Linhas trançadas em vez de nylon

Na década de 90 do século passado, foi lançado um produto que viria a revolucionar a pesca como hoje a conhecemos: a linha multifilar, o hoje vulgar fio “trançado”.

A evolução da qualidade e quantidade de materiais de pesca disponíveis no mercado, veio mudar tudo. A paixão das pessoas pela pesca acredito que seja a mesma, mas hoje indiscutivelmente faz-se pesca com mais qualidade, há mais conhecimento disponível.
As enormes limitações apresentadas na altura pelo monofilamento de nylon, um autêntico elástico, só aceite por não haver mais nada, eram ultrapassadas por uma paixão muito grande pela arte. A tudo se resistia, em nome do entusiasmo de conseguir enganar os peixes.
Recordo-me de ter aparecido, nos meus verdes 15 anos, a uma localidade no Baixo Alentejo, de nome Pedrógão, para pescar no rio Guadiana ao achigã com cana e carreto.
Recordo-me bem da cara de espanto dos locais, que a dada altura me perguntavam: _ E essa coisinha que roda serve para quê?...
Expliquei calmamente o processo. Que aquilo era nem mais nem menos um enrolador de linha, para poder lançar longe uma colher metálica e recuperar o fio a seguir. Chamava-se carreto.
Não entendiam uma série de detalhes. Desde logo para que era necessário lançar se depois se recolhia a linha outra vez. Para eles, era trabalho inútil e absurdo. Quando disse então que os peixes mordiam a chapa metálica e ficavam presos na fateixa, foi o descrédito total: “_ Quer dizer que eles roem o ferro? Sem minhoca?...hummm….então e quantos tira de cada vez?!”….
Senti-me ridículo a responder que normalmente era apenas um. A resposta deles foi lapidar: _ “Nós aqui pescamos com rede de tresmalho ou com atarrafa. Cada lance, um cesto de verga cheio de peixes!”...




Hoje, explico para que serve um conjunto de LRF e sinto o mesmo, que estou a pregar no deserto. Quando tenho a sorte de ter gente no barco, junto a mim, que não acredita no sistema, consigo mostrar a eficácia das pequenas amostras, dos vinis, dos jigs, pescando peixes atrás de peixes. Mesmo quando estão em barcos próximos. Mas quando estão longe, é bem mais difícil…porque implica acreditar que sim.
E se os meus compadres alentejanos se sentiam felizes por fazer 20 quilos de achigãs em cada lance, como poderia eu contestar dizendo-lhes que para fazer isso, eu teria de pescar duas horas? Na altura havia milhares de achigãs naquela zona, nunca pescados, com uma crença inabalável nas minhas colheres rotativas da Meps, ou as Veltic, que eram aquilo que se conseguia comprar. Mau material mas muito e bom peixe. Hoje estamos do outro lado do muro: muito bom material, mas pouco peixe.




A linha trançada veio mudar o paradigma.
Passámos a ter a possibilidade de reagir muito mais depressa a toques que anteriormente nos eram francamente mais difíceis, por chegarmos sistematicamente tarde ao peixe. De facto, passámos a poder pescar mais fundo.
Também aconteceu que esta linha, muito pouco elástica, veio possibilitar aos amantes do spinning ferrar peixe a distâncias muito maiores. De repente, linhas mais finas, mais resistentes, com menos necessidade de chumbo de lastro, passaram a trazer peixes à superfície que nos estavam vedados.
Foram estas linhas a trazer os novos carretos eléctricos, as canas mais leves e flexíveis, com outra capacidade de manobra. E, um dado muito curioso, permitiram passar a pescar com varas mais curtas, logo mais reactivas. O tempo das canas de 3,60 a 4 mts, era outro, e se eram compridas, nunca foi por serem mais leves ou mais manobráveis. Foi sim porque havia que vencer uma resistência enorme entre a elasticidade da linha, o chumbo pesado necessário para a afundar, e a força da corrente a dar seio ao nylon. Por tudo isto, era necessário erguer todo o sistema pelo menos 3 a 4 metros para se conseguir cravar eficazmente um peixe. Naquelas condições, uma cana curta dificultava ainda mais a ferragem, já de si difícil.
Hoje, com linhas multifilamento muito mais finas e ainda assim mais resistentes, muito menos elásticas, com menos chumbo, e com um diâmetro inferior, logo com menor atrito à corrente, podemos operar com canas mais curtas, mais rápidas, igualmente sensíveis mas mais leves e por isso também menos cansativas. Pescar com canas de 4 metros, mais pesadas, tornou-se um handicap, e uma forma penosa e garantida de ganhar dores de braço e costas.

Surgiram os carretos eléctricos de pequena dimensão, as canas com passadores invertidos, e chegámos ao que temos hoje disponível: equipamento de luxo para quem pesca vertical.




Felizmente a vida evolui, os materiais melhoram a cada dia, e longe estão os tempos em que era impossível pescar muito fundo.
E se isto é falar do passado, permite também antever o futuro: vai mudar tudo. Daqui a alguns anos, os novos materiais de hoje estarão obsoletos, porque onde existe dinheiro a ganhar, a indústria entra, inova, cria, e produz. Por vezes basta mudar um pequeno elemento, neste caso a linha multifilar, e tudo o que gira à sua volta se altera. Se as linhas trançadas hoje são muito pouco elásticas, há que melhorar as embraiagens dos carretos. E fez-se isso.
O trabalho de laboratório é testado por centenas de pessoas, no mar, onde ele efectivamente tem de ser eficaz. Sei que uma marca japonesa fabricante de canas e jigs, a Deep Liner, vende em duas semanas todas as saídas de barco da sua frota, a pessoas que querem participar nesses testes de novos produtos. Falamos de milhares de pessoas a testar aquilo que é sugerido pelo departamento de inovação e desenvolvimento da marca. O material vai ao mar, volta ao laboratório para ser ajustado, e retorna ao mar para teste. Ao fim de dois anos, e depois de se chegar a um esgotamento da capacidade de melhorar o produto, este é então lançado no mercado.




A linha multifilar foi algo que adoptei desde o primeiro dia em que tive conhecimento desta inovação. Confesso a minha perdição por produtos novos. Gosto de fazer experiências, e inclusive de tentar inventar formas de pesca alternativas. A ideia de ir ao mar apenas para trazer peixe para casa é algo de muito redutor, e não esgota o meu leque de ambições. Bom mesmo é ir lá e tentar pescar os peixes de sempre mas de uma forma completamente nova. E é aí que entra o gosto que tenho por fazer bricolage com materiais de pesca, de os alterar, de inovar. Por outras palavras, preparar as coisas “à minha maneira”.
Não hesitem em mudar, em ajustar a vosso gosto aquilo que vem de fábrica. Se por um lado estão a renunciar muitas vezes a trabalho aturado e moroso de especialistas, por outro estão a ir ao encontro daquilo que é mais importante na pesca: acreditar que funciona.
Sendo feito por vós, e caso falhe, não é um problema grave. É apenas um passo atrás que permite voltar a tentar de novo. Acreditar no equipamento que temos em mãos é fundamental. Se foi preparado por nós...



Vítor Ganchinho



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