Maternidades de peixes

A maior parte dos pequenos alevins, seja de que espécie for, acabam por morrer bem cedo. É duro pensar que aquilo que poderia trazer fartura de pescado à nossa costa, de nos fazer felizes a nós pescadores, acaba por ter um fim trágico de forma prematura.

O natureza assim o determina, a realidade é esta e não poupa espécie alguma: onde há alguns inocentes peixes de 3 ou 4 cm, há um peixe um pouco maior a comê-los.
Mas a isso as espécies sabem reagir, fazendo posturas significativas, aumentando o potencial número de indivíduos de forma a manter um stock regular.
Bem mais problemática é a questão da poluição, que mata sem piedade quando o peixe ainda está no embrião. Não chegam a nascer...
Esse é o grande problema e um grande desafio a resolver pelas as gerações vindouras: tornar os nossos mares mais vivos, mais capazes de produzir exemplares adultos, permitindo que os minúsculos alevins se criem.

Vamos hoje ver como se processa a criação de peixes no seu estado larvar, e os perigos a que estão sujeitos.


Algumas zonas da costa, mais abrigadas, são verdadeiras maternidades.


É de assumir que nem todos os peixes têm a sorte de nascer nos estuários dos nossos rios.
Aí, e mercê de águas mais rasas, (que não menos povoadas de predadores mas sim com mais “escapatórias”), e sobretudo com muito alimento disponível, aumentam exponencialmente as possibilidades de criar.
São as lagoas, os estuários, os sapais, todos os espaços adjacentes ao mar, os grandes criadores de peixe da nossa costa. Estas zonas baixas, onde os rios esgotam no mar, muito dependentes das marés e da acção humana, são grandes depósitos de óvulos, de esperanças.
A qualidade das águas joga um papel decisivo no sucesso das posturas. Problemas como a poluição são muito mais prejudiciais que a quantidade de predadores. A natureza responde com a sua capacidade de adaptação a factores como a salinidade, a diferenças significativas de temperatura durante o dia, etc. A tudo isso resistem, com coragem, enfrentando perigos a cada instante.


Zonas de maré, que apenas são alagadas na maré cheia (chamadas de espaços intertidais), e zonas sempre submersas, (zonas subtidais), proporcionam aos pequenos peixes a oportunidade de conseguirem sobreviver num momento crítico da sua existência. O coberto vegetal é muito importante nesta fase.


Os estuários são os nossos grandes responsáveis pela criação dos peixes que pescamos lá fora, em mar alto.
São zonas ecológicas de enorme importância, decisivas, porque proporcionam alimento e habitat às desovas de muitos dos nossos peixes de grande tamanho.
Sabemos por exemplo que as corvinas, as douradas, fazem migrações anuais e desovam, ou tentam desovar, dentro do rio. Muitos organismos marinhos dependem destas águas ricas em nutrientes para a sua vida e de alguma forma, todos os peixes dependem, directa ou indirectamente, numa ou noutra fase da sua vida, de algo que ocorre no estuário. Os milhões de invertebrados bentónicos que vivem nestas zonas são alimento crucial para o crescimento dos nossos pequenos peixes. Porque têm um tamanho superior a 1 mm, é possível observá-los a olho nu. Não devemos interferir, mas se quisermos ter uma ideia do que existe, basta colocar as mãos em concha numa zona de limos, e vamos ter uma miríade de pequenos seres que mais não são do que aquilo a que os nossos sarguinhos e douradinhas, por exemplo, chamam de alimento.
É este o princípio da cadeia alimentar que temos de proteger para podermos ter peixes para pescar! Os stocks de peixe que teremos um dia disponíveis para as nossas canas de pesca, dependem em grande medida daquilo que formos capazes de fazer para proteger estes minúsculos seres. Quando adultos, e porque já têm capacidade para cuidar de si, dispensam bem os nossos cuidados.


Ei-los, acabados de nascer, e sem noção dos perigos que correm. A maré cheia segue-se a uma maré vazia e eles vão tentar resistir o máximo possível de tempo. Provavelmente mais de 95% destes alevins irão morrer precocemente. 




Logo depois da eclosão, já há quem esteja de olho neles, interessado numa refeição fácil. Os recantos escuros escondem predadores interessados numa refeição pequena sim, mas fácil. À esquerda em baixo, dejectos de uma holotúria, ou pepino-do-mar. Estão duas, escuras, escondidas na sombra.
Também os safios fazem algo parecido, mas nesse caso, a concentração é menor, aqui o animal permaneceu durante muito tempo.
É ainda visível o braço de uma estrela do mar. Concretamente aquilo que podem ver baixo:


É esta estrela aquilo que se pode ver acima, meio disfarçado.




A quantidade de alevins é grande, mas infelizmente apenas uma pequeníssima percentagem chegará a peixe adulto. O polvo que está escondido na fresta estará pouco interessado neles, mas muito interessado num eventual predador que surja para os comer. Qualquer criação de peixe atrai outros peixes juvenis, ou mesmo adultos, que deles fazem um banquete.


Aqui uma outra ninhada, com o tamanho certo para um predador juvenil, que deles necessita para fazer a sua longa caminhada até chegar ao estado adulto.




Destes pequenos sarguinhos de poucos centímetros sairão os grandes sargos de riscas que tanta luta nos dão. O sargo atinge pesos na ordem dos 2 kgs quando adulto.
Destes, muitos ficarão pelo caminho.
Sabendo que Portugal é o terceiro maior consumidor de peixe do mundo, só ultrapassados pela Islândia e pelo Japão, e o primeiro na União Europeia, não deixa de ser estranho que façamos tão pouco pelos nossos recursos naturais.
A protecção que damos aos nossos peixes em idade juvenil, nomeadamente não fiscalizando convenientemente e sistematicamente a utilização de redes de malha fina dentro dos estuários, é algo de estranho. Tratam-se de recursos marinhos que se criam por si, sem necessitarmos de fazer mais nada que não seja zelar pela sua protecção, cuidando de evitar as agressões perpectuadas por pessoas. Bastava aumentar o tamanho mínimo das espécies vendidas em lota, e teríamos maiores e melhores reprodutores, e com isso, muito mais peixe. Bastava fiscalizarmos ao milímetro as descargas de poluentes das fábricas e terímos infinitamente mais peixe! Trata-se apenas de controlar o lançamento de poluentes nos cursos dos rios e na nossa costa, e com isso garantir o equilibrio das cadeias alimentares, e garantir a utilização de meios de pesca selectivos, redes com malhas de dimensão suficientemente larga para que os pequenos possam escapar. O resto, a natureza faz!....




O peixe-rei não é um alevim. Algumas espécies têm como comprimento máximo os 10-12 cm, que os tornam um alvo apetecível e a abater pelos predadores costeiros. Falamos de robalos, bailas, cavalas, sardas, etc, etc. Procuram refugiar-se junto à costa, normalmente em zonas com vegetação, e sempre encostados a estruturas que os possam proteger.




Este sargo juvenil será um dia um troféu, se conseguir chegar à idade adulta. Até lá, terá de ultrapassar centenas de situações em que poderá perder a vida.
E não são apenas os predadores naturais, os anzóis dos pescadores, …são também as redes esticadas a 20 mts da costa, que o impedem de chegar à comida.




Aqui um extreminador implacável: o caboz da pedra, um peixe que faz emboscadas e está preparado para capturar todos os pequenos peixes da zona de marés.
Conseguem vê-lo aqui na zona de sombra, à direita. Tem ar de malandro e …é malandro.



Vítor Ganchinho



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