Comida invisível a olhos humanos - Parte 1

Valemos mais pelo nosso cérebro, do que pelas nossas fracas aptidões físicas. Os nossos sentidos enganam-nos a cada instante, a nossa capacidade de apneia é pouco menos que ridícula, o nosso desembaraço no meio líquido é pouco menos que rudimentar.
E não sabemos procurar comida! Sim, quando comparados com um simples sargo, sabemos pouco de como e onde encontrar comida no mar.
O exercício de hoje e amanhã é desafiar os vossos conhecimentos para viver um dia como um “peixe”.
No fundo, confrontar as capacidades de uma pessoa versus os nossos peixinhos, aqueles seres que tanto perseguimos nas nossas saídas de pesca, e a quem subestimamos as enormes capacidades que têm. Sem cana de pesca, o que valemos nós, o que seriamos capazes de conseguir capturar para nos alimentarmos? Querido leitor, vamos meter-lhe a cabeça debaixo de água por dois dias e obrigá-lo a procurar comida. Para isso, vai contar com uma única ferramenta, mas prodigiosa, algo que mudou o mundo em que vivemos, e que já deu provas da sua tremenda eficácia: as suas mãos.

Venha daí!




Por mera questão de gentiliza, escolhemos um dia com água limpa, para que possa ver o que está a fazer.
Na verdade, são mais os dias em que a água está verde, com suspensão, do que os dias perfeitos, com todas as condições para que possa ter sucesso.
Mas porque somos amigos e gentis, e queremos ajudar, aí vai: com visibilidade máxima!




Muito provavelmente iria passar ao lado deste tufo de algas. Um sargo não! Não pelas algas mas pelo que está por debaixo, que é proteína da boa, vitaminas, sais minerais, e além de mais, de fácil captura.




Aqui têm o que está por debaixo daquele chapéu de algas: uma lapa. Patellogastropoda de seu nome próprio, um molusco que nos está acessível, se soubermos como o retirar da pedra.




Uma zona de rocha com algumas lapas. Com as mãos nuas, seguramente não as conseguiremos descolar. Precisamos de uma faca, a introduzir entra a pedra e o molusco. Os sargos não têm facas…




Porque está estático no fundo, certamente iriam olhar para esta estranha forma. Os sargos não, passam ao lado e não querem saber. Porque têm a consciência de que não lhes vai servir de nada uma carapaça vazia de um ouriço morto.




E esta estrela do mar? Nós somos capazes de a apanhar, mas já não diria tanto relativamente a comê-la. Mas parece ter algo por baixo. Que estará a fazer?




Ora aqui está! Estava a preparar-se para comer um ouriço, este sim, vivo e já meio “descascado”, o que atendendo aos espinhos picantes, nos é bastante conveniente.
Mas vamos roubar a comida a uma estrela? Não, seguimos adiante e vamos procurar outro ouriço. São aos milhares, nas zonas rochosas.




Este caiu da pedra e está em maus lençóis, porque ficou virado ao contrário, com a boca para cima. É uma posição que denota fragilidade, e para um sargo ou um pampo, seria a oportunidade perfeita.
Mas parece que alguém chegou antes de nós. Um caboz, só por si, não será capaz de tirar dali grande coisa. Vai ter de esperar que chegue quem parta a casca, para aproveitar pequenos restos.




Um campo de ouriços. Apenas com as mãos, não seriamos capazes de fazer grande coisa, mas olhamos à volta e temos ouriços e …pedras.
E o nosso cérebro diz-nos que podemos utilizar o nosso polegar oponível para segurar uma pedra e partir um ouriço. Funciona. Em último caso, era uma solução possível.
De qualquer forma, podemos procurar algo maior, que não mais nutritivo: os ouriços comem-se e são particularmente ricos em nutrientes. Mas vamos para algo maior…




Este caboz está a olhar para este molho de algas, muito atento. Haverá ali algo? Sim, uma santola bem disfarçada. Mas já tem dono, vamos tentar encontrar outra.




Aqui está uma, mas porque os nossos olhos não a conseguem reconhecer, acabamos por passar ao lado e deixamo-la em paz.




Ups! Aquí está outra. Infelizmente, com este aspecto “farfalhudo”, para os nossos olhos será tudo menos comida….




Esta não pode falhar! É mesmo uma santola e aqui conseguimos reconhecer perfeitamente este grande e velho macho. Temos jantar!




Para entrada, este caranguejo também serviria, mas para além de ter um sabor intragável, as suas pinças são fortes e capazes de cortar os dedos….melhor esquecer.




Aqui o têm, sob outro perfil. Não contem com ele para o jantar, é agressivo, morde muito e é ruim de comer. Tem este ar de buldogue marinho, e de pouco nos pode servir. Seguimos adiante.




As pinças de uma navalheira desafiam a resistência da nossa pele. Trata-se de um crustáceo que é muito comum, habitam locais com frestas, onde se conseguem esconder.
Os dedos sofrem com as suas mordeduras, ficam roxos com os seus apertos, pelo que, ou o desespero é grande, ou mais vale deixar de parte. Quando estão afastadas da toca, …uma pedra poderia ajudar-nos a conseguir uma. Mas esmagada…e já se sabe que não há marisqueira nenhuma que sirva “navalheira em papa”….e não é por acaso.




Este pequeno caranguejo já é tão velho que está literalmente coberto de cracas. De um sabor nulo, e de tamanho tão desprezível, não chega a ser opção.




Outro com muito bom ar, mas que de nutritivo tem pouco, e com aquelas pinças fortes, só nos pode fazer mais mal que bem.

Digamos que não iriamos morrer de fome, mas o dia de hoje podia ter sido mais fácil. Ficamos com a santola.
Contando apenas com as nossas mãos temos um pouco mais de dificuldade em obter comida.
Vamos ver amanhã o que aparece.



Vítor Ganchinho



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