À PESCA COM... UM DRONE

Saímos cedo de Setúbal, pelas 7.00h da manhã, com o sol a raiar e um dia a prometer muito calor. Viriam a estar cerca de 38ºC nesse dia.
Um casal da Letónia veio a Portugal com um objectivo muito claro: pescar um peixe bonito e fazer a filmagem dessa captura com um drone.
Especialista em filmagens com drones no seu país, o meu convidado Maris Putns trouxe a sua simpática esposa, Sanita Putns (ups!), com ele e a intenção era mesmo algo de vistoso.
O mês de Agosto trouxe-nos águas muito verdes, cheias de fitoplâncton, que vieram dificultar a vida de quem pretendia apresentar uma captura de um peixe interessante, ….mas filmada em directo.
Se pensarmos bem, não são muitos os peixes que nos permitem conciliar todas as variáveis a considerar quando queremos ter um drone no ar e filmar a captura no seu instante inicial.
Se tentarmos um robalo grande, uma dourada, …dificilmente conseguiremos prever o exacto momento da sua picada. Eu consegui-o há uns meses, num trabalho que fiz para a RTP, com um robalo de 2 kgs. Mas tinha muitas certezas sobre a presença de um cardume de robalos na zona e estava a vê-los na sonda. Não foi uma surpresa, até porque já tinha pescado uns quantos desse cardume em dias anteriores.
Neste momento, esses peixes estão a caçar separados, espalhados pela costa e isso torna mais difícil prever as suas picadas. E o drone não pode estar o tempo todo a filmar no ar, as baterias têm uma duração limitada.

Lembrei-me de uma tintureira. Filmar um tubarão azul em Agosto, quando o tentamos a uma profundidade significativa, à primeira vista terá ainda mais de aleatório, já que aparecem quando aparecem, e não avisam previamente.
Se estivermos em Fevereiro, Março, mesmo Abril, não tem uma dificuldade acrescida, mas em Agosto, quando os poucos peixes que ficaram por cá estão dispersos, e sem locais muito definidos, levanta algumas interrogações.
A alternativa era chamar o peixe à superfície, mantê-lo perto do barco, interessado em comer a isca, e então sim, preparar o drone. E foi isso que fizemos.


Este foi o drone utilizado, uma versão profissional, que, por ser dispendioso, obrigou a um cuidado acrescido.


O calor não afecta grandemente a máquina, até porque no mar não estariam mais de 23ºC, mas o vento que se fazia sentir poderia ser-nos prejudicial.
Nestes dias de canícula, a meio de Agosto, os tubarões azuis costumam vir à superfície, expor o corpo aos raios solares. A razão não terá tanto a ver com a temperatura da água, na circunstância a 19.5 ºC, mas sim com o facto de os dias ensolarados permitirem que os bichos se libertem de parasitas.
Os espadartes fazem o mesmo. Quando expostos aos raios solares, os parasitas saltam e isso agrada sobremaneira aos forçados “senhorios” de tão incómodos inquilinos.
Não é difícil a quem vai atento conseguir vislumbrar as barbatanas dorsais dos tubarões à superfície.
Mas nessas circunstâncias muito dificilmente se consegue uma picada, porque o ruído do motor assusta os animais e faz com que retornem às profundidades onde se sentem seguros.


Mar calmo, a prometer um dia de navegação fácil.


Chegados ao local, havia um pouco de corrente. Não ajuda em nada quando se pretende concentrar troços de sardinha num ponto. Mas por outro lado, permite fazer uma “estrada” que os eventuais tubarões poderiam seguir, até chegarem a nós. E foi isso que aconteceu. A dada altura, a uns 150 metros, uma barbatana dorsal triangular irrompeu à superfície, na direcção para onde estavam a ser levados os pedaços de sardinha.
Bingo! Agora bastava reduzir o envio de sardinha, torná-lo mais espaçado, mantendo ainda assim o bicho na nossa direcção. E conseguimos fazer isso, enquanto Maris Putns fazia descolar a sua aeronave não tripulada.
Para mim, a parte mais difícil estava feita, tínhamos contacto, embora para eles faltasse fazer o mais complicado: obter a picada do peixe.


Uma consola minúscula, pequena como um telemóvel, era o suficiente para manter o aparelho no ar, e  ao mesmo tempo a visualizar a imagem que estava  a ser obtida. A tecnologia no seu melhor.


Não é complicado fazer morder um tubarão. Diria mesmo que é mais difícil fazer o contrário: não o deixar atacar a nossa isca.
E daí a poucos minutos, ele aí estava, a levar uma centena de metros de linha. Não que o comprimento do pobre bicho fosse de molde a isso, não era grande, mas porque eu deixei a embraiagem do meu Daiwa Saltiga ligeiramente aberta de mais... para fazer “render o peixe”. E dar tempo a que o Maris conseguisse estabilizar a imagem no ar. Uma ligeira brisa não dava facilidades, mas o resultado final foi aceitável.

Passo-vos algumas imagens para que tenham uma ideia:




A simpática senhora, vinda da Letónia sem grandes esperanças de conseguir algo de vistoso, estava nervosa e sobre excitada com a possibilidade de conseguir um peixe que, no caso dela, era o peixe de uma vida.
O normal é que pesquem lúcios, carpas, bremas, e pouco mais. Esta esta era mesmo a sua grande oportunidade. E conseguimos. Ao fim de uns minutos, a pobre tintureira estava rendida à cana Alpha Tackle específica para este tipo de trabalho pesado. Para darem luta a sério, têm de ultrapassar os 2 metros e calhar com alguém que tenha algum receio de puxar a sério. Com canas Alpha Tackle, pode fazer-se mesmo força sem receio de partir, são fabricadas para isso.


A operação de retirar o anzol deve ser tão rápida quanto possível.


Nestes casos, há duas preocupações que são prioritárias: garantir que o animal sofre o mínimo possível e que as fotos da praxe saem bem à primeira. Todos os segundos são importantes, até porque estamos a manusear um animal que está em apneia, que acabou por sofrer um esgotamento de forças, (ou não entraria no barco…) e que queremos libertar nas melhores condições possíveis. E conseguimos isso. Por sinal fizemos um pouco mais: esta tintureira tinha um outro anzol, de um aparelho para robalos, muito habitual na ponta do Espichel. Um metro de linha estava pendido de um anzol cravado a um canto da boca. Aproveitámos a oportunidade para o retirar e com isso, algo terá melhorado na vida deste magnifico animal. Foi feita a oxigenação devida. É importante que se libertem os tubarões azuis, mas mais importante ainda que se consiga garantir que isso é feito nas devidas condições.
E neste caso, isso aconteceu.

Bem mais complicado foi fazer descer o drone. Trata-se de um aparelho profissional, de elevado custo monetário, com uma série de protecções internas contra acidentes. Uma dessas protecções tem a ver com a aterragem em locais com vegetação, ou com obstáculos que possam eventualmente danificar as alhetas dos hélices. E por isso, o drone não descia. Era pressuposto ser “capturado” no ar, já que o espaço a bordo não era muito, e isso esteve por diversas vezes quase a acontecer.
A quantidade de objectos que temos num barco que se assemelham a obstáculos é muito maior do que nos parece. Desde logo a consola, mas também as canas, que dispomos na vertical, e as pessoas, que obviamente também pressupõem uma posição vertical.
Não tinha pensado no assunto, antes.
Assim sendo, a nossa amiga letã, habituada a realizar esta operação de resgate do drone para o marido, tentou pegar na máquina, por baixo, evitando os objectos circundantes.
E por várias vezes conseguimos as condições de vento ideais, mas viríamos a consegui-lo apenas ao fim de alguns minutos. Não sem que uma das alhetas não tivesse feito das suas: por toque inadvertido com a mão, provocou um lanho num dos dedos.


A operação de resgate do drone, bem mais complexa do que se previa.


O corte era razoavelmente profundo, e implicou um curativo, feito por mim, com os meios que tinha a bordo. A primeira operação a fazer era mesmo a de uma limpeza cuidada da ferida, que sangrava abundantemente. E para isso, pareceu à infeliz que nada melhor que uma lavagem em água do mar. Estava a meio da lavagem quando pregou um grito estridente e retirou as mãos da água. De repente lembrou-se que estava a lavar a mão sangrenta num local de onde tinha acabado de tirar um tubarão. É o subconsciente a funcionar.
Procurei tranquilizá-la:

_ Sem problema menina. Você sabe perfeitamente que no mar de Portugal não existem tubarões...

Senti-lhe um respirar profundo e um sentimento de alívio momentâneo, de dois segundos, pelas minhas palavras calmas. Mas que obviamente apenas tinham essa finalidade, afinal de contas, onde estava um tubarão, poderia perfeitamente haver outro.
Não deixou de olhar mais duas vezes para baixo, pelo canto do olho, para se certificar que não estava lá nenhuma sombra azulada.
Tempo para estancar a saída de sangue e fazer um penso reconfortante. Há muito optei por uma solução que me deixa liberto de constrangimentos perante a Polícia Marítima: tenho um kit completo, sempre actualizado em termos de datas de validade, quantidades, etc, que é o que mostro em caso de fiscalização. E tenho outro, paralelo, que utilizo para fazer uma desinfecção com Betadine, uma aplicação de gaze, de um penso rápido. Digamos que um é para mostrar, outro é para utilizar.
E o sistema funciona bem.



Vítor Ganchinho



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