Água oxigenada

A água das chuvas, quando cai sobre as pedras e a terra, arrasta consigo parte dos sais minerais que as constituem. Digamos que as dissolve, num processo lento, que ocorre há milhões de anos. A seguir, corre para os riachos, daí para os rios e a seguir para o oceano. Porque o oceano é um reservatório último deste processo de “armazenamento”, a sua água tem vindo a acumular sais, ficando uma solução daquilo a que designamos por “mar salgado”.

A água do Atlântico que temos à frente dos nossos olhos tem uma quantidade de sal diluído de 3.3 a 3,7%, sendo comum atribuir-lhe o valor médio de 3,5%. Concretamente cada litro de água pesa mais 28 gramas do que a água doce dos rios, porque o sal lhe dá uma diferente densidade. Também vos posso dizer que cada quilograma de água tem 35 gramas de sais minerais, sendo a quase totalidade o nosso conhecido cloreto de sódio, o “sal”. É muito comum que a água do mar seja mais salgada que a água dos oceanos. A evaporação provocada pela exposição aos raios solares e aos ventos, conduz a uma salinização acentuada e constante das águas retidas. Mas então que diferença há entre um mar e um oceano? Concretamente, o que é um mar e um oceano? Provavelmente não sabem, porque a confusão é generalizada.

Um mar não é de todo um oceano. O Atlântico é um oceano. Um mar é uma superfície de água salgada cercada por terra, total ou parcialmente. Existem muitos mares que desaguam nos oceanos, por exemplo:
Mar Mediterrânico, Mar da Gronelândia, Mar de Barents, Mar da Noruega, Mar Branco, Mar do Norte, Mar Báltico, Mar Azov, Mar Negro, Mar Adriático, Mar Tirreno, Mar Jónico, Mar Egeu, Mar Vermelho.
Estes são os que estão directamente relacionados com a Europa. Mas há muitos mais. Com uma salinidade de 25%, o mar mais salgado é o mar Morto. Já aqui vos trouxe uma reportagem minha feita no Lac Rose, no Senegal, em que vimos que o teor de sal era de 34%. Mas não é um mar, é um lago adjacente ao mar.

E se quisermos falar de oxigénio, esse gás que os nossos peixinhos respiram pelas guelras, filtrando-o da água do mar, como é? Em termos absolutos, quantos miligramas de oxigénio temos por cada quilo de água do mar? Ou, em termos relativos, qual a percentagem de saturação de oxigénio dissolvida na água oceânica? Vamos espreitar!

Na atmosfera que respiramos, este gás é o segundo mais comum, a seguir ao azoto: falamos de 20,9% de oxigénio disponível. O azoto ocupa cerca de 70%, sendo o restante dividido por gases raros. Segundo a Lei de Henry, no equilíbrio entre Oceano e Atmosfera, a concentração e um gás dissolvido na água é directamente proporcional à sua pressão parcial na atmosfera. A solubilidade do oxigénio na água do mar depende de três parâmetros: Pressão, salinidade e temperatura.

Não é igual em todos os locais, nem em todos os extractos de água. À superfície, a saturação média é de 103%, mas mais abaixo é sempre potencialmente menor. Não esqueçam que o vento forma ondas, e vagas, (não é a mesma coisa! Ver trabalho anterior) e essa agitação ajuda imenso à dissolução de ar na água. Por isso, a camada superficial é uma zona particularmente rica em oxigénio! Quando temos afloramentos de água que chega das profundidades, por exemplo o canhão de Setúbal, que termina junto à zona da Comporta e vem dos 850 metros, a água que vem desses fundões é menos oxigenada. Em contrapartida é mais rica em sais minerais e isso despoleta uma cadeia alimentar poderosíssima, mas sai fora do âmbito desta análise e por isso vamos deixar de lado. Mas aquela zona é percentualmente menos oxigenada que a ponta do Espichel, por exemplo.
Chama-se “camada de mistura” à região mais superficial da coluna de água do mar. Os temporais são os responsáveis pela mistura de gases, mas temos ainda a considerar um outro factor decisivo: a produção de oxigénio através da fotossíntese, pelas algas. Existe actividade fotossintética até ao limite de entrada de luz no meio marinho. Já aqui falámos de zona fótica. O processo de resto é bastante complexo. Porque o tempo de leitura que me dão tem limitações, vamos aproveitar o espaço para referir apenas algumas curiosidades relativas ao factor oxigenação e ver como funciona na prática:




Águas batidas e/ ou superficiais têm sempre um teor de oxigénio superior e são fundamentais para a criação de fitoplâncton, zooplâncton, e daí chegamos a plantas e peixes.
Não é por acaso que os primeiros 100 metros de água à superfície concentram uma percentagem de vida bastante superior aos restantes.




A luz do sol promove a criação de organismos marinhos vegetais e começa aí a cadeia alimentar que irá conduzir até nós, humanos.
Os peixes que pescamos com os nossos anzóis, disfrutam de condições em águas costeiras que não poderiam encontrar a profundidades mais significativas.




É da agitação marítima que resulta a mistura de gases que irá impulsionar a criação de vida. Esta agitação, ou é provocada maciçamente pelas ondas e vagas a meio do oceano, ou em última análise, pelo residual esmagar da movimentação de águas contra as pedras da costa.


Ei-los aqui, gases em fase de dissolução. Se tiverem bons olhos, vêem por detrás e abaixo das bolhas o pequeno caboz castanho.




Alguns de vós podem não saber e por isso escolhi esta foto, que poderá parecer estranha. Vou explicá-la: quando a maré baixa, os buracos ficam sem água, e consequentemente o ar ocupa todos os espaços. Quando se dá a inversão de maré, a água volta a subir e pouco a pouco vai preenchendo cada recanto, por ínfimo que seja. Digamos que tudo o que estiver até ao limite máximo de altura dessa maré, ficará com água. Mas há grutas que são mais altas, e que não chegam a ser preenchidas pelo liquido. Assim, ficam bolsas de ar, mais ou menos comprimido, nos tectos desses buracos. O que vêm aqui é a vista que se tem, do lado de baixo, em que aparece uma estranha superfície espelhada. O que está acima, é…ar entalado. Recordo-me de mergulhar na Falésia do Risco, no lado sul do Cabo Espichel, e de entrar com alguma frequência dentro da gruta que abre para a esquerda. Na altura passava por lá para ir “catar” uns perceves grandes para fazer um petisco com os amigos. Com ondulação forte, a água entra com muita força, e levanta-nos vários metros acima do nível do mar. E muitas vezes as pessoas perguntavam-me como podia eu respirar e sentir-me seguro lá dentro, se ficava tapado de água. A explicação era simples: o corpo subia parede acima, alguns metros, mas havia sempre uma bolsa de ar que ficava prensada, junto ao tecto da gruta. Era aí que eu respirava.
Depois era contar as ondas, e logo a seguir à grande, a sétima, preparar-me para sair, mergulhando alguns metros até à saída da gruta, quando o mar dava a aberta do costume, com uma ligeira acalmia.




Quando vemos a água “branca” à superfície, leitosa, não quer dizer que toda a coluna vertical de água seja assim. Dependendo da força de mar, assim pode ser mais ou menos profunda esta mistura gasosa.
A agitação marítima, e concretamente as ondas que rebentam contra a costa, provocam uma captação de ar que é preciosa, pela dissolução de oxigénio. O impacto da água contra as rochas, mistura ar com água e torna esta mais rica neste gás.
Mas por baixo, e desde que existam alguns metros de profundidade, a visibilidade existe, e os peixes estão a ver perfeitamente o que lhes lançamos. Em águas muito baixas, essa possibilidade não se coloca, passando os peixes a utilizar outros sentidos, nomeadamente a sua linha lateral, como principal fonte de informação. É possível que se alimentem em verdadeiros “lamaçais”.




Peixes como as tainhas não são muito exigentes com a qualidade da água. É frequente vê-las a babujar naftas largadas pelos navios. Por isso ganharam uma péssima reputação culinária.
Em locais muito afastados da costa, quando existem, são um peixe tão válido como qualquer outro. As nossas ilhas, sobretudo as mais remotas, têm tainhas de boa qualidade, e também de tamanho: 4 a 5 kgs é algo perfeitamente possível na Baixa de Nossa Senhora do Pranto, …costa norte em S. Miguel, Açores. São gigantescas, e pelos vistos, muito apreciadas pelos locais, que me pediam sempre para trazer algumas.




Por baixo da espuma, os sargos agrupam-se em grandes cardumes, esperando aquilo que a ressaca das ondas arranca à pedra alguns metros mais acima.
Eles estão sempre a pouca distância do limite de visibilidade. As espécies costeiras, e falamos de sargos, douradas, bodiões, etc, dependem em absoluto da qualidade dos habitats disponíveis.
Não haver plantas significaria uma redução drástica, ou até mesmo não haver qualquer possibilidade significativa de vida subsequente.


Aqui uma entrada de água sobre uma pedra coberta de agar-agar, a alga vermelha. Estas são zonas altamente oxigenadas e por isso muito produtivas para vegetais e animais. 




Quanto mais ricas em oxigénio, maior a proliferação de algas, maior a produção de fotossíntese, e consequentemente, maior a capacidade de criação de vida animal.




O pesqueiro perfeito para sargos? Ter água batida sob os nossos pés, com um ponto alto estável, permite pescar o sargo à boia em excelentes condições.
Um pouco de engodo bem moído, se a maré estiver a entrar, e pequenos camarões no anzol, ou sardinha fresca. É tudo o que faz falta.



Vítor Ganchinho



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