Ondas e vagas - Formação e efeito prático

O pescador profissional, por inerência de cargo, sai para o mar desde que tenha um mínimo de condições. Porque da sua saída depende a sua vida e a dos seus.
Quando está frio, quando está vento, quando chove, …sai. Quando há ondulação, mesmo quando alguma prudência mandaria ficar em terra, …sai.
As nossas saídas de pesca, enquanto pescadores lúdicos, são feitas quando achamos que o mar permite. E o termo de análise não é, nem de perto, o mesmo do pescador profissional.
Condicionamos as nossas saídas a outros factores, tais como a disponibilidade pessoal de tempo, o entusiasmo que temos por esta ou aquela técnica de pesca e perspectivas de resultados, e por último a dois factores que são efectivamente decisivos: o vento e a ondulação.
Porque estão muitos ligados, e porque são de facto aquilo que mais nos limita, parece-me ser oportuno tecer algumas considerações sobre vento e ondas.
Conhecer o fenómeno não nos faz sair mais vezes, até porque questões de segurança não devem ser nunca negligenciáveis, mas faz-nos entendê-lo. E saber mais ajuda a compreender, a tomar a melhor decisão.
Hoje falamos de ondas, de vagas, e a forma como o vento influencia a existência de ambas.




A instabilidade do mar deve-se a inúmeros factores, que se conjugam. A ausência de vento acalma localmente a superfície das águas, mas não resolve por completo a questão da ondulação.

As ondas oceânicas percorrem distâncias incríveis. Podem atravessar um oceano, sem desfalecer, mantendo a altura, a energia, e consequentemente a sua capacidade de destruir.
Porque são formadas bem longe de nós, (e já vimos anteriormente que, para o Hemisfério Norte, se formam quase sempre no Triangulo das Bermudas, uma área de 1.1 milhões de km2 no Atlântico, entre as ilhas Bermudas, a Flórida e as Bahamas, uma zona muito instável de altas e baixas pressões), o facto de termos uma calmaria momentânea na nossa zona, quase zero vento, não significa que não possa haver ondas nas zonas onde vamos pescar. Porque não é aqui onde estamos que elas se formam. Não havendo vento local, teremos quase de certeza um mar liso, dito de “óleo”, sem turbulência à superfície, mas ainda assim, e por mar formado bem lá fora, suavemente ondulado. Nas previsões meteorológicas aparece-nos frequentemente vento residual, com ondulação de um determinado quadrante, normalmente noroeste, o nosso predominante. O paço ou período da onda chega-nos mais largo, acima dos 12 a 15 segundos, o período de tempo que cada pico de onda leva a passar por um mesmo ponto. É esta a onda que faz enjoar os marinheiros e pescadores menos experientes. Mar liso à superfície, mas a fazer subir e descer o barco... lentamente...




Quando chegam à costa, as ondas já perderam grande parte da sua energia. A costa algarvia, do lado sul, é francamente mais calma, por estar protegida dos ventos dominantes. Só com o vento levante pode ter ondas significativas.

E temos as vagas, um fenómeno local, que tem a ver com os ventos que se fazem sentir na zona onde estamos. As vagas são sempre provocadas por ventos locais. A ausência de deslocações de ar conduz forçosamente a uma ausência de vagas. Enquanto as ondas se perpetuam por dias e dias, as vagas desaparecem em poucas horas, após o vento acalmar. O vento é verdadeiramente o grande impulsionador da primeira camada de água, criando forças de pressão que alteram a estabilidade superficial do oceano, criando …vagas. Aquilo que acontece, em termos técnicos, é que o vento transfere a sua energia para a superfície da água, e aplica-lhe uma força que a “sopra”, que a altera, e faz correr numa determinada direcção. Os períodos das vagas são normalmente muito curtos, ou seja, a uma vaga segue-se logo de imediato outra. O “mar picado” é isso mesmo. Podem sobrepor-se à ondulação que vem de fora, e ser inclusive, contrárias. É perfeitamente visível aquilo que é uma onda, e uma vaga. Porque já o explicámos aqui anteriormente, nem nos vamos deter sobre este aspecto.

As flutuações de velocidade com que o vento empurra a superfície do mar, ou seja, as diferenças de pressão física que lhe aplica sobre a sua superfície, conduzem a uma ondulação irregular, ou “desencontrada”.
Esta perturbação de estado de acalmia da superfície do mar é algo muito interessante de estudar. Para quem gosta de ambiente marítimo, não cansa observar as diversas nuances que se nos podem apresentar ao longo de um dia. As mudanças de maré implicam sempre algum “frisson”, alguma instabilidade, mas esse é um outro fenómeno, o da existência de marés. Sabemos que a seguir a alguma agitação inicial, vai voltar a acalmar, a ficar mais liso.
Este alisamento é devido à aplicação da força de gravidade. Não esqueçamos que estamos a falar de um fluido, que tem peso, e que é regido pelas mesmas regras de atracção de todos os outros corpos, para o centro da Terra. Tal como um sólido, encontra a sua estabilidade não no ponto mais alto ou mais baixo de uma onda, ambos instáveis, mas sim no ponto mais próximo do zero de altitude, a superfície plana. Desde que não existam forças que o alterem, a tendência é sempre para o mar acalmar, para retornar ao estado de repouso.

Há a considerar que existe uma relação de interacção cíclica entre as forças do vento e da gravidade. Uma empurra para a frente e a outra puxa para baixo. A resultante da combinação destes dois factores é a onda. É assim que se formam as ondas, da conjugação destas duas forças.
E são formadas num determinado sítio e por acção do vento tendem a afastar-se do local onde foram geradas. Correm ao longo do mar.

Porque tratamos de forças de gravidade, estranho seria que Sir Isaac Newton não tivesse a ver com este assunto. Foi um eminente matemático, físico, astrónomo, e um dos mais reconhecidos cientistas de todos os tempos. Uma mente brilhante! Foi ele a pessoa que lançou as bases da mecânica clássica, isto em 1687!! Com efeito, é perfeitamente possível calcular alturas, velocidades de ondas, desde que tenhamos os valores da velocidade do vento.
Os movimentos das ondas podem ser estudados. É possível calcular com base em expressões matemáticas, a altura das ondas que se irão formar. Com base nestes pressupostos, é possível prever com dias de antecedência a ocorrência de fenómenos que nos afectam. As previsões de tempo baseiam-se nestes cálculos matemáticos, e combinam milhões de diferentes possibilidades. É trabalho de supercomputadores, obviamente.

Para nós, pescadores lúdicos, isto faz a diferença de sabermos, ou não, se o mar irá estar em condições para podermos sair a pescar no nosso barco.




Calcular amplitude de ondas será tudo menos fácil. As variantes são muitas, e basta que algo altere um pouco e tudo muda. 

E de que forma as ondas afectam o estado do nosso pesqueiro? Como podemos adivinhar que tipo de agitação teremos no fundo, em função da altura das ondas?
Por norma, utilizamos a nossa experiência anterior, e os resultados obtidos nas mesmas condições de mar, para termos uma ideia daquilo que será possível esperar para esse dia. Mas um cientista, alguém que trabalha números, não utiliza esta lógica simplista.
Digamos que faz contas, e pensará da seguinte forma: se sabemos que as ondas têm uma determinada altura e amplitude à superfície, e se sabemos que o seu efeito deixa de se sentir a uma profundidade que é cerca de metade da distância entre as cristas das ondas, então devemos considerar que a água estará agitada até determinado nível. A partir daí, a influência das ondas não se faz sentir. E é perfeitamente possível determinar essa profundidade, desde que com todos os dados na mão.




A costa sul do Algarve tem muito menos peixe que a costa oeste, por ser menos agitada, ter menos ondas. O peixe precisa e quer mar agitado, para comer. A disponibilidade de recursos de alimentação em pedras como a Galé ou Arrifana é muito maior que aquilo que os sargos têm nas paredes lisas e despidas, a sul.

Se um pescador está a praticar surf-casting, ou seja, para quem está próximo da praia, seria interessante saber a que profundidade terá de lançar para encontrar o fundo estável. É diferente lançar em areia solta, a tapar a visibilidade das iscas, ou lançar numa zona de mar com o fundo estabilizado. Um pouco antes da rebentação, a água já tem boas condições para a pesca, e por vezes, no início do levantamento de temporal, a própria zona de rebentação pode ainda ter excelentes condições para dar peixe. Ou a seguir ao temporal, quando começa a estabilizar. Mas consideremos as condições óptimas: a uma distância da praia em que o fundo está a uma profundidade reduzida, há um momento em que a onda já não se pode sustentar a si própria, arrasta no fundo e a formação de água rebenta, faz espuma. Aí, quase já não vale a pena lançar, teremos dificuldades em estabilizar a chumbada, em manter as iscas, mas alguns metros antes sim, é perfeitamente possível pescar, e bem, porque o peixe está sempre no limiar dessa faixa. A distância a que as ondas rebentam depende do tipo de fundo. Quando muito inclinado, em fundos significativos, é possível que tenhamos muitas ondas pequenas, curtas, a rebentar consecutivamente na praia. Em praias como a Caparica, com uma inclinação muito suave, temos que as ondas começam a rebentar muito longe, e prolongam-se em distância. Nem sempre é possível lançar atrás da rebentação, e por isso se utilizam cada vez mais linhas finas, canas mais reactivas, (necessariamente mais caras…) que permitem distâncias consideráveis, acima dos 140/ 150 metros. Por vezes faz falta, e como em tudo na vida, pode aprender-se a fazer. Será sempre um misto de técnica, qualidade dos materiais, e alguma força física, sendo que esta nem é o primeiro factor. Em praias pode ajudar de facto lançar longe, mas nem sempre. E em zonas rochosas, frequentemente lançar longe é lançar para onde não está o peixe...




Dissemos no início que as ondas percorrem distâncias muito grandes. Mas também temos tempestades locais, e essas também provocam instabilidade. Assim, devemos considerar que das ondas que nos chegam à praia, nem todas se formaram longe, algumas são resultado dessa turbulência local. O período com que rebentam na praia diz-nos muito sobre a sua origem, sobre as tempestades que as geraram, perto e longe. Em alto mar, e para quem conduz uma embarcação, dificilmente pode haver pior que estas misturas de ondulação, com diferentes alturas e períodos, e diferentes origens. Estas interferências entre diferentes forças é aquilo que se designa na gíria por “mar desencontrado”, e não permite uma navegação muito fluida. O barco recebe balanços laterais e longitudinais.

Durante um temporal, em águas ao largo, a situação mais corrente para quem faz pesca embarcada, temos muitas vezes dúvidas sobre o tipo de ondas que estamos a enfrentar. Sabemos que é a força do vento que as forma, e sabemos que as ondas pequenas vão aumentando progressivamente de tamanho. Caso o vento sopre durante muito tempo de uma única direcção, ficamos com uma direcção e deslocação perfeitamente definida. A altura das ondas depende da força do vento. É tido como bom o princípio de que, grosso modo, as ondas têm uma altura igual a 1/10 da velocidade do vento. Se temos vento de 50 km/h, podemos esperar ondas até 5 metros, como máximo, na sua zona de maior influência. Assim que as ondas se afastam do epicentro de instabilidade, da zona onde o vento está a soprar mais forte, temos que a tendência é que estas se tornem mais regulares, e de menor altura. À medida que se aproximam da costa, e a onda começa a sofrer a influência dos fundos, reduz em velocidade e aumenta em altura. Quando falamos de ondulação que vem de longe, muitas vezes são ondas que têm períodos longos, e que podem facilmente interferir com o fundo do mar a mais de 70 metros de profundidade. Se temos ondas de 10/ 12 metros, é de esperar que o seu efeito se faça sentir abaixo dos 100 metros de fundo.




Faço mergulho. Acontece-me muitas vezes, ao estar a caçar a 16 ou 18 metros à espera de algum peixe mais interessante, com a mão apoiada numa ponta de pedra, e que o meu corpo faça aquilo que chamo de “bandeira”. O corpo vai para um lado, empurrado pela água que passa, e a seguir muda de direcção, e fica apontado para o outro lado. Isso não é mais que o efeito de passagem das ondas, a fazer força no fundo. À superfície não estarão ondas com mais de 2 metros, mas no fundo, a quase 20 mts, o seu efeito de arrasto é devastador.

Na prática é criada uma instabilidade tremenda, de levantamento de areias e poalho junto ao fundo. À passagem da onda, uma enorme nuvem de areia é levantada alguns metros do fundo. Na verdade, são sempre maus dias para pescar baixo, porque se a princípio os peixes acorrem para procurar comida desenterrada, a seguir acabam por se afastar, à procura de melhores condições.




Foi dito acima que a chegada das ondas perto da costa trava-lhes a velocidade. Também é interessante saber que a razão de chegarem paralelas à costa tem a ver com o facto de uma parte da onda, a que chega primeiro aos baixios, reduz a velocidade enquanto o resto da onda a mantém. Isso significa que o padrão de ondas acaba por se uniformizar por acção dos fundos, e irá chegar ao seu fim, a rebentação na praia, ao mesmo tempo. (Se quisermos pensar no assunto, não é muito diferente do diferencial de um carro, quando em curva. A roda de dentro faz um trajecto mais curto, e a de fora faz uma volta mais longa e mais rápida). A linha de onda vai-se ajustando, por diferentes velocidades de impulso, de maneira a chegar paralela à praia, uniforme, independentemente da direcção que tinha em alto mar. É o fundo baixo que a atrasa ou a ausência de limitações de fundo baixo que lhe permite manter a aceleração, e o resultado final é uma rebentação com espuma “certinha”, paralela. Funciona por desgaste de energia cinética, e é a areia do fundo que a absorve. Chama-se a isto: refracção da onda.




À noite, e sobretudo nos meses de maior calor, o mar tem tendência para acalmar, pois o vento passa a soprar de terra.
O princípio é muito simples: a areia que nos queima os pés quando andamos descalços na praia é um bom exemplo. A terra, no seu todo, aquece o ar e, por contacto, aumenta-lhe a temperatura e este sobe.
Esse ar mais quente cria um vazio que é preenchido por ar frio, que vem do mar, onde a temperatura diurna é mais baixa. A água do mar é mais estável, mais constante, ou se quiserem, leva muito mais tempo a aquecer.
Assim, cria-se uma depressão e o ar frio desloca-se para terra, a ocupar o lugar deixado em aberto. Essa deslocação de ar é feita sob a forma de vento.
À noite, invertem-se os papéis: na ausência dos raios solares, a terra arrefece, e assim que a sua temperatura atinge um valor mais baixo que a temperatura do mar, ficam criadas as condições para que exista deslocação de ar no sentido do mar.

Ver abaixo:



Espero que tenha sido útil, e que possam, da próxima vez que saírem ao mar, reparar em algumas das coisas que foram aqui ditas.
Conseguir entender e decifrar o comportamento do mar pode ser muito interessante. São pequenos detalhes que afinal estão onde sempre estiveram, bem à frente dos nossos olhos.

Hoje falámos de ondas, vagas, e rajadas de vento. Vamos ver amanhã se temos uns peixes...



Vítor Ganchinho



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