Pescar nas pontas de rocha, onde o mar bate!

Tendemos a fazer opções de acordo com as nossas conveniências. Quando pensamos em pescar a partir de costa, muitas vezes e de forma inconsciente, escolhemos os locais de pesca por critérios de facilidade de estacionamento do carro, de distância, ou até de piso até ao pesqueiro, de zonas planas para largarmos os sacos, as canas, etc. Estamos a olhar às nossas conveniências e muito pouco às conveniências dos peixes.
Se saímos a pescar de barco, a zona abrigada do vento parece-nos a melhor apenas porque sim, porque sabemos que irá estar mais ondulação do outro lado do cabo, ou mais frio.
O peixe não reage assim. Nem o poderia fazer, pois a sua vida depende da quantidade de alimento que consegue a cada maré.
Os critérios de escolha são distintos, e muito pouco coincidentes. Frequentemente temos tendência a querer humanizar as opções dos peixes. Vamos pelo que mais nos convém, a nós.
O trabalho do dia de hoje é tentarmos perceber o que muda quando estamos numa zona desabrigada, muito exposta aos ventos e correntes, longe das baías.
Hoje é aqui, na zona crítica de mar batido, as pontas avançadas de rocha agreste que sofrem com a ressaca da onda. Vamos ver o que se passa a nível de hidrodinamismo das águas, e de que forma isso possibilita a existência de alimento, de quantidade e qualidade dos peixes, e por consequência a forma como o tipo de fundo que escolhemos muda o resultado das nossas pescarias.
Aconselho a que leiam também o texto de ontem, porque se complementam, e tornam mais facilmente entendível a forma como os peixes seleccionam as suas zonas de alimentação, e o contraste que fazem duas zonas com potenciais e características completamente distintas.


As pontas de rocha são locais de forte agitação marítima. Precisamente por isso, não iremos encontrar vegetação exuberante, plantas compridas e frágeis, como vimos ontem. Antes encontramos algas rasas, de baixo relevo, poucas e muito agarradas à rocha.


Não muito longe desta espuma, teremos seguramente os sargos e douradas que procuramos. A alguns metros, um outro tipo de peixe procura algum cardume de pequenos peixes que se atreva a passar por este local de forte hidrodinamismo e que tanto os limita: o robalo.


O mexilhão cresce nestas zonas porque precisa da movimentação de partículas que a agitação marítima lhe traz. Porque está fixo, depende em absoluto da existência de nutrientes trazidos pelo mar. Em águas paradas, mortas, não há aporte de comida, logo não consegue sobreviver.


Para a casca dura do mexilhão da foto acima, a dourada evoluiu no sentido de uma dentição eficaz: incisivos que prendem o mexilhão, arrancam, e molares fortíssimos que o esmagam. Este tipo de dentes rombos, lisos, exige de nós a utilização e um anzol muito afiado e forte. Eu utilizo o FKSE- NK tamanho 4/0 da FUDO Hooks Japan, com muito bons resultados. 


E este é o local onde os mariscos vivem! Uma área de grande dinamismo, com águas agitadas, carregadas de nutrientes, muita luz solar, e na temperatura correcta. Não precisam de mais nada. 


As pedras do molhe da Nazaré. Todas estas zonas agitadas são propícias à existência de mariscos e por consequência, daqueles que os comem.


E aqui estão os nossos sargos. Procuram a sua alimentação nas pedras com cracas, mexilhões, ouriços, lapas, etc, em zonas muito oxigenadas Pescam-se perfeitamente nestes locais com um camarão de vinil, e uma bala de tungsténio de 5 a 7 gramas, a servir de lastro. A linha do terminal deve ser fina, não mais de 0.20mm.


Reparem na ausência de plantas aquáticas, indicador de zona exposta à ondulação. Este é o terreno por excelência dos sargos. Nós podemos não ver nada para comer, mas eles vêem, e no fim de cada maré têm o estômago cheio de “coisas estranhas”...


As cracas são muito procuradas pelos peixes mariscadores. Para quem tem dentes fortes, estes pequenos “vulcões” significam comida. Muitas vezes encontramos uma massa de proteínas e cascas, misturadas, no seu estômago. É isto.




Os dentes dos sargos estão preparados para este trabalho árduo de abocar com os incisivos, os tais “dentes pretos”, partir, esmagar com os fortes molares anteriores, e engolir a comida.
Neste terreno agreste, rude e áspero como lixa, o sargo sente-se em casa. A agitação das águas só os favorece: abocam a comida e esperam pela vaga, que irá empurrar o seu corpo espalmado, desenhado para oferecer resistência.
É a força natural da onda que lhe dá o impulso necessário para arrancar ou partir o perceve, o mexilhão, o que seja. O sargo só tem de morder, a água faz o resto. Poupam assim a energia que tanto lhes custa a obter.
Em dias de mar parado, eles têm dentes suficientemente fortes para fazer o trabalho….


O sargo e a dourada aproveitam muito bem as horas de maré alta para visitar estes espaços, para se alimentarem. Ao fim de algumas horas, estas pedras poderão estar a seco, sem água em cima. Por isso, não têm tempo a perder, sobem às pedras assim que a conta de água da maré é a suficiente. Quando estamos num plano superior, uma arriba, um farol, o que seja, vemos os corpos deles a brilhar. Estão a comer.


Sei que vos parece estranho, mas a quantidade de comida que existe aqui, neste espaço limitado de rocha que conseguem ver, daria para alimentar perfeitamente um bom cardume de sargos. Para os nossos olhos parece um deserto, mas aos olhos de uma dourada ou um sargo, isto é uma prateleira de supermercado cheia, atestada de comida!


Vítor Ganchinho


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