O plástico tomou conta dos nossos portos marítimos. E de tudo...

Chamamos progresso a “adereços” que mais não são que atrasos de vida.
Basta espraiar os olhos pela nossa costa e temo-lo em todo o lado: plástico a montes, à discrição. Resulta assustador pensar que aquilo que vemos, e a que chamamos poluição, é o que menos mal nos está a fazer, de momento. Muito pior é aquilo que os nossos olhos não conseguem ver.
Os microplásticos estão aí, fazem parte da cadeia alimentar e chegam à nossa mesa. Estão dentro dos peixes que comemos, e por consequência, estão dentro de nós.
Por mais que façamos, por mais longe que se vá com o nosso barco, não estamos longe demais, porque há micro-plásticos em todo o lado. E somos nós que os lançamos na natureza, não há outro culpado.
O desafio de hoje é olharmos para aquilo que é um porto de pesca. Se escolhemos a Ericeira, poderíamos ter ido visitar qualquer outro, porque são iguais, e enfermam todos dos mesmos problemas. Quando pairamos sobre aquilo que é o organizado caos de um porto de pesca, aquilo que nos salta à vista é a generalizada e massiva utilização de plástico.
São as gaiolas plásticas dos polvos, os alcatruzes, em plástico, (saudades dos alcatruzes de barro com que se capturavam há uns anos, biodegradáveis), são as caixas de peixe, em plástico, que obviamente são lançadas ao mar quando quebradas, ( já não há quem faça canastas de verga?), são os poliuretanos das boias, as bandeiras das boias, as coberturas das redes, as próprias redes, os contentores do lixo, os barcos, tudo é feito de uma ou outra forma de plástico.


É disto que falamos: plástico. Reparem que ainda existem alguns alcatruzes de barro, que são mais eficazes, os polvos preferem-nos, mas dado que o seu manuseamento tem de ser mais cuidado, acabam por ser preteridos.


Aspecto geral de uma desorganização organizada. Há um padrão de comportamento humano que leva a isto, e não adianta construir instalações modernas de recolha de equipamentos, porque aquilo que estaria lá dentro, era isto, assim, sem tirar nem pôr.


Os aparelhos de anzol são reparados em terra, e as pontas de nylon caem ao chão. Alguém as apanha, ou irão entrar no mar, mais dia menos dia?


Isto são plásticos e irão parar ao mar, mais dia menos dia.


Os cabos que prendem as gaiolas por vezes partem-se. A partir daí não há forma de recuperar estes resíduos. Mas a sua exposição aos raios solares, aos ultravioletas, também acaba por provocar degradação. Sob a forma de pó, não é visível, mas existe. 


Que formação é dada aos nossos marinheiros, no sentido de lhes fazer saber do ciclo de degradação do plástico? Quererão eles saber algo sobre isso? Quanto tempo da sua vida estarão dispostos a dispender para ouvir falar sobre o tema?


Aqui o temos: plástico a rodos, em pilhas. Estas gaiolas são encontradas mesmo nas profundezas oceânicas e aí ficarão até nos serem “devolvidas” sob a forma de micro-plásticos, quantas vezes incorporadas nos alimentos que ingerimos. 


A questão não é pescar, é fazê-lo de forma mais sustentada e limpa de poluentes possível.


Forma evidente de poluição: um plástico no mar. Este está à nossa vista. E os outros que já se desfizeram ao ponto de não poderem ser vistos?


Os micro-plásticos primários são libertados directamente para o ambiente, e representam entre 15% a 31% do total de plástico que chega ao mar sob a forma de pequenas partículas.
Sabemos que parte significativa das nossas roupas têm na sua composição poliéster. Trata-se de uma fibra sintética. Quando lavamos as nossas roupas sintéticas nas máquinas, acontece que o choque mecânico nas paredes do tambor da máquina liberta micro-plásticos que se desprendem das fibras e vão parar ao esgoto, e por sua vez ao mar. A lavagem destes nossos acessórios e vestimentas representa cerca de 35% dos micro-plásticos primários vertidos nas águas oceânicas.
Mas fazemos mais, sem querer: o desgaste dos pneus dos nossos carros também vai parar ao mar, sob a forma de micro-partículas. São mais 28% do total de micro-plásticos primários.
As senhoras usam esfoliantes, para limpezas de pele. Aí vão mais 2% de micro-plásticos, direitinhos ao mar.
Um outro tipo de poluente, o micro-plástico secundário, é lançado ao mar sob a forma de objectos de plástico em visíveis, sacos, garrafas, ou….redes de pesca perdidas, ou eventualmente lançadas ao mar por estarem …deterioradas. Irão decompor-se e mais tarde dar origem a micro-plásticos.
A ONU divulgou um estudo em 2017, que constata a existência de 51 biliões de partículas de micro-plásticos no mar, ou seja, 500 vezes mais que estrelas na nossa galáxia. Este número impressionante deveria fazer-nos reflectir.


Uma ponta de tubo, em plástico. A pessoa que a lançou ao mar, na sua ignorância e santa inocência, resolveu o seu problema. Mas deixou-o nas mãos de outros. Este tipo de produto contém retardadores de chama, aditivos e outros químicos que seguramente serão nefastos à saúde pública. E estão no mar. No nosso mar.


Lancei a minha linha para uma pedra a 280 metros de fundo num dia em que pescava a norte de Sines com carreto eléctrico. Veio isto agarrado ao meu anzol: uma rede, com corais e estranhas estrelas do mar. A vida marinha acaba por colonizar estes objectos, mas a maior parte deles irá transformar-se em micro-plásticos ao fim de dezenas ou centenas de anos.




Por filtragem, os micro-plásticos acabam por chegar a todos os organismos marinhos. Também estas lapas os terão no seu interior.
A seguir, os peixes mariscadores irão comer estas lapas, e posteriormente serão pescados por nós. Estes produtos podem ser encontrados por todo o tipo de vida marinha.
Sabemos que as tartarugas os ingerem, sabemos que as aves aquáticas também, e se pensamos que estamos livres, pois não, foram detectados em alimentos, bebidas como a cerveja, e inclusive na água das torneiras. Sim, cerca de 83% da água de torneira do planeta está contaminada. No sal com que condimentamos as nossas comidas, há resíduos microscópicos de plásticos.
Por isso mesmo, processamo-los no nosso organismo, sem saber de momento quais as reais consequências.
Basta olharmos para o lado e encontramos plásticos à nossa volta: telemóveis, roupas, computadores, sacos, embalagens de medicamentos, caixas com os alimentos que trazemos para casa. Estão em todo o lado.
Estima-se que em 2050 os oceanos terão mais plásticos que …peixes. Podemos pensar bem e pausadamente sobre aquilo que devemos fazer e como devemos agir. Mas convém saber que daqui a 10 anos teremos mais 25 milhões de toneladas de plásticos nos nossos oceanos…


O pequeno bodião vai conseguir comer a lapa. A seguir, vem um robalo e come o peixe. E nós iremos um dia comer esse robalo, ...


Este é o ciclo de transmissibilidade de uma toxina, um micro-plástico, algo que é introduzido no circuito natural da cadeia alimentar. Quem come mariscos e bivalves filtradores com frequência, tem grandes possibilidades de conseguir chegar a um número preocupante: 11.000 pedaços de micro-plástico/ ano. São estas as estimativas.
Os bisfenóis, presentes em tintas, embalagens de plástico, produtos industriais, causam não só poluição física mas também química: o bisfenol é um disruptor endócrino, o qual causa esterilização, e isso afecta os nossos golfinhos do Sado, por exemplo.
Por isso são hoje pouco mais de 20 animais, quando há 30 anos eram quase 100. A consanguinidade não explica tudo. Também estes difenóis provocam alterações nos óvulos dos peixes que desaguam nas nossas águas. E por isso temos menos peixe para pescar.
A ingestão humana de bisfenol provoca diabetes, cancro, infertilidade e doenças cardíacas. Temo-los dentro dos nossos intestinos.


Alguém gosta de lapas grelhadas na chapa? Estas podem ter resíduos de têxteis, pneus, tintas , pontas de cigarro, garrafas de plástico, redes, palhinhas de sumos, etc. São servidos?




Não seria entendível que se pedisse a voluntários humanos para ingerirem plástico e dessa forma monitorizarmos as suas consequências no organismo humano.
Mas podemos oferecer-lhes …umas lapas.
A comunidade científica mostra-se preocupada com o impacto que estes produtos tóxicos podem exercer na saúde humana. As toneladas de micro-plásticos existentes nos oceanos irão um dia decompor-se ainda mais e tornar-se nano plásticos, ou seja, partículas com menos de 100.000 milionésimos de 1 metro. São obviamente invisíveis.
Qual o comportamento do corpo humano perante estes resíduos? Poderão eles entrar nas células do nosso corpo? Como irão afectar os nosso tecidos e órgãos?


O futuro é algo sombrio, que pode mudar caso sejam adoptados comportamentos adequados. Podemos sempre fechar os olhos e fazer de conta que não existe problema nenhum...


Os ingleses têm um termo que é o "ghost fishing", que traduzido à letra é algo como pesca fantasma. Trata-se de algo que eu vejo com muita frequência quando mergulho: redes abandonadas, que continuam a matar, mesmo depois de esquecidas pelo pescador que as perdeu, ou que deitou ao mar por já não lhe servirem, por estarem demasiado rasgadas. Sei que é prática corrente em Setúbal que se lancem estas redes “descartadas” em zonas profundas, e que de tempos a tempos se levantem, pois trazem lagostas agarradas. O processo é simples: os peixes continuam a cair nas redes, e as lagostas são necrófagos que se alimentam de peixe morto. Está explicado?....
Milhares de animais são vitimas deste tipo de redes, acabando mutilados, afogados, sem conseguirem escapar. Li um estudo feito no Brasil onde referiam que cerca de 69.000 animais marinhos POR DIA (!) eram vitimas desta prática.
Para além destas mortes, as redes abandonadas acabam por se transformar posteriormente em micro-plásticos, continuando a matar.
Estima-se que estas redes velhas e abandonadas representam cerca de 10% do total de plásticos existentes nos oceanos. Será boa ideia tomar medidas?!
Parece-nos que devemos …esperar mais algum tempo? A resposta é simples e clara.
Tão simples e clara quanto a resposta dada a um soldado britânico que questionava um oficial da seguinte forma: “ Meu major, agora que a II Guerra Mundial acabou há meses, …acha que devemos parar de bombardear a Alemanha?...



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Olá Vitor. Obrigado por mais um artigo de sensibilização. Todos são poucos.
    Não sei se essa sensibilização é devidamente ministrada na formação que exigem aos pescadores profissionais, a mim não me parece. e é de suma importância, principalmente para os herdeiros desses pescadores.

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    1. Boa tarde Paulo Fernandes Cheguei agora do mar. Fis uns robalos e uns pargos.

      O plástico é algo que estamos a deixar para as gerações futuras e vai ser mesmo uma herança...pesada.

      Nunca é demais falar no assunto.


      Abraço!
      Vitor

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  2. Boa tarde Vítor,

    Plástico.... para mim, será a maior catástrofes ambiental do seculo!!!

    Mais um excelente artigo de sensibilização e alerta!
    Como anteriormente dito pelo amigo Paulo F., todos os artigos do género, nunca serão suficientes para retroceder esta catástrofe!

    Agraço,
    A. Duarte

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    1. Grande António! Hoje um bichinho valente endireitou-me os anzóis do assiste e partiu os dois anzóis ao nível das barbelas. Apanhou-me a comer uma sandes.....e estava só com uma mão disponível. Mordeu na caída, e numa altura em que eu tinha a boca cheia de pão com queijo. Filho da mãe....deve ter metido a linha numa zona de gorgónias, encontro apoio e aquilo foi em frente como se fosse um comboio de Sintra, ....
      Mais um que deixo para si!

      Força aí nos bichos.

      Abraço
      Vitor

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  3. Boa tarde Vítor,

    Ainda não tive a satisfação de apanhar um desses comboios! Um dia.... um dia...
    O sonho comanda a vida e esse está na minha lista!

    A pesca é rica em muitos aspetos, esse é um deles.... dá-nos a possibilidade de sonhar com o dia, em que a nossa linha nos traga um peixe desse calibre!

    Grande abraço Vítor,
    A. Duarte



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    1. Boa tarde António


      Tenho o seu e-mail e por isso vou enviar-lhe uma foto com o estado em que ficaram os dois anzóis do assiste. Estes casos só são casos e só fazem história porque nós não conseguimos o peixe. De todos aqueles que picaram e vieram para a caixa, aquilo que fica é um momento bom, de sucesso. E passam à história, porque não há mais a acrescentar. Os bons são aqueles que fogem!! Tenho uma memória fotográfica para todos os meus casos de insucesso, porque esses são aqueles que me fizeram e fazem crescer como pescador. Imagine o quanto é decepcionante perder um pargo de 7 ou 8 kgs.
      Pois esses são os bons, porque são os que nos fazem avançar na nossa técnica, na preparação dos materiais, nas bricolages que fazemos em casa, em tudo aquilo que inventamos para evitar a repetição do episódio. E isso é aquilo que estes pargos nos trazem de novo. São eles que nos motivam! A importância de um pargo que escapa, por esta ou aquela razão, é muito superior à de um pargo que guardamos na caixa.

      Certo?



      Abraço
      Vitor

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    2. Boa tarde Vítor,

      Certíssimo!!! 200% de acordo com tudo que você disse.

      Pesca é muito mais que ter o nosso peixe no ponta na linha, é a preparação de todo material, o inovar e fazer diferente.
      É a partilha de ideias com amigos, para atingir o nosso objetivo.

      De facto de uma grande satisfação, conseguir enganar um peixe e coloca-lo a seco, mas os que nos ficam no goto, os que nos tiram o sono, os que nos obrigam a evoluir e a ser mais astutos.... são de facto aqueles que não veem às nossas mãos, esses sim, deixam as maiores memórias e são alvo de conversas e recordação que perdura no tempo!

      Como diz um grande amigo meu..."Os que fogem são sempre os maiores..."

      Essa é de facto a essência da pesca!

      Grande abraço,
      A. Duarte

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    3. Bom dia António Este fim de semana, estava em Sines a puxar um robalo com algum peso, e a cerca de 10 mts da superfície ....descravou. Pensei para mim próprio: " Bolas!!!".....mas não parei o jig. Pois mesmo por baixo do barco, no momento seguinte, tive mais um ataque, e consegui então tirar um robalo de 2 kgs. Num instante, fiquei com uma nuvem de robalos à volta do barco, havia bichos por todo o lado. Como nestas situações ser aplica sempre o princípio " o pão dos pobres cai sempre com a manteiga para baixo, na terra"....um dos anzóis do assiste ficou preço na rede que tinha utilizado para garantir a captura. Quando voltei a lançar já tinham ido embora. Resumo: o robalo de que me lembro, não foi o que trouxe para casa e que fez as alegrias da Lena, no forno. Foi o robalo que me fugiu antes. E os outros, que eram uma "matilha" incrível, de muitas dezenas deles. A natureza humana é estranha, ....só valorizamos o que não temos.

      Uma boa semana aí!!


      Abraço
      Vitor


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