Os habitantes dos pés-de-galo

Poucas estruturas fabricadas pelo homem são mais convenientes aos peixes que os pés-de-galo em betão armado.
Com efeito, se por vontade humana fosse idealizado um objecto com o intuito de proteger o peixe da voracidade e capacidade de destruição do ser humano, e que é manifestada a cada instante, dificilmente conseguiríamos desenhar algo mais eficaz. Um peixe encontra nestas estruturas de cimento tudo aquilo que é mais conveniente para nos escapar. E ainda bem que assim é. Os blocos de cimento dão um pouco de tudo aquilo que é possível dar de uma estrutura: segurança, alimentação e possibilidades de encontrar outros da mesma espécie.
Um dos maiores cardumes de robalos acima dos 4 kgs que vi, estava a descansar a uns 15 metros de fundo, no molhe norte do porto de Sines. Eram muitas dezenas, e aproveitavam o sol que entrava por entre os espaços do betão, para relaxar. Estavam bastante calmos, seguros da quantidade de saídas possíveis a qualquer instante. E este é um dos factores que o peixe mais aprecia: a possibilidade de sair de cena, quando necessário. Por exemplo o aparecimento de um caçador submarino.
Verdade que o molhe de Sines será um dos melhores do país para este tipo de encontros. Sendo o mais profundo porto de mar da Europa, com cerca de 35 metros de altura, o tipo de estruturas construídas faz com que seja um sonho para qualquer espécie que habite covas escuras.
Não nos é possível fazer muito mais do que espreitar de fora, já que a possibilidade de uma pessoa entrar pelos blocos é remota, e diria mais, bastante perigosa. Os labirintos proporcionados pelos pés-de-galo são infinitos, e para um peixe, tudo aquilo que ele pode desejar.



Os pés-de-galo em betão armado são algo de muito bem pensado, do ponto de vista de engenharia do ambiente. Cumprem a sua função na plenitude, protegendo a costa das ondas que a iriam destruir, amortecendo a violência da entrada desabrida de água do mar. A onda entra pelos pés-de-galo e vai mudando de direção, penetrando cada vez mais, até a força do seu impacto se desvanecer.
E esse é o primeiro efeito imediato: amortecem a onda. A seguir, são uma autêntica reserva natural, com defeso total, já que são absolutamente impenetráveis. O peixe pode esconder-se ali e sair apenas quando sente que não está em perigo. E ainda promovem a fixação de organismos marinhos, que com o passar dos anos, vão colonizando o espaço e criando uma verdadeira cadeia alimentar. Os pequenos peixes encontram ali abrigo, e muitos crustáceos fazem destes objectos de cimento a sua casa segura.


A princípio são apenas blocos de cimento limpos, mas pouco a pouco, a vida vai-se instalando.


As algas  vão-se fixando e pouco a pouco passam a ser mais um elemento da orla costeira.


E chegam os peixes pequenos e a seguir aqueles que comem os peixes pequenos.


As tainhas são habitantes usuais destes espaços, pois encontram aqui comida e protecção.


Este grupo de anémonas fez a sua escolha: os pés-de-galo, sem dúvida.


Nestes labirintos, os pequenos peixes encontram a segurança de que necessitam para crescer.


Cardume de pequenos predadores da família dos sargos, a “Oblada melanura”, um pelágico que vive em água livre, mas encosta aos blocos. 


Estes caranguejos encontram nas frestas entre dois blocos um espaço onde só eles, devido à sua forma espalmada, conseguem entrar. 


Um búzio. Mas podia ser uma santola, uma navalheira, uma lagosta…um ouriço.


Na verdade, é difícil quantificar a diversidade de peixes que podem estar dentro de um destes molhes, mas podemos dizer que há residentes que são inquilinos desde os primeiros dias de construção: meros, congros, sargos, robalos, douradas, sargos veados, polvos, santolas, e de quando em quando, um bom pargo ou uma corvina, que também gostam muito de visitar os blocos.
Se nas ilhas, encharéus, badejos, etc. Um mundo de gente que adora estes labirintos. Tenho um amigo que faz caça submarina e que caçou um pargo de 17 kgs, um capatão, num destes molhes, a 4 metros de fundo.
É possível afirmar que, desde que haja pés-de-galo, a maior parte do peixe existente na zona concentra-se aqui e acaba por abandonar outras pedras, quase sempre menos seguras. Os molhes são fortalezas absolutamente inexpugnáveis.

Para pescar estas zonas, ou se espera pela noite, e podem-se esperar algumas surpresas, ou vale o tradicional spinning, a pesca à boia com engodo, a curta distância dos blocos.
Também é possível fazer algo utilizando uma técnica nova, o Light Rock Fishing. O lançamento de vinis simples, praticamente sem chumbo, para as zonas de rebentação, com espuma, costuma dar resultados.
Com um anzol Texas, (onde podemos enrolar um pequeno fio de chumbo para dar lastro suficiente ao lançamento), deixando o anzol completamente tapado por um vinil de camarão ou uma criatura a imitar um caranguejo, é possível fazer uma montagem atractiva.
Os sargos e douradas atacam forte, com violência, porque procuram camarões e …encontram. O nosso.



Vítor Ganchinho



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