O canhão de Setúbal

Quase sempre atribuímos às grandes profundidades a pesca de grandes exemplares. O estigma surge de repetirmos vezes e vezes a pesca em fundos baixos, com maus resultados, a utilizar a única técnica que conhecemos, a pesca vertical.
Quanto mais baixo lançamos os nossos anzóis mais entramos no reino dos peixes miúdos, e muitas vezes queremos fazer aí, e dessa forma, com uma chumbada e dois anzóis iscados, aquilo que poderíamos fazer 80 metros mais abaixo, sem problemas.

De facto não há uma relação directa assim entre o fundo e o tamanho do peixe. Podemos é estar a utilizar a técnica errada, ou estar no sítio certo, com a técnica certa, mas no momento do dia errado. Há muito peixe grande nos baixios, e pouca gente que os saiba pescar.
Mais uma vez chamo a atenção para o facto de haver peixes que, consoante a época do ano, e inclusive a hora do dia, podem estar mais baixos, ou mais fundos, a comer ou apenas a repousar. E se chegamos cedo ou se já chegámos tarde….
Acima de tudo, há que entender o peixe, as suas necessidades e ir ao encontro daquilo que está a fazer nesse momento. Estar próximo já é positivo, mas não garante sucesso.
Podemos perfeitamente chegar à conclusão de que aquele não é o momento, e ter de voltar mais tarde, horas depois.
Este fenómeno é particularmente evidente para os peixes mariscadores, os que comem junto à costa, os que sofrem os efeitos das marés cheias e vazias, mas há princípios que são válidos para todos e que têm a ver com os ciclos de alimentação.
Já aqui falámos muitas vezes nesse assunto, pelo que aconselho ir espreitar o que foi dito. Na maior parte dos casos, sentimos dificuldades a pescar baixo porque estamos a cometer alguns erros.
Com a técnica errada, estes pesqueiros superficiais podem ser um flagelo, e parecer desertos de peixes interessantes. Não o são de todo!
Mas se os resultados não são bons, então, por exclusão de partes, parece-nos que se não há peixe nos baixios, …ele terá de estar nos fundões, precisamente porque é onde …não pescamos.

Todavia, o estarmos em mar aberto, em zonas que tornam a sua pesca mais difícil aos profissionais, pode de facto abrir-nos algumas possibilidades acrescidas. Mais pelo facto de poder haver pesqueiros não tão importunados pelo homem, pelas redes, arrasto, etc, do que propriamente pelo facto de serem fundos. Ser fundo não é em si uma qualidade.
O chamado Canhão de Setúbal, que na verdade não é um exclusivo de Setúbal porque passa em frente a Sesimbra e liga, a uma profundidade de 2010 metros ao Canhão de Lisboa, é um local que pode proporcionar um dia de pesca interessante.
Sobretudo por ser mais difícil de trabalhar aos profissionais, mesmo aos mais exímios lançadores de redes.




E o que é concretamente esse dito…canhão? Trata-se de um vale submarino, embutido na plataforma continental, e que serve de “caneiro” a correntes, a transporte de inertes resultantes de fenómenos erosivos e a passagem de peixes.
Trata-se de uma depressão funda, diria mesmo muito profunda, pois vai até aos 4500 metros de fundo, e tem uma extensão de cerca de 150 km de comprimento. Digamos que é por ali que preferencialmente se escoam as partículas sedimentares arrancadas da costa por erosão, e também as que são vertidas pelos rios. Chama-se a isto “transferência de massa”. Grosso modo, por ali passam os inertes que estão em cima da plataforma, os que caem no seu bordo, e os que se desprendem das suas vertentes. E também alguma da matéria orgânica que alimenta os cardumes de peixes, e aí sim, este factor já nos interessa para a prática da pesca. E onde é?

Como podem ver na figura, esta estrutura geológica que começa a cerca de 6 km da costa em frente à praia do Carvalhal, a uma profundidade de 60 metros, segue na direcção de Sesimbra, passa o Cabo Espichel e vai encontrar-se com o Canhão de Lisboa, numa união que é praticamente perpendicular. A plataforma continental tem nesta zona cerca de 15 km de largura, sendo que a partir desse ponto, afunda para o leito oceânico regular, chamado de planície abissal. Estes fenómenos geológicos são muito mais fortes do que pensamos e admito a dificuldade de os entender à luz do imediatismo com que vivemos o nosso dia a dia. Custa-nos entender como se formaram os locais por onde andamos hoje!
As interacções tectónicas empurraram para cima a cadeia montanhosa da Arrábida, deixando à vista diversos níveis de sedimentos do fundo marinho, (ver imagens abaixo do Cabo Espichel).


Esta é uma foto que ilustra algo completamente diferente, uma simples fenda numa rocha de beira-mar, mas que me serve particularmente bem para exemplificar aquilo que é, em termos técnicos, um canhão. Um rasgo profundo na estrutura de costa, e que conduz água com sedimentos, com nutrientes, e…peixe, aos abismos oceânicos.


Praia dos Lagosteiros, no Espichel. Aqui são perfeitamente visíveis os diversos extractos de sedimentação que ocorreram ao longo de milhões de anos. Reparem nas diferenças de cor das rochas, cada uma placa é representativa de um determinado período, e por isso têm cores diferentes.


Ponta do Espichel. Aqui são bem visíveis as pegadas dos dinossauros, nas placas a meio da foto, e que já foram terreno plano para esses animais atravessarem.


Falamos de algo que ocorreu entre o Jurássico inferior e o Miocénio superior. Muitas destas formações rochosas antigas estão hoje debaixo de água e cobertas por sedimentos.
Os areais de Tróia, a areada saída do Sado, por exemplo, escondem rocha firme, que está por baixo de muitas camadas e imensas toneladas de areia.
Os processos de construção de rocha e o transporte de sedimentos, são algo de muito interessante, mas que não podemos no âmbito deste artigo aprofundar muito. Mas gostaria de vos dizer que o fornecimento contínuo de partículas sólidas e a acção de agentes físicos, o sol, o vento, as marés, em suma tudo aquilo que pode interferir com o transporte de um grão de areia e o seu depósito no leito marinho, é um processo de um enorme interesse.
Falamos de ventos dominantes, de altura de marés, inclusive de trabalhos feitos pelo homem, e que alteram de forma inexorável os fundos em que pescamos.
As condições mudam de acordo com os impulsos dados pelas glaciações, (a última ocorreu há apenas 18.000 anos), e aquilo que tomamos como garantido, não o era há momentos “recentes” em termos e vida do nosso planeta. Há conchas cravadas nas rochas, …no cimo da Arrábida!
Há algumas dezenas de anos, havia um canal de comunicação a atravessar a Península de Tróia. Sim, onde hoje estão implantados edifícios com muitos metros de altura. Tudo muda e a acção do homem é muitas vezes decisiva, mas as causas naturais continuam a ser responsáveis por muito do que acontece no meio marinho. O rio Sado desagua a oriente do canhão de Setúbal, e contribui em larga escala para o transporte de areias e matéria orgânica. As grandes fontes de sedimentos que chegam ao canhão são pois o aluvião do rio Sado, e a erosão costeira da Serra da Arrábida, que à medida que se degrada vai fornecendo elementos arrancados às escarpas de rocha.




Não há bela sem senão: em 2014, um projecto de monitorização de fundos veio a detectar no fundo a absurda quantidade de 63 objectos/ lixo por hectare.
Se é verdade que a biodiversidade animal é alguma, sobretudo nas suas cotas mais elevadas, pois beneficia imenso do facto de aproveitar as saídas de matéria orgânica dos rios Tejo e Sado, também por outro lado os fundos sofrem com a proximidade a terra.
Os objectos encontrados são prova evidente disso, falamos de redes de pesca, vidro, plásticos, roupas, sacos, etc.

Então e sobre pesca? É perfeitamente possível conseguir alguns peixes, desde que saibamos onde e como.
Antes de irmos pescar, temos mesmo de saber o que fazem ali os peixes…e a seguir saber se temos equipamento que nos permita pescar lá.
Falamos de carretos eléctricos e não podem mesmo ser uns quaisquer. O carreto eléctrico sofre imenso com as cargas a que é sujeito, e mais vale não comprar, que comprar barato, …para experimentar se dá. Não dá e a constatação disso custa caro.
A Daiwa tem nas suas gamas Seaborg e Leobritz modelos a 12 volts perfeitos para a função.
Também faz sentido que as canas sejam próprias para carretos eléctricos, construídas a pensar na tensão que têm de suportar, muito sólidas na base, com um número de passadores acrescido para acompanhar a linha sem a deteriorar, e uma ponteira sensível para permitir a detecção de toques subtis. A fábrica Alpha Tackle, japonesa, especializou-se neste tipo de equipamento.

Em suma, os carretos, canas, linhas e anzóis devem ser específicos para este tipo de trabalho pesado. Como sempre, é bom que seja material de qualidade, sob pena de se fazer uma sessão de pesca decepcionante e muito…curta.
A GO Fishing Portugal, na sua loja de Almada tem uma grande colecção de equipamentos para este fim, quer para barcos cabinados, quer para barcos semi-rígidos. Pode obter lá as explicações necessárias para se equipar convenientemente.



Vítor Ganchinho



Artigo Anterior Próximo Artigo

PUB

PUB

نموذج الاتصال