Os chocos são inteligentes?

Um cefalópode foi aprovado num teste cognitivo desenvolvido para crianças humanas. Esta é a notícia, e não deixa de ser surpreendente.
Foi feito um teste a chocos que veio reforçar o quanto é importante para nós, humanos, não subestimar a inteligência animal.

Os chocos foram submetidos a uma nova versão do teste de inteligência versão chocolate, e os resultados parecem demonstrar inequivocamente que há algo a passar-se nos seus cérebros que nos era desconhecido até agora.
O que foi verificado foi a sua capacidade de se adaptarem, de aprenderem, e com isso conseguirem evoluir para obter vantagens num mundo marinho que é cruel, que não perdoa aos mais fracos, que assenta basicamente num critério de comer e não ser comido.
Este teste, conhecido por “Experiência chocolate de Stanford”, é bastante directo e consiste no seguinte:

Uma criança é colocada numa sala com um chocolate. É informada que, caso não o coma durante 15 minutos, receberá ao fim desse tempo um outro, e poderá comer os dois chocolates.
A capacidade de atrasar a gratificação demonstra habilidades cognitivas, capacidade de planeamento futuro, e foi originalmente conduzida no sentido de estudar como é que o conhecimento humano se desenvolve.
Concretamente neste caso, saber com que idade é que um ser humano é inteligente o suficiente para atrasar um benefício, sabendo que isso significará um resultado melhor, posteriormente.


Não param de nos supreender, estes moluscos.


Por ser um teste bastante simples, pode ser ajustado a animais. Não com chocolates, mas com o seu alimento do dia a dia.
Se não podemos dizer-lhes que a seguir será melhor, podemos pelo menos treiná-los para que entendam que, caso não comam de imediato a primeira porção de comida que lhe é distribuída, terão daí a pouco algo bem melhor.

Alguns primatas fazem isto facilmente, e também os cães o conseguem, embora não de forma consistente. Também alguns corvídeos passaram este desafio.
O ano passado, um choco passou numa versão do teste, e isso foi uma bomba que caiu do céu. Os cientistas demonstraram que o choco comum, (Sepia officinalis), o choco que nós pescamos no Sado às dezenas, todos os dias, pode evitar comer um caranguejo de manhã, uma vez que aprendeu que, caso espere pelo jantar, terá algo de que ainda gosta mais: camarão.
Por isso os palhacinhos, ou toneiras, os imitam tão bem, nos seus saltos erráticos sobre o fundo. A maior parte dos palhacinhos imita de facto um camarão, a comida favorita. Outros imitam pequenos peixes, o alimento que mais correntemente conseguem capturar.
Também as cores garridas não são por acaso: o choco vê apenas uma escala graduada de tonalidades, onde um laranja pode ser idêntico a um rosa, mas vê, e tem preferências por esta ou aquela, consoante os dias, a visibilidade da água, etc.
Por isso temos de levar várias toneiras, porque se estamos com a certa, ok, se estamos com a errada, não pescamos um único.


Embora a forma seja idêntica, existem inúmeras variantes de cor. Uma delas é a boa para esse dia.


Uma equipa de pesquisadores da Universidade de Cambridge, liderada pela ecologista comportamental Alexandra Schnell, reportou que neste caso, é difícil determinar se a mudança de comportamento natural, que induziria à captura e ingestão do caranguejo disponível na primeira fase do teste, estaria ou não a ser condicionado somente por uma habilidade de auto-controle. Por isso, projectaram um outro teste, a ser executado com seis chocos comuns.
Os chocos foram colocados num tanque especial, com duas camaras fechadas, com portas transparentes, para que os animais pudessem ver o seu interior. Em cada um dos compartimentos foram colocados, respectivamente, um pedaço de camarão morto e um camarão vivo, supostamente mais atractivo que o outro. As portas tinham símbolos colocados aleatoriamente que os chocos foram treinados a reconhecer. Um circulo significava que a porta iria abrir de imediato.
Um triângulo indicava que a porta só abriria daí a 2 minutos. E um quadrado, usado apenas para indicar que a porta nunca iria abrir.

Neste teste, o pedaço de camarão foi colocado dentro da camara, com a porta aberta, enquanto que o camarão vivo só ficou acessível ao fim de algum tempo.
Se o choco fosse comer o pedaço de camarão disponível, o exemplar vivo era retirado de imediato, e colocado na porta com o símbolo quadrado, indicador de não abertura.
Os pesquisadores descobriram que todos os chocos, sem excepção, decidiram esperar pelo seu alimento preferido, o camarão vivo, porta com o sinal triangular, mas nunca tentaram ficar junto à porta com o quadrado, a que não iria abrir nunca.
Pese embora tivessem lá um camarão vivo, visível.
Os chocos foram capazes de esperar pelo alimento pretendido, pese embora tivessem de esperar por ele cerca de 2 minutos, o que é comparável ao que fazem vertebrados de cérebro grande, como chipanzés, corvos e papagaios.




Uma outra sequência de testes assentava no pressuposto de que os chocos seriam bons em termos de aprendizagem. Foram-lhes mostradas duas pistas visuais diferentes: um quadrado cinzento e um quadrado branco. Ao se aproximarem de um, o outro seria retirado do tanque.
Se fizessem a escolha correcta, receberiam como recompensa um camarão vivo.
Depois de aprenderem a associar um quadrado x a uma recompensa, os pesquisadores trocaram as cores, passando o outro quadrado a ser o que indicava a recompensa. Curiosamente, os chocos que aprenderam a adaptar-se a essa mudança, foram também os que conseguiram esperar mais tempo pelo camarão vivo. Isso indica-nos que os chocos podem exercer sobre si um determinado auto-controle, mas não fica muito claro o porquê. Se em relação a primatas a recompensa tem sido associada a factores como a possibilidade de utilização de ferramentas, o que pressupõe planeamento antecipado sobre a acção, armazenamento de alimento, e até comportamento pró-social (a garantir que todos têm acesso ao alimento), isso faz-nos denotar que estamos na presença de uma espécie social.
Os chocos, tanto quanto sabemos, não usam ferramentas, não escondem ou armazenam comida, nem são particularmente sociais. Os cientistas acreditam que essa capacidade de atrasar a recompensa da comida preferida pode ter algo a ver com a maneira como os chocos se alimentam. Aquilo que sabemos deles é que passam a maior parte do tempo camuflados, deitados sobre a areia, esperando. Pontualmente procuram comida durante breves períodos.
Com isso, quebram os seus índices de camuflagem, pois ao procurar alimento têm de se deslocar. E ficam assim expostos a um grande lote de predadores marinhos, que os procuram avidamente e que objectivamente pretendem comê-los.
Especulam os cientistas que a capacidade de atrasar a investida sobre a comida favorita pode ter a ver com isso, com a necessidade de garantir que não haverá nas imediações algo que os possa vir a atacar. Assim, conseguem optimizar a alimentação, comendo em segurança, sem serem perseguidos e capturados.
Este é um exemplo de como a evolução de comportamento de uma espécie está sempre condicionada por outras, neste caso predadores, e como é possível observar comportamentos e habilidades cognitivas semelhantes, em espécies diferentes.


Os ensaios irão prosseguir no sentido de determinar se os chocos conseguem “planear” outro tipo de acções futuras. Estaremos atentos.


As imitações de camarão, porventura as que melhor sucedidas serão, no universo de amostras disponíveis.



Vítor Ganchinho



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