A dignidade que um peixe nos merece

São nossos oponentes, nossos adversários, obrigam-nos a ir ao fundo das nossas capacidades físicas, técnicas e emocionais, mas não são nossos inimigos.
Vejo pessoas tratarem os peixes com um desprezo que me deixa constrangido, que me deixa triste com as figuras que alguns pescadores fazem por este país fora.
Penso que tem a ver com cultura de pescador, com a forma de estar perante o mar e a natureza na sua generalidade. Há pessoas que se pudessem “pescavam” golfinhos, aves marinhas, e tudo aquilo que mexe.

Já não é uma mera questão de sobrevivência, de garantir sustento para a família, é mais que isso, provavelmente uma necessidade imperiosa, e patológica, de se imporem a outros seres. As pessoas que vão ao futebol e gritam com o árbitro, com os jogadores, com o treinador, também gritam com os outros pescadores, com o peixe. Apenas não gritam consigo próprios.
Vejo isso com bastante tristeza, confesso.

Os habitantes marinhos estão lá, vivem lá, e quem está de passagem somos nós, que invadimos o seu espaço, somos nós que alteramos a harmonia que forçosamente tem de existir entre espécies que se complementam.
O tema de hoje do blog tem a ver com o respeito que devemos a quem está do outro lado da linha, um ser a quem oferecemos a possibilidade de se alimentar, e que na sua inocência não entendeu que estava a ser enganado.
A pesca não é isenta de traumatismos para quem nela participa, quer para o pescador quer para o peixe. As linhas que se seguem pretendem ajudar a entender de que forma podemos proteger aqueles que são objecto do nosso esforço de pesca.

Sem peixes, …não pescamos.


Marcas bem visíveis de um combate duro, que desta vez acabou em vitória do jig do pescador. Recordo-me de ter tentado retirar o anzol, que ferrou por fora, tendo ficado muito preso na maxila. Não libertei o peixe.


Quando por acidente nos acontece ferrar uma tintureira (na maior parte dos casos porque estamos na zona delas e acabam por entrar e morder os nossos iscos para pargos), é de bom tom tentar retirar o anzol provocando o menor dano possível. Estes peixes fazem falta ao ecossistema, limpando o mar de cadáveres, de peixe ferido, doente ou morto. É praticamente impossível não ferrar tintureiras quando elas se colocam por debaixo do barco, à espera de …acção. Ou são as iscadas, ou são os peixes vivos que subimos que …sofrem com os seus dentes.


Uma pequena bica, que se lançou sobre um camarão. A tenya é uma técnica muito eficaz, que nos dá muito peixe, desde que saibamos como fazer. Os exemplares jovens devem ser restituídos à água. Este teve a sorte de ser pescado por alguém que não precisa de peixinhos pequenos, e …foi.


Os robalos têm um comprimento mínimo que deveria ser revisto. É obvio que 36 cm de robalo não são um robalo decente, são uma “promessa” de robalo, um protótipo de algo que um dia será um poderoso e forte robalo. À água, pois.


Quando prendemos peixes com fateixas, a nossa missão é mais difícil.


Frequentemente o peixe é cravado em mais do que um anzol, e isso implica muito cuidado da nossa parte em desferrar o exemplar se o objectivo for voltar a libertá-lo no mar. Devemos fazê-lo com a paciência necessária para não danificar a sua boca, sendo que ao mesmo tempo devemos ter presente que o peixe está sem respirar desde que chegou às nossas mãos. Mais que isso, debateu-se energicamente, com todas as suas forças, antes de chegar a nós, pelo que estará duplamente debilitado.
Devemos ser rápidos e precisos.

Alguns peixes, mesmo que os queiramos libertar, dificilmente irão sobreviver. As nossas garoupinhas, “Serranus cabrilla”, raramente sobrevivem, já que não conseguem compensar a sua bexiga natatória tão depressa quanto aquilo que as fazemos subir quando recolhemos linha. Também os meros sofrem imenso com isso, sendo correcto ter a bordo um estilete afiado, com o qual se perfura e esvazia este órgão.
Já aqui o fiz, mas volto à questão da bexiga natatória, para vos reavivar este assunto. Parece-me importante. Então o que é isso da bexiga natatória?


Os sacos de uma bexiga natatória.


É um órgão que serve aos peixes para que se mantenham estabilizados a uma determinada profundidade. Os peixes utilizam este reservatório, de paredes flevíveis, forrado a cristais de guanina, que tornam a bexiga impermeável aos gases, ao ar. É adicionando ar, mais ou menos ar, que os peixes controlam o seu posicionamento na coluna de água. De acordo com a pressão, assim este saco de ar contrai ou expande, e isso é feito de forma natural pelo peixe.
Os mergulhadores de garrafas utilizam este princípio técnico para evoluir na coluna de água. Ou estariam condenados a bater no fundo e não conseguirem voltar à superfície.
Quando ferramos o peixe e o puxamos muito rapidamente para cima, acontece que o animal não consegue compensar essa diferença de pressão, maior no fundo e muito menor à superfície, e fica “inchado”. É assim que vemos as garoupinhas, as abróteas, as fanecas, etc…inchadas.
Para quem pesca com carretos eléctricos, que recolhem linha muito depressa, a muitas dezenas de metros por minuto, é comum e muito frequente observar como alguns tipos de peixes trazem os olhos fora das órbitas, e a bexiga natatória a rebentar.
Esse peixe irá inevitavelmente morrer, dificilmente recupera. Quando os libertamos, os distúrbios causados por essa subida repentina, esse baro traumatismo de pressão acaba por matar o peixe de imediato, ou deixa-o diminuído e irá morrer a seguir.
Acontece a quem pesca abaixo dos 200 metros de fundo, que se capturem cantaris, os quais parece conseguirem resistir à diferença de pressão. Na verdade, não resistem, rebentam os seus orgãos interiores e acabam por morrer.
Se quisermos obviar a esse acidente, aquilo que está na nossa mão é puxar o peixe devagar, dando-lhe tempo para executar a compensação de pressão. Se fizermos pausas, aquilo que iremos ver é o aparecimento de bolhas de ar a chegar à superfície. Peixes mais fortes, com esqueleto ósseo mais duro, podem ser salvos se recorrermos a uma agulha hipo-dérmica, fazendo um pequeno furo na bexiga, esvaziando por compressão da mão um pouco do excesso do volume de ar que se encontra dentro, para que o animal consiga retornar às profundidades. A estrutura óssea resiste bem melhor que os tecidos moles, que rompem, ou deformam na presença de diferenças de pressão muito contrastantes. Por tecidos moles gostaria que entendessem o cérebro, a espinal-medula, os olhos, os órgãos do sistema vascular, fígado, etc.
Um peixe submetido a um “arrancamento” abrupto do seu meio ambiente, é um peixe condenado.
Mesmo que libertados, esses peixes nunca mais mais serão iguais. O seu organismo metabólico é alterado, o peixe perde o equilíbrio do corpo, e na maior parte dos casos não consegue sequer voltar a afundar.
Seguramente já tentaram libertar peixes que ficam a boiar, desgovernados, sem rumo. Queremos acreditar que não, mas as possibilidades são nulas.
Há no entanto algumas possibilidades de alguns exemplares retornarem à sua vida normal, desde que a questão baro-traumatismo não tenha sido suficientemente forte. Acontece quando pescamos a baixas profundidades.
Nesses casos, e sempre que pretendemos voltar a libertar, devemos fazê-lo com cuidado, e sabendo como fazer. Porque levo muita gente à pesca nos barcos GO Fishing, vejo frequentemente pessoas carregadas de boas intenções, mas a cometerem erros crassos.
Introduzir os dedos ou unhas dentro das guelras dos peixes será porventura o pior de todos. Também os peixes pequenos não devem ser apertados, espremidos. Estamos a rebentar-lhes os orgãos internos. Se os segurarmos pelo maxilar inferior, quase todos conseguem sobreviver. Dessa forma, não lhes estamos a retirar a mucosidade que cobre a pele e as escamas, tão preciosa para os proteger da entrada de doenças. O manuseamento deve ser feito com o peixe na horizontal, e com as mãos molhadas. Mãos secas, ou utilizando panos, retiram a protecção que o exemplar tem contra o aparecimento de doenças. Utilizar um alicate de contenção, firme e seguro na boca do peixe, pode deixá-lo doído por umas horas, mas fica a salvo assim que recuperar. Por vezes, mais vale cortar a linha perto do anzol, e deixar o peixe ir embora, que tentar, pese a boa vontade, fazer operações cirúrgicas que têm tudo para não dar certo. A maior parte das pessoas não tem a noção de “técnicas cirúrgicas” suficiente para desembaraçar o peixe do anzol, pelo que, acreditem, seria bem melhor mandar à água com o ferro. Os anzóis não resistem indefinidamente à corrosão da água do mar. São concebidos para isso, para que em caso de perda, não venham a matar o peixe. Algumas marcas garantem que ao fim de 5/ 6 dias já muitos desses anzóis apresentam níveis de corrosão muito acentuada. E ao fim de duas semanas, a maior parte deles já está de tal forma desgastada que acaba por partir e ir reduzindo o seu tamanho, até desaparecer.
Se há autores que advogam o corte o mais rente possível da linha, outros há que defendem o contrário, deixando cerca de 50 cm, para que o animal possa fazer a sua alimentação sem demasiados constrangimentos. Gostamos de pensar que os peixes que nos escapam poderão voltar a recuperar a sua vida normal. É isso que gostaríamos que acontecesse, é nisso que queremos acreditar. Penso ser importante deixar-vos aqui uma palavra de conforto relativamente a essa matéria: pesquisas realizadas pelo CEPTA/ IBAMA do Brasil demonstram que a maior parte dos peixes libertados, ou que escaparam a um pescador desportivo, voltam a alimentar-se normalmente ao início do dia seguinte. E isto independentemente de terem ficado com ou sem o anzol cravado na boca. Ao fim de seis dias, o local onde estava o anzol está completamente cicatrizado, sem marcas. Observou-se ainda que no local da ferida não foram detectados níveis de processos inflamatórios acrescidos, ou sequer a presença de fungos. A utilização de anzóis que enferrujam é um imperativo de todos nós, que não queremos, seguramente, pensar que o peixe que nos escapou nunca mais será capaz de se libertar daquele ferro. Há que ter pois a noção de que um anzol não deve ser eterno, e que aquilo que existe no mercado já é suficientemente bom, e não precisa de ter as características acrescidas de ser totalmente inox. É bom que enferrujem após alguns dias de contacto com salitres.


Este sarrajão, ficou-me cravado pela cabeça, sendo que achei ter ficado afectado numa zona provavelmente fatal. Não é este o tipo de peixes que devemos libertar.


À parte isto, ocorre-me dizer-vos que, no caso de pretenderem libertar peixes, devem tentar, sempre que possível, oxigená-los, dando-lhes alguns impulsos para trás e para a frente, de forma a que recuperem a sua capacidade respiratória. Passem-lhes água pelas guelras.
O ideal seria que ficassem um pouco à superfície, ainda antes de serem retirados da água para a foto para a posteridade. Não esqueçam que, por estranho que vos pareça, quando colocamos o peixe na vertical, para essa foto, já estamos a comprimir os seus órgãos internos numa posição em que o peixe nunca esteve...
Há países que têm hoje em dia um grau de desenvolvimento muito superior ao nosso, em questões de manutenção dos seus stocks de peixe. Fazemos muito pouco por isso. Cada peixe salvo é mais um peixe a ajudar para que tenhamos mais amanhã.
Nos Estados Unidos, onde a indústria da pesca lúdica movimenta algumas dezenas de biliões de dólares, (mais do que o valor que o Estado Português movimenta anualmente…!), eles levam muito a sério estes dados.
Segundo a Fish and Wildlife Service, existem cerrca de 35 milhões de americanos que pescam regularmente. A pesca é um desporto caro, e sobretudo ao nível a que os americanos o fazem. Têm peixe porque o preservam e tratam dele, criam condições para que exista.
Uma saída de barco custa, sem grandes condições, sem alimentação, com perdas de material de pesca a debitar ao pescador, cerca de 300 euros/ dia. As licenças de pesca pagam integralmente os custos de vigilância, para que não aconteçam abusos de capturas.

Em resumo, devemos ter em atenção que algum do peixe pescado vem connosco para casa, o restante deve ser tratado o melhor que pudermos, com dignidade, com a atenção merecida. São animais magníficos, que lutam muito para sobreviver, e que merecem todo o nosso respeito.



Vítor Ganchinho



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