco é um penacho branquial, espiralado, que serve ao animal para duas tarefas diferentes: respirar e captar alimentos, ou seja, partículas em suspensão na água. Quando ameaçado, ou caso o seu penacho sofra qualquer impacto mais significativo, recolhe de imediato ao tubo de protecção. Consegue fazê-lo em fracções de segundo. 


Aqui perfeitamente visíveis as ramificações dos penachos de um espirógrafo.




Aqui um espirógrafo recolhido. Este estará numa zona de areia, com rocha por baixo. Não é impossível encontrá-los na areia, são situações muito mais raras que a fixação a uma estrutura rígida. Um isco muito conhecido, o casulo, assenta a sua protecção exactamente no mesmo sistema, um tubo, sendo que nesse caso, o tubo é construído abaixo do nível da areia. 
Em caso de ameaça, o casulo desaparece rapidamente da superfície. 



Vítor Ganchinho



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