Os polvos sentem dor física e emocional?

É um molusco e temo-los aos milhões. Fazemos polvo à lagareiro, arroz de polvo, gostamos de polvo sêco da feira assado na brasa, etc. Estão à venda em qualquer supermercado do nosso país, frescos ou congelados.
Definitivamente, não há falta de polvos em Portugal. De certeza absoluta. Foi o quarto “produto” mais descarregado em lota no nosso pais nos últimos anos. Mas tendo polvos tão próximo de nós, significa isso que os conhecemos bem?
Não, de todo. Na verdade, muito poucas pessoas sabem mais que o abc da vida deste incrível animal!
Vivem pouco, dois a três anos, mas vivem uma vida bem preenchida, e mesmo nada monótona.


Polvo com ar de malandro, a espreitar fora da sua toca, que fica num rasgo inferior da parede. Em caso de ataque, basta-lhe esgueirar-se para dentro do buraco e desaparece.


O ensaio de hoje é algo técnico, e dá-nos alguns elementos essenciais para irmos um pouco mais longe naquilo que sabemos sobre este membro da família dos cefalópodes.
Sabemos que esta classe apresenta macroneurónios muito desenvolvidos. O facto de terem um corpo aparentemente desprovido de defesas, levou-os a desenvolver níveis elevados de inteligência. Ou àquilo a que nós humanos chamamos de inteligência.
Se pode ser verdade que não vêem a cores como nós, parece certo que conseguem distinguir a polarização da luz, ou seja vêem nuances de cor, cor gradativa.
E também damos como certo que têm um apurado sentido de toque, de contacto físico. As suas ventosas estão equipadas com quimioreceptores, que lhes dão o sabor daquilo em que tocam.
O que não sabíamos é que sentem dor física, nem em que grau.


Quando escurecem os cromatóforos da cabeça, isso significa um claro sinal de preocupação pelo estado desprotegido em que se encontram. Certamente não encontra nas redondezas próximas nenhum refúgio suficientemente seguro. Porque admiro imenso os polvos, escrevo bastante sobre eles. Podem ler outros textos publicados anteriormente, no blog.


Foram feitos estudos que indicam que sim, que sentem dor da mesma forma dos mamíferos. Para que tenham a noção da importância deste dado, é algo de novo, que nunca se tinha conseguido medir.
A experiência da dor é muito mais que um reflexo a estímulos ou uma lesão súbita, algo apenas físico. Trata-se de um estado emocional complexo, de angústia ou sofrimento, e que julgávamos exclusivo de vertebrados.
A percepção que temos de dor parecia ser, até agora, algo restrito a sistemas nervosos muito evoluídos, mas pelos vistos, há na natureza quem seja capaz de incluir no seu cardápio de emoções este factor: a dor.
Em termos neurológicos, e à luz daquilo que sabemos hoje, os polvos são os invertebrados mais complexos do planeta. Surpreendentemente a enorme quantidade experiências feitas apontou sempre no sentido de explorar as suas “habilidades” de desenroscar tampas, de passar por labirintos complicados, de os levar a encontrar forma de chegar a um caranguejo tendo de escolher um tubo de vidro que sai em sentido contrário ao da presa.
Eles passam e repassam testes atrás de testes, provando a sua inteligência. Temos feito de tudo com estes incríveis polvos, menos testar a sua sensibilidade à dor física e emocional.


É muito corrente que nos tentem enganar, escolhendo um padrão de cores que quase os “corta ao meio”, que dilui a sua silhueta em várias parcelas. Podem ver acima um bom exemplo disso, e com os famosos “picos”, que mais não são que uma tentativa de acompanhar as pontas das algas circundantes. Isto é camuflagem pura, mesmo que não suficiente. Pelo sim pelo não, debaixo dele já tem algumas pedras que nos irá colocar à frente, como armas de defesa. Duas delas vocês conseguem ver na foto, se olharem com atenção.


Ele coloca-nos algumas algas na frente, e confia que iremos passar sem o ver. Aqui temos um caso em que o lençol é curto, se tapa a cabeça, destapa os pés...


Uma neurobióloga chamada Robyn Crook, da Universidade de San Francisco foi por aí. Dedicou anos da sua vida a estudar ratinhos de laboratório, e a dado passo, virou a sua atenção para os polvos, utilizando protocolos de estudo quase idênticos.
Ao fazer medições detalhadas de comportamentos associados à dor e à actividade neural associada, esta senhora identificou três linhas de evidência distintas que provam que os polvos são capazes de sentir e viver estados emocionais negativos, quando confrontados com a dor. E isso é exactamente aquilo que os humanos apresentam quando sujeitos às mesmas condições! Mesmo com um sistema nervoso bastante diferente, no fim, os polvos mostraram estar ao nosso nível.
Passando à frente daquilo que é o trabalho de campo difícil de medir e interpretar sentimentos subjectivos, ou um estado emocional num invertebrado, (conseguimos fazê-lo perfeitamente quando o nosso cão nos abana o rabo….), a verdade é que os polvos demonstram mudanças duradouras do seu estado emocional, afectivo, se quiserem, dando sinais evidentes através das suas atitudes.




Foi testado e concluído que os polvos podem responder reflexivamente a estímulos nocivos, dolorosos, e que aprendem a evitar esses contactos.
Ao serem colocados numa grande caixa de vidro com três compartimentos diferentes comunicantes entre si, alguns polvos receberam uma injecção de ácido acético num dos tentáculos.
A partir daí, mostraram claramente a sua intenção de evitar estar nesse compartimento em que receberam a injecção.
Outros receberam apenas uma injecção salina, inóqua. Não mostraram uma particular intenção de não passar por esse compartimento da caixa.
Aos polvos injectados com ácido, foi posteriormente, e noutro compartimento, dada uma injecção de um análgésico, lidacaína, para aliviar as dores. Esse compartimento passou a ser o favorito desses polvos.
No caso dos polvos injectados com solução salina, não ficou demonstrado qualquer sentido de permanência nessa câmara onde o analgésico foi aplicado.


Uma bonita “carracinha”, um polvo muito jovem, intrigado com o propósito do fotógrafo….que só pode ser de ternura, perante este olhar inocente.


Ou seja, temos dois casos diferentes, em que o primeiro é uma dor persistente, contínua, e outro uma dor passageira, transitória.
A preferência por uma local isento de danos, ou dor, é considerada uma evidência forte de que há uma experiência de dor efectiva em invertebrados. Isto nunca tinha sido provado antes.
Ao decidirem não voltar a visitar o compartimento onde foram injectados com um ácido, estão a dar uma resposta que é objecto de aprendizagem, algo fortemente cerebral.
Foram também efectuados estudos que demonstram a percepção de diferentes qualidades e intensidades de dor, nomeadamente a de uma amputação de um tentáculo.


Predador bem sucedido, o polvo por vezes tem mais olhos que barriga...


Utilizando registos electro-fisiológicos, Crook demonstrou que há sentido de dor, e isso aconteceu aquando da injecção de ácido, e também uma resposta de alívio da dor, através da introdução de um analgésico, a lidocaína, que reverteu essa sensação anterior.
A junção dos dois dados prova que há sentimento de dor.
O objectivo deste estudo foi exactamente esse, o de provar que há sentimento de dor em animais invertebrados.
Eventualmente isso poderá ser o primeiro passo para uma análise mais profunda daquilo que pode ser o conhecimento que os humanos um dia terão sobre as sensações fisicas e emocionais em animais marinhos.
Se podemos pensar que um polvo sente o bico de um dos nossos anzóis e mesmo assim insiste em ficar com a isca, carregando com ela para a sua toca, (chamariamos a isto uma dor aguda que implica resposta nervosa à dor periférica), também podemos pensar que ao sofrer um ataque de um safio, que correntemente lhe consegue amputar pelo menos um tentáculo, esse sofrimento é sentido ao nível do sistema nervoso central.
Da experiência que tenho, estes polvos abandonam as suas tocas, onde foram atacados, já que as consideram não seguras. Podem ficar na mesma pedra, ( conheço zonas onde o fundo é composto por pequenas pedras ilhadas, com muita areia à volta), mas mudam de posição. De resto, sair de um buraco não garante a chegada a outro, caso não esteja suficientemente perto, ou existam vários safios no local. Nos meses de Outubro e Novembro, os polvos chegam-se à costa, para desovar. Semanas antes já terão chegado os safios, que os esperam.
A densidade safios e polvos pode chegar a deixar-nos atónitos. E a proximidade dos esconderijos de uns e outros algo de nos causar perplexidade. Podem ser dois ou três metros. Vivem juntos durante dois meses.
Tive oportunidade de assistir ao vivo a ataques de safios, e é algo de impressionante, pela violência da acção. O safio aproxima-se da cova do polvo, morde-lhe um tentáculo e roda sucessivamente sobre si próprio até o conseguir arrancar.
Não é possível que isso não produza dor intensa ao polvo. Todavia, conseguem regenerar o tentáculo em relativamente pouco tempo.




É difícil não gostar de polvos. Pelas suas atitudes, pelos seus estratagemas para nos enganarem, pela sua inteligência, qualquer que seja o conceito de inteligência que queiramos considerar. Na verdade, trata-se de um animal magnífico, que pescamos ocasionalmente nas nossas linhas, e que irá continuar a deambular por esses fundos marinhos, umas vezes a poucos centímetros de água, outras a centenas de metros de fundo. Os polvos fazem parte do nosso património, e se algo vos peço é que libertem aqueles que são pequenos, que de pouco vos irão servir, mas que no mar fazem falta.
O peso mínimo legal é de 750 gramas. Abaixo disso estamos a retirar a vida a um ser espantoso, que merece continuar a surpreender-nos pela sua astúcia.


Polvo a escapar-se o mais rápido possível da zona em que foi fotografado.


Tempo de ir embora também para mim. Já sabem, o compromisso do blog é 5 minutos de leitura sobre mar. Espero que tenham gostado.

Amanhã temos mais.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Caro Vitor,

    O "nosso" polvo, é simplesmente um animal único!

    Abraço,
    A. duarte

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    1. OI António !
      Efectivamente trata-se de um animal fabuloso. Para mim, o mais próximo que alguma vez estaremos de um extraterrestre...

      Espero que tenha gostado deste artigo, deu-me muito gozo fazer pesquisa e escrever isto.

      Se houver alguém que se manifeste, mesmo que seja a dizer mal, já ajuda.


      Abraço!
      Vitor





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  2. São 5 minutos de leitura muito bem passados.

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  3. São 5 minutos de leitura muito bem passados.

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  4. Muito bom Vítor, o seu sistema circulatório também é muito interessante. Obrigado pela partilha.

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    1. Efectivamente, trata-se de um bichinho que não pára de nos surpreender. Seguramente voltarão ao blog, a propósito de qualquer outro motivo. O polvo é para mim algo de incrível, pela quantidade de perspetivas pelas quais pode ser olhado.

      Vão pescar, há robalos e pargos bons na costa! Está tudo cheio de peixe....


      Abraço
      Vitor

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