Algumas variáveis que devemos considerar, quando saímos à pesca

Diz-se por vezes: “ Hoje não está mar para peixe”…

Muita gente tem do mar uma visão exterior/ interior, terra/ água e isso propicia um número infinito de erros, crenças e fantasias que quase sempre são infundadas. As pessoas não têm mesmo ideia daquilo que é o fundo do mar, do ambiente em que o peixe vive, e das condições que são necessárias e indispensáveis para que os peixes se fixem num determinado pesqueiro.
É muito corrente que se pense ”onde há água há peixe”, e isso é incorrer no primeiro dos erros. Na verdade, há zonas absolutamente desertas, sem vida, e que raramente assistem à passagem de um cardume de peixes.
Ou porque há excesso de pressão de pesca, profissional e amadora, ou pura e simplesmente porque o local em si não oferece condições de habitabilidade, leia-se quantidade de comida e segurança em níveis suficientes para justificar a presença continua de espécies.
E outras zonas existem, por oposição, em que a presença de peixe é recorrente, sistemática, e por isso, expectável. É aí que procuro levar as pessoas que me confiam um dia das suas vidas para sairmos a pescar. Faço-o com gosto, com o ânimo de quem gosta de conhecer pessoas, de lhes mostrar mundos que não conhecem. Mas pedem-me demais. Dificilmente haverá possibilidades de encontrar zonas virgens, nunca pescadas. Isso é um mito que convém esclarecer: existem pescadores profissionais que descem da Figueira da Foz para vir pescar a Setúbal, pescadores de Setúbal que vão ao Algarve, logo esqueçam a possibilidade de haver pesqueiros nunca pescados.
Há sim zonas com menos pressão de pesca, e quase sempre por exigirem deslocações longas, com consumos de combustível elevados. Pescar aí, é quase sempre muito melhor que pescar junto às cidades, onde toda a gente vai, todos os dias, todas as noites, a toda a hora, e que raramente têm um momento de sossego. Aquilo que me pedem é algo paradoxal: que faça saídas a zonas menos pescadas, (logo bastante longe das cidades, com consumos de combustível substancialmente mais elevados), que garantam peixe de elevada qualidade, com peso, com idade, de espécies nobres. Querem trazer para casa muito peixe, para assim justificar o investimento feito numa saída. Acresce que eu, (que por acaso prefiro pescar sozinho, ou no máximo com uma pessoa ao lado, porque controlo muito melhor as variantes daquilo que se está a passar, não faço ruídos, respeito os tempos de descanso dos peixes, não passo mais de duas a três vezes sobre esta ou aquela pedra, liberto peixes de tamanho inferior, faço uma gestão rigorosa da quantidade de visitas mensais a cada pedra, etc), vejo-me quase que forçado a ter de levar uma “ranchada de gente”, porque uma só pessoa não tem capacidade financeira para pagar todas as despesas que acarreta uma saída a um desses lugares. Porque para além de tudo, ainda me pedem, já agora, que seja barato. Vão muitos para que a cada um fique mais barato. Mas muitos estragam a pesca a todos e ninguém na verdade faz grande coisa. Na verdade não fazem nada. Insistem comigo para que os leve a sítios milagrosos, que tenham peixes enormes, fáceis, e que lhes saltem para o colo à chegada. Não tenho disso, nem ninguém tem.
Isso não existe e não imaginam a pressão que se sofre para que eu lhes diga que sim, que é possível. Não há milagres, não há truques de magia, não há coelhos para tirar de uma cartola quase vazia, onde toda a gente pesca e ninguém põe lá peixe.
Hoje em dia o peixe está cada vez mais caro, e mais que isso, as experiências de pesca ímpares, os dias incríveis, não podem ser banalizados ao ponto de terem de acontecer todos os dias. Porque na verdade não os têm quando fazem pesca vertical, pesca comum, em que raramente conseguem um dia de excepção.
Há é técnicas que permitem fazer, utilizando métodos diferentes, capturas um pouco mais significativas onde as outras técnicas regularmente utilizadas, tradicionais, já não conseguem fazer nada. Mas os equipamentos são caros, e quando alguém, que de pesca sabe o que eu sei de construir foguetões, parte uma cana, por não saber manobrar com ela, encolhe os ombros e diz que “eu” tive azar….eu o dono da cana, eu a pessoa que pagou 700 euros por ela. A cana que permite pescar da forma que possibilita os resultados. E que por azar meu, …partiu, nas mãos de um “zarolho” que normalmente pesca com canas de 12 euros.




Pessoas que pescam em duas horas três ou quatro pargos de 3 kgs perguntam-me se ali não há maiores, se não se arranja um lugar onde possam pescar ainda maiores. Por vezes há que lembrar-lhes que há limitações legais que são um óbice a que continuem a tentar pescar mais, com morte. E poucos assumem a necessidade de lançar ao mar os peixes que excedem as quotas legais.
Solução: reduzir o número de visitas, tornar as saídas a determinadas zonas mais raras, de forma a deixar fixar peixe, permitir que o equilíbrio ecológico se restabeleça de umas semanas para as outras, e reservar para quem efectivamente sabe valorizar o que está a acontecer nessas saídas.
Isso faz-se subindo preços a níveis que sejam incomportáveis para quem ainda hesita entre a vulgar saída de pesca em traineira, a 20 euros, inócua em termos de capturas, e uma saída de pesca diferenciada, por 120 - 200 euros/ pessoa, com resultados tão garantidos quanto aquilo que a natureza deixa garantir.
Tendo começado este artigo em jeito de justificação para explicar a recusa, cada vez maior, em aceitar levar pessoas nacionais a pescar, pelas razões apontadas, não queria no entanto deixar de dar algumas informações que podem ser úteis a quem pretende obter resultados diferentes dos comuns.
É minha opinião que não é possível conseguir pescar a bordo de uma traineira, ou mesmo de um barco MT dedicado em exclusivo à pesca vertical, com um método diferente daquele que é utilizado por todos os outros elementos do grupo. Não é possível fazer jigging num barco onde todos os restantes elementos se dedicam a pescar vertical, ao pica-pica, com chumbadas ao fundo. Não é possível fazer jigging num barco de 20 pescadores, mesmo que todos pesquem jigging. Tudo tem o seu método, as suas especificidades, e requer condições óptimas para que funcione. A ideia de “irmos muitos para ser mais barato” não resulta de todo, e por isso quem não pode não vai. A pesca a sério é um desporto caro.
A pesca selectiva, a grandes exemplares, não se faz num barco de pesca onde o ambiente é de Carnaval do Rio, onde todos sambam e batem tachos e tampas. Os grandes peixes são mais espertos que os peixes jovens, imaturos. Por isso chegaram a velhos. A pesca a grandes peixes, ou mesmo a peixes de qualidade, pargos, robalos, douradas, com artificiais, faz-se utilizando do maior sigilo, a maior discrição, e tentando peixes que já passaram seguramente por experiências parecidas com aquela que estão a viver naquele momento. Nas condições ideais, na hora certa da maré, na hora certa do dia, com a visibilidade certa, com a corrente certa, por vezes é possível conseguir resultados de excelência. E as pessoas querem humanizar os horários dos peixes, querem impor as suas regras, querem obrigar os peixes a comer quando lhes dá jeito, de acordo com as suas conveniências. A natureza ri-se daquilo que nos é mais conveniente!...




Muitas vezes os peixes estão no pesqueiro, mas porque já comeram, não precisam de o fazer de novo, pelo menos naquele momento. A multiplicidade de factores que influencia a tomada de decisão de morder ou não um isco ou amostra é tanta que apenas uma reduzida franja de pessoas consegue dominar uma parte significativa das variáveis. Vejamos algumas, sem critério de ordenamento por prioridades. Como habitualmente, dou-vos pistas para que possam fazer o vosso próprio raciocínio. Incomoda-me a ideia de dizer tudo, não deixando a cada um a possibilidade de ser crítico, de ajustar à sua realidade cada uma destas minhas ideias.

A qualidade da água: não é indiferente a temperatura da água. Os peixes são animais de sangue frio, e por isso apresentam uma temperatura corporal muito próxima, ou igual à temperatura da água que os rodeia. Algumas espécies, por exemplo os atuns, elevam o nível de temperatura corporal alguns graus acima do meio circundante, mas pagam uma factura elevada por isso, sendo forçados a ingerir uma maior quantidade de comida, adoptando um estilo de natação contínuo, etc. Mas na sua generalidade, se a água está fria, os peixes estão frios. E isso é desde logo um problema. As funções vitais dos peixes ficam condicionadas pelas condições do meio em que habitam. Com águas muito frias, invernais, é frequente a redução do metabolismo basal, o peixe resguarda-se, não tem muita actividade, poupa as suas reservas de gordura. Na Primavera e Verão, as condições de mar alteram, e há que recuperar peso e energia. Há uma superior procura de alimento, e isso são boas notícias para quem anda no mar com uma cana na mão.




Se há uma faixa de tolerância de altas ou baixas temperaturas, em que parece ser a temperatura algo de inócuo, ela ocorre muitas vezes apenas durante um período curto, no qual o peixe não chega a ter um estímulo exterior suficientemente duradouro para se obrigar a reduzir a actividade, ou a aumentar exponencialmente essa actividade. Já entenderam que dependendo da quantidade de dias em que temos uma nortada que gele as águas, ou um vento sul que as aqueça, podemos ter peixe mais ou menos disposto a morder as nossas amostras. Também não é indiferente o tipo de espécie que procuramos. Há alguns tipos de peixes que “navegam” bem em águas frias, e outros, por oposição, que apenas aceitam ter uma actividade regular em águas quentes. Falamos de faixas de conforto térmico. É a existência regular de águas adequadas à espécie em questão que determina o seu nível de alimentação, de crescimento, de reprodução e deslocação entre pesqueiros. Para cada espécie há um padrão de condições óptimas. E já entenderam que isso influencia a existência de outras espécies, ….se não temos condições para ter cavalas, não temos no pesqueiro quem come as cavalas, certo?!
Também a quantidade de oxigénio dissolvido na água influencia, e muito, a actividade dos nossos peixes. Se houve ou não uma borrasca em dias anteriores, …isso não é indiferente em termos de actividade. Existem espécies que são mais exigentes que outras. Falei-vos há alguns meses atrás de um cliente da GO Fishing que lançou uma amostra no “Pulo do Lobo” , Guadiana, perto de Mértola, a dezenas de quilómetros da foz, e pescou um… robalo. Isto aconteceu no Verão, numa altura em que as águas estão muito quentes e por isso com menos oxigénio dissolvido. Outras espécies nunca poderiam estar ali, naquele local.
Temos muitas espécies que toleram pouquíssimo a ausência de níveis confortáveis de oxigénio. E para nós, parece indiferente se a massa de água onde pescamos tem maior ou menor nível de oxigénio. Ou se tem mais ou menos quantidade de água doce, se o Tejo e o Sado viram os seus caudais empurrados para sul, e encheram a baía onde pescamos de água com mais sedimentos do que o habitual. Para nós é-nos indiferente, mas eu sei de uns bichinhos para quem isso não é de facto indiferente. Os peixes! A concentração de oxigênio dissolvido na água é sempre diretamente proporcional à pressão atmosférica, ou seja, maior pressão mais oxigênio. No caso da temperatura, a relação é inversamente proporcional, ou seja, quanto mais elevada a temperatura menor a concentração de oxigênio na água. Se as taxas de oxigénio são inferiores, estes grandes sobreviventes que são os nossos peixes de mar deixam de se alimentar regularmente, e nós sentimos isso na ponta das nossas linhas. Sabendo que a presença do oxigénio é um elemento fundamental na regularização do metabolismo dos peixes, é incrível como as pessoas desvalorizam esse dado, e muitos outros, quando planeiam as suas saídas de pesca. O mar está parado, tem muito sedimento, está menos oxigenado, a temperatura está muito alta, a pressão atmosférica é baixa, ou a pressão atmosférica é muito alta, mas quem é que quer saber disso?! Nós queremos mesmo são peixes aos pulos, alegres e contentes, em grande azáfama de alimentação. Desde que chegamos até que decidimos vir embora, queremos peixes de boca aberta a comer tudo o que lhes lançamos.




Nós não sabemos da missa nem a metade. Um dia, haverá quem consiga relacionar a pesca a efeitos como o PH da água, condutividade eléctrica, nutrientes, (nitrogénio, carbono, fósforo, oxigénio, azoto) etc. Sabemos que a pressão atmosférica e a temperatura influenciam decisivamente o teor de oxigénio na água, e por isso o comportamento dos peixes. Mas não queremos saber disso no dia que escolhemos para ir à pesca. Nesse dia, isso não vale. Se pagamos para ir pescar, nenhum factor conta verdadeiramente, que não seja o facto de termos de regressar a casa com uma geleira cheia de peixe. Porque pagámos a saída. Mesmo que estejamos a pagar apenas parte do valor do combustível gasto, e que é apenas parte das despesas fixas de uma embarcação. Na verdade, estabelecemos uma relação directa entre o valor pago e a quantidade de peixe que exigimos pescar. Queremos ir, pagar apenas parte das despesas fixas e esquecemos os milhares de horas que a pessoa que está à nossa frente levou a olhar para o mar. Esquecemos os milhares de euros gastos em barcos, motores e combustível para adquirir experiência.
E essa pessoa, que considera todos estes factores, que sabe um pouco mais de pesca, que a pensa nas suas inúmeras variantes, e que até sabe que hoje não é o dia de encher as caixas, (por esta ou aquela razão), é obrigada a …inventar soluções. A ser Jesus Cristo.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Boa tarde Vitor,

    Mais um excelente artigo a provar que na Natureza, nada acontece ao acaso.

    Abraço,

    A. duarte

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    1. Boa tarde António Não sei se conseguiu fazer alguma coisa no fim de semana passado, mas acredito que sim, o peixe estava " desvairado"!! Do grupo que levei, uma das pessoas fez um robalo com 5 kgs e outro um com 6 kgs. Os jigs de 20 gr a fazer das suas....
      Vou passar-lhe as fotos por e-mail.


      Abraço
      Vitor

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    2. Boa tarde Vitor,

      Envie-me por favor as fotos desses dois bichos, assim ainda vou lavando as vistas! :-)

      Eu, este fim de semana foi uma desgraça completa! Safou-se o exercício que fiz com a nova cana que adquiri na Go Fishing.

      Gostei da cana, trabalha bem os jigs de 40gr até 60gr (não testei com mais gramagem), com menos peso (20 e 30gr), torna-se uma cana muito "rápida" e com a brincadeira lá apanhei umas cavalas.

      Foi dado o primeiro passo...

      Ando a tentar converter alguns amigos para esta modalidade, no sábado quando nos cruzamos no sitio habitual, estava precisamente nesse momento, a falar com o pessoal acerca desta vertente.

      Abraço,
      A. Duarte

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    3. Bom dia Antonio Vai ver que lhe apanha o jeito. É só uma questão de prática e ritmo. Quando tiver um peixe grande na ponta da linha vai querer que a cana não fique elástica de mais. Aquilo que os fabricantes designam por "bending rod"...
      O que precisa mesmo é de peixe por baixo e de conseguir cravar uns matulões. Eles andam aí, há peixe com fartura.
      Nós no sábado fizemos uns peixes bonitos, sendo que os dois robalos, de 5 e 6 kgs foram o melhor que entrou. Essa cana vai permitir-lhe tentar outras cotas, mais fundas, até aos 80/90 mts está á vontade para lançar os seus jigs.
      Vou sair amanhã, e domingo.

      A minha mulher diz que os cães ladram-me quando chego a casa, ...provavelmente não me conhecem....

      Abraço!
      Vitor

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    4. Bom dia Vitor,

      Você está feito num verdadeiro lobo do mar!

      Tenho que praticar, tenho que fazer saídas de pesca só com intuito de fazer jigging.
      tenho que passar na Go Fishing para adquirir uns jigs com mais gramagem (60gr / 80gr).

      Abraço!
      A. Duarte

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    5. Bom dia Antonio Antes de comprar seja o que for, tente entender se efectivamente precisa de comprar, e caso chegue a essa conclusão então vá directo apenas ao que lhe faz falta. O critério a seguir deve (pode) ser o seguinte:
      1- Temos na nossa zona águas que podem estar tapadas, ( água do Sado e Tejo, a ser empurrada pelo noroeste, o vento predominante) ou podem estar limpas.
      2- Para águas tapadas, pense em jigs mais... "flash", mais brilhantes, "metalizados",
      a puxar para os brancos, laranjas, eventualmente um tipo de tons mais coloridos. O objectivo é dar um ponto de referência ao peixe para que não perca o jig de vista numa fracção de segundo. Há artigos escritos sobre isso.
      3- Para águas muito limpas, azuis, ( quando nos sopra vento de terra, ou mesmo sul forte, que retém a água do rio, que não a deixa descer), as cores já não são as mesmas. Aí, o que resulta bem é cores muito discretas, naturais, a cor natural dos peixes, mais uns verdes, uns azuis muito próximos da sardinha. Não esqueça que nós temos aqui muita comedia à saída do rio, cavala, sardinha, carapau, e essas são as cores que o peixe conhece.

      Sobre a questão do peso: Pode utilizar jigs planos e curtos, ou jigs longos e afiados. Para as nossas águas, que por vezes correm bastante, pode ter de utilizar estes últimos. Veja os da Cultiva, as agulhas de 60 gr, ou 65 gr. Não tente fazer com mais peso aquilo que pode fazer com a forma do jig. Um jig de 65 gr afilado desce mais rápido que um jig de 100 gr curto e plano.

      Em caso de dúvida, tem o meu número de telemóvel. Só não o publico no blog , porque passo a ter chamadas às 3 da manhã, a perguntar se tenho minhocas para venda....

      Abraço
      Vitor

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