Pele de enjoo

Alguém quer um comprimido para o enjoo?

Muito frequentemente a resposta é um não rotundo, convicto. Ao entrar para o barco, e olhando ao mar que está dentro da marina, a resposta é evidente: claro que não, sinto-me óptimo.

Quando tento insistir, quando informo que o mar lá fora está um pouco diferente, que vai estar uma onda malandra, um pouco de vento, sou normalmente “vaiado” por um coro de vozes que dizem que estou a exagerar. Mais ainda quando o barco começa a navegar com velocidade, e o vento bate na face dos meus convidados ou clientes. Por mais que se explique, resulta inútil, e não vale a pena.

Porém, quando chegamos ao local e o ferro desce, o barco passa a estar ao sabor da onda. Começa aí o sobe e desce e se temos algum vento, temos também alguma vaga, por pouca que seja. Aí, os movimentos ondulantes da embarcação começam a fazer estragos. Ele é o olhar para os anzóis, é a colocação das iscas, o desferrar dos peixes, o passar um fio pelo passador, é baixar a cabeça para meter um peixe na caixa, e é...tudo! Tudo incomoda, tudo faz começar a engolir com mais frequência. A dado momento, já nada está bem, o estômago começa a revirar-se e surge a chamada “pele de enjoo”.
Os olhos começam a ver tudo enevoado, deixa de falar porque a garganta fica apertada e não consegue responder a ninguém.
O atleta fica branco, a seguir vira para uma cara de choco às riscas verdes …e já está!



A partir deste momento, nenhum comandante de barco nenhum pode valer ao infeliz “mareado”.
A sugestão de retirar alguma roupa, para passar um pouco de frio, método que efectivamente resulta, é normalmente mal aceite. A resposta comum é “ isto já passa, …deixem-me só ficar aqui um bocadinho quieto”...
Não passa.

Vamos neste número do blog ver as razões técnicas pelas quais o enjoo aparece e em que consiste.
Trata-se de uma reacção fisiológica provocada por um conflito de informação chegada ao cérebro de forma confusa.
Tecnicamente, o enjoo de movimento é uma CINETOSE, um incómodo causado por um transtorno ao nível do “labirinto”, o aparelho vestibular, um sistema de cavidades em espiral existente no interior do nosso ouvido interno e que tem a função de cuidar do nosso equilíbrio.
Este labirinto é o responsável pelos movimentos autónomos, aqueles que fazemos sem pensar. Nós não pensamos em nos equilibrar quando nos deslocamos, mas algo faz com que saibamos a que nível está o chão, e a direcção em que devemos marchar.
Fazemo-lo de forma inconsciente, mas algo trabalha dentro de nós para que o consigamos fazer sem tropeçar. Fazemo-lo bem desde tenra idade, concretamente assim que aprendemos a …”andar”. Andar é isso mesmo, ser capaz de produzir movimento, controlando todas estas variantes. Na nossa vida normal, em terra, para mantermos o equilíbrio fixamos os olhos num ponto e caminhamos para ele. O nosso cérebro processa a informação que chega através dos olhos, mas também de outros detectores de movimento que possuímos: os membros inferiores, (os nossos pés sentem o chão e a sua inclinação), e o nosso ouvido interno.
Mas quando estamos no barco, a informação recebida não corresponde à realidade.
O balanço das ondas confunde a informação fornecida ao cérebro. O movimento de uma embarcação é irregular, existem movimentos de oscilação de bombordo para estibordo, e da proa para a popa. O plano horizontal que os nossos pés encontram no piso na verdade não corresponde ao plano horizontal que os olhos percebem. São diferentes. Porque os movimentos do barco são desordenados, há um conflito latente, e o cérebro reage a estas informações discordantes. Os nossos olhos dizem-nos que estamos em movimento, eventualmente a ser transportados, mas os pés estão parados, assentes no deck do barco. E pressupostamente na horizontal.
O processo de vertigem posicional não é um exclusivo das viagens de barco, pode ocorrer em automóveis, autocarros, num parque de diversões, etc. Também não afecta todas as pessoas da mesma forma, e isso não foi completamente entendido até aos dias de hoje. Sabe-se que a susceptibilidade à cinetose varia de indivíduo para indivíduo. Também sabemos que as mulheres são duas vezes mais propensas a sofrer deste mal, e que em determinados momentos da sua vida, como a pausa menstrual, o factor é agravado. É possível ainda referir que a idade é um factor determinante: as crianças começam a enjoar por volta dos 6 anos, aumenta significativamente ao chegarem aos 10 anos e sofre um decréscimo significativo até aos 20 anos.
Concretamente o vómito é uma contracção do estômago, forçada, que empurra o conteúdo pelo esófago e daí para fora da boca. Não se reveste de especial gravidade, passa ao fim de algumas horas, provocando apenas algum mal-estar, desidratação e alterações electrolíticas.


É verdade que a dado momento, o único alívio que o desafortunado marinheiro tem é mesmo aquele que acontece nos 10 minutos a seguir ao vómito. Mas volta a seguir, com intensidade redobrada, deixando a pessoa capaz de não distinguir sequer as cores.


Vamos agora tentar apontar “soluções”, sabendo que as pessoas irão resistir até ao infinito a aceitar as nossas sugestões. Tudo aquilo que lhes interessa é manterem-se imóveis, porque todo o tipo de movimentos lhes é penoso.

1- O primeiro método e mais conhecido, é o do simples comprimido que atua sobre a parte do cérebro responsável pelas náuseas e enjoos. Tratam-se de anti-histamínicos, vendidos em qualquer farmácia sem prescrição médica.

Fazem efeito se tomados 1 hora antes do embarque. Se tomados apenas depois de o enjoo surgir, o efeito é nulo.

2- Procurar ficar exactamente no centro do barco. Pelas razões apresentadas acima, todos os movimentos da embarcação têm um centro de oscilação. À proa nunca, sobe e desce bastante, mas a popa pode ser solução. O peso do motor oferece garantia de estabilidade.

3- Respirar de forma controlada e uniforme, pode ajudar, fixando um ponto longínquo no horizonte. Se tudo à volta do barco parece mover-se, e caso a costa não esteja à vista, há pelo menos uma linha de horizonte que é fixa e pode servir de apoio visual.

4- Evitar no dia anterior ingerir comidas muito condimentadas, gordurosas, de difícil digestão, bem como bebidas alcoólicas, ajuda bastante. Tomar previamente bastante água é positivo, e comer algo é indispensável.

5- Fixar os olhos em telemóveis, I-Pads, revistas, jornais, é garantir enjoo certo. Mesmo as pessoas muito habituadas a navegar, mesmo os profissionais enjoam, se fizerem isto. Não leia.


Comidas pesadas, mesmo que no dia anterior, são de evitar. Por melhores que sejam estes “secretos” de porco preto alentejano...


Raúl Gil a ver com muita atenção a matrícula do barco. A seguir, vai o pequeno-almoço todo…


A reacção seguinte é negar que se deve retirar roupa. A pessoa fica num estado lastimável, e a cada 10 a 15 minutos vai ter de voltar a vomitar. Quando chega ao “amarelo”, já foi a bílis, e já foi toda a capacidade de resistência.


Vamos ver agora um caso de enjoo em terra: Surströmming é o nome sueco para arenque azedo.
É arenque do Mar Báltico fermentado, vendido em latas e consumido no norte da Suécia.
O peixe é pescado em Abril e fica fermentando em recipientes abertos até Julho!
A fermentação continua mesmo depois de o peixe ser enlatado e não é de todo incomum que as latas fiquem salientes, opadas.
O cheiro, criado por autólise na fermentação, tornou o surströmming famoso.
A responsabilidade pelo cheiro nauseabundo é do sulfeto de hidrogénio mais conhecido como o cheiro de ovo podre.
O surströmming costuma consumir-se ao ar livre, no final do verão. Normalmente não é permitido comer dentro de casa na maioria dos prédios de apartamentos.
Pode-se obtê-lo em alguns restaurantes, mas geralmente é por apenas uma noite no ano, uma espécie de... festa do mau cheiro.

Veja abaixo o vídeo de um “sofredor” tentando comê-lo:




Resolvi levar à pesca o meu amigo António Marques, vulgarmente apelidado de “Toni”, e uma estrela nacional no que a informática diz respeito.
Mas computadores são uma coisa e canas de pesca outra, completamente diferente. E a coisa deu para o torto.


O Toni aqui ainda pescava besugos e carapaus …com alma. Quando começam, está tudo muito bem. Daí a pouco, viram “dragões furiosos” e lançam chamas pela boca.


O processo é muito rápido, pode levar poucos minutos. A partir do momento em que se entra em estado de perda, é francamente difícil voltar atrás Reverter o processo e pôr a pessoa a pescar de novo é uma missão francamente ingrata.


Passados alguns momentos, a pessoa resolve…”descansar um pouco”.


Há pessoas que não sofrem mesmo nada com os balanços do barco. Ou porque terão um organismo menos sensível, ou porque tiveram sorte na escolha do dia, ou porque pura e simplesmente ignoram os sinais e comem desalmadamente. Aqui o meu médico e amigo Dr. Horácio Silva, em grande forma a dar “ao serrote”, a comer mais uma sandes. Neste dia estávamos ao largo a pescar com carreto eléctrico, aos gorazes e cantaris. 




Por vezes recebemos clientes nos nossos barcos que são aparentemente imunes aos efeitos do enjoo. Sabemos que quase sempre têm o cuidado de tomar um comprimido 1 hora antes de embarcar. A partir daí, fazem a sua pesca e aproveitam os petiscos que fornecemos a bordo das embarcações GO Fishing.
Outros, como o nosso colega da esquerda, têm menos sorte, e passam algumas horas meio…”mareados”, e desejando de chegar a terra.

Espero que se tenham divertido. A ideia foi apenas dar uma ideia das razões pelas quais as pessoas enjoam, e nada mais.
Em última análise, devemos considerar que quem enjoa apenas o faz por ter um organismo perfeito, bem afinado, e que reage a uma situação de desconforto. Trata-se de uma reacção fisiológica normal, corrente e que passa ao fim de duas ou três saídas.
É apenas necessário não desistir, ter coragem e continuar a ir à pesca. Pescar é preciso!



Vítor Ganchinho



2 Comentários

  1. Pode servir a alguém.
    Há uma alternativa para quem a sonolência seja inconveniente, a Biodramina. Funciona como os outros mas contém cafeína.
    Para quando já enjoado, quando os comprimidos são para sair sem fazerem efeito, existe o Stugeron em gotas.
    Não é preciso dizer que isto é só informação que deve ser tratada com responsabilidade, pois não?

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    Respostas
    1. Obrigado pela partilha, Leonel Silva.

      Eu costumo sair ao mar, levo muitas pessoas e a última vez que me apareceu um penitente a enjoar, foi há dois dias. Seguramente que a sua informação vai ser útil a muita gente.

      Obrigado!

      Vitor

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