COMO É FEITA UMA PONTEIRA DE ALTA QUALIDADE?

Dou-vos uma notícia em primeira mão, que nem é agradável: o ano que vem, 2022, não vai ser ainda o ano em que irão ocorrer as grandes feiras de material de pesca no Japão.
De facto, o certame de Osaka foi cancelado há dias, devido ao Covid 19, e à necessidade do governo japonês contar com o espaço onde decorreria a feira, para instalar um hospital de campanha para vacinação.
Lembro que, à data de hoje, menos de 50% do povo japonês tem as duas doses de vacina tomadas. Portugal está, ao preciso momento em quem escrevo, a chegar perto dos 85%...
Também Yokohama, uma alternativa possível, acaba por, não tendo certezas quanto ao desenrolar da pandemia naquele país, cancelar a exibição, tendo-se decidido por uma feira virtual, em que cada produtor irá mostrar on-line os seus novos produtos. Isto significa que não vai ser ainda este ano que teremos a prometida “enchente” de produtos novos, a sair dos fornos de marcas como a Daiwa, a Shimano, a Smith, etc.
É um atraso considerável na apresentação e divulgação de muita coisa que está neste momento pronta para ser mostrada. São dois anos de atraso, concretamente.


Assistir ao vivo à construção de uma cana de pesca em bambu, é todo um privilégio!...estes artesãos fazem-no por encomenda e têm sempre mais encomendas que tempo para as construir. São canas para terem valores de mercado na ordem dos 1500 euros. 


Algumas canas expostas, cada uma com a sua finalidade. Isto é trabalho artesanal, feito à mão, para quem gosta de ter peças exclusivas.


Enquanto isso durar, parece-me pertinente voltar um pouco atrás e ver detalhes de equipamentos que, não sendo novos no Japão, (vi-os lá há uns 3 anos e aí sim, eram novidade), em Portugal são pouco ou nada conhecidos.
Vamos tentar ajudar. Quem compra canas, e não tem a limitação de um orçamento demasiado exíguo, quer saber o que há de novo, o que existe com qualidade acrescida. É por aí que vamos hoje.
Na sequência de outros artigos técnicos que já aqui apresentei, parece-me oportuno dar uma vista de olhos por um dos elementos mais analisados por quem adquire uma vara de pesca: a ponteira.
Tínhamos visto, aquando da apresentação da cana Daiwa Shot Viper M- 225-SMT que a ponteira é uma demonstração da força criativa da marca. A sua insaciável procura pela excelência, pela alta tecnologia, leva esta marca a limites que muitos de nós nem suspeitam que já foram ultrapassados. Já lá estamos, mas as pessoas não sabem. Quem visita uma loja de pesca e analisa as ponteiras dobrando a ponta e olhando ao preço afixado na etiqueta, tem hoje, aqui, alguns dados para fazer um pouco mais que isso.

Venha daí ao incrível mundo da construção de uma ponteira de cana …topo de gama!




A tecnologia é a SMT, Super Metal Top. E que quer isto dizer?
Trata-se de tecnologia Daiwa, que usa um material de liga de titânio super-elástico para a ponta da haste, a dita “ponteira”. Em rigor, quando falamos em titânio, trata-se do mesmo produto que utilizamos correntemente nas hastes dos nossos óculos de leitura.
Pese embora sejam flexíveis, têm uma capacidade de restauração da forma inicial extremamente alta. Falamos de aumentar a sensibilidade da nossa cana de pesca, através de um produto de nova geração, de alta tecnologia.
Voltemos atrás, ao tempo em que as nossas canas eram feitas em cana de bambu, ou algo similar. A tendência era cortar as canas com o comprimento máximo, tão direitas quanto possível, aproveitando até ao limite a ponta, a zona mais sensível.
A busca da cana ideal era feita no sentido da flexibilidade da ponteira.
A seguir, evoluímos para a haste em fibra de vidro, mais leve, mais sensível. Recordo-me bem das canas de fibra de vidro, com o comprimento exacto de 1 braça, as canas que toda a gente tinha em Setúbal e arredores. E aqui, chegamos a um impasse! Temos que uma braça pode ser uma medida antiga de comprimento que equivale a 2,20 mts lineares, medida ainda usada e entendida por trabalhadores rurais. Esta medida, quando replicada 3000 vezes significa uma légua, outra medida estranha para nós. Mas o termo “braça” é também uma tradução do inglês fathom, uma unidade de medida do império britânico, que corresponde a 6 pés, ou 72 polegadas, (1.8288 metros) e é ainda hoje utilizada como medida de profundidades marítimas. Os nossos marinheiros ainda as utilizam. Ainda há a bordo das nossas traineiras cartas marítimas em braças! As canas de fibra de vidro de Setúbal a que me refiro tinham esta medida: 1.82 mts, e eram aquilo que havia, logo era com elas que se pescava. E bem. Recordo-me que as ponteiras teriam à época à volta de 3mm de diâmetro na ponta. Toneladas de peixe foram pescadas com elas, e não era por aí que não se saía ao mar. Verdade que o peixe estava menos pescado. Sobretudo tinha maior tamanho, e havia menos pescadores a tentá-lo.
Mas a evolução não parou por aqui. Se a fibra de vidro já era algo de bom, quando surgem as primeiras canas de carbono, passamos a um outro patamar: a leveza junto com a rigidez. Já não estávamos na era da fibra de vidro, que era pesado e algo mole. O salto estava dado para algo muito mais leve e reactivo.
A passagem para o carbono resolveu problemas, porque se trata de um material que transmite vibrações à mão com facilidade. Mas ainda assim, como produto, carece de maleabilidade. Porque apresenta características de rigidez absoluta, o peixe, ao morder a isca detectava que havia algo de errado, algo estava preso, sentia desconforto e largava a isca com facilidade. Por outras palavras, …desconfiava! E se um peixe desconfia de algo relacionado com a isca que tem na boca, cospe aquilo que mordeu. Para nós era algo de muito decepcionante, porque havia um contacto, uma primeira abordagem, mas que abortava e não se concretizava em picada firme e decidida. Com uma ponteira de cana flexível, o tempo que o peixe nos dá para reagirmos, com a isca na boca, é bastante superior. E mais tempo significa mais possibilidades de êxito para nós pescadores.
Em suma, o carbono é muito bom, em termos de rigidez e leveza, mas ficava então por resolver a questão da ponteira. A fibra de vidro era melhor, por mais sensível. Precisávamos de mais sensibilidade! Se a conseguíssemos, teríamos mais possibilidades de sucesso.
O carbono continua hoje a ser hoje o mainstream, a corrente forte que corre imparável para o mar. As empresas competem pela produção dos melhores produtos, baseadas neste producto, o carbono, que veio revolucionar a pesca como a conhecíamos. Hoje a competição é pela leveza e pela força.
Mas continuamos, ou se quiserem necessitamos cada vez de ponteiras sensíveis, e isso não se coaduna com ponteiras fortes, em carbono simples, muito rígido.
Queremos mais que isso. E é daí que surgem as canas construídas por diversos elementos, em que a fibra de vidro também entra. Voltámos atrás, ao tempo da fibra de vidro.


O mundo da construção de canas é algo que movimenta muitos milhões de euros.


Hoje em dia, uma cana pode ser constituída por 3 diferentes secções, cada uma no seu comprimento e diâmetro específicos. A ponteira é importante e queremo-la com características impossíveis de conciliar num só produto: flexível, macia, rígida, rápida, leve e sensível. Queremos tudo….
Já tínhamos a fibra de vidro, muito flexível, mas apenas era conveniente para os nossos olhos, todavia pouco eficiente aquando da ferragem. Detectávamos os toques, mas ferrávamos mal! E para além disso, aquilo que a fibra de vidro transmitia à mão era pouco….ressonante, transmitia pouco ao pescador. Ter uma cana totalmente constituída de fibra de vidro era ter um elástico mole, pouco tenso, que não vibrava de todo. E pendia, fazia o “bending” que tanto odiamos. Daí a necessidade de serem grossas, para se manterem direitas e de serem curtas, para não “pingarem”. Precisávamos de outro material nas ponteiras. A introdução de uma liga super elástica de metal, o titânio, na ponta da nossa haste, veio dar-nos isso.


Por ser um material metálico altamente elástico, vibráctil, é forte e resistente a traumas, a deformações, mas quando deixa de ser flexionado retorna ao seu estado inicial muito rapidamente.


Mesmo com picadas muito suaves, passámos a ter informação de que não dispúnhamos. E mais: esta liga tem também o poder de amplificar as vibrações, um exclusivo do metal, e por isso mesmo, entrega-nos nas mãos algo que até aí apenas tínhamos nos nossos olhos: a picada do peixe.
Passámos a ter dois factores de análise: aquilo que os nossos olhos nos transmitem, detectando a picada pelo movimento da ponteira, e ao mesmo tempo passámos a sentir a vibração da cana na nossa mão e antebraço. A cana entrega-nos o peixe de ….”mão beijada”….
Na verdade, este poder de amplificação da vibração, leia-se picada, de que vos falo é extremamente importante. Consideremos que estamos a pescar com uma cana com 2,70 mts. (Ninguém precisa de ter canas de 3,5 mts hoje em dia, porque pode fazer tudo igual ou melhor, com uma cana mais curta).
Esta cana de 2,70 mts terá o seu porta carretos a 40/50 cm da base. O que quer dizer que aquilo que é detectado pela ponteira, ou seja os movimentos que o peixe imprime desse lado da cana, têm de viajar até à nossa mão, e nosso braço, durante um espaço superior a 2 metros. Ao longo da cana, a vibração é atenuada, absorvida. Para que consigamos ter o sinal de picada vivo, e transmitido por tanto tempo quanto possível, teremos de garantir que há dentro da nossa cana algo que não lhe permita a total degradação, até o detectarmos na palma da nossa mão. Faz sentido.
E esse potenciador de amplificação de vibração ajuda-nos imenso. Tornou-se possível passar a ter ao mesmo tempo dois sinais, e entender facilmente o primeiro momento, aquele em que o peixe se encosta à isca e dá o primeiro belisco.


O lançamento de uma nova tecnologia motiva pessoas a viajar de todo o mundo para ir ver em primeira mão.


Eu, que pescava vertical com uma cana de 3,60 mts, com chumbadas de 180 gr, passei a utilizar uma cana de 2,60 mts e chumbadas de 100 gr. E fiquei muito mais eficaz, mais rápido a reagir. Passei a pescar mais peixe, por ser capaz de detectar muito mais rapidamente os toques. E essa vantagem de tempo deu-me margem para me preparar para a ferragem. Manobrar uma cana mais curta, leve, não é igual a fazê-lo com uma cana comprida, mais pesada. Também a redução do diâmetro da linha trouxe a possibilidade aplicar menos chumbo, mesmo em dias de fortes correstes. E sobretudo fiquei mais rápido!
Quando a isso consegui adicionar o SMT, passei a pescar sem estar demasiado fixo na ponteira. Há mais informação para além dessa, e informação boa. A ressonância que o peixe faz na cana, que a transmite à mão é, em termos de sinal, bastante interessante. É ter o melhor de dois mundos.


Aqui podemos ver a diferença de manutenção do tempo de vibração, entre vários tipos de material, grafite, fibra de vidro, titânio. O titânio é o assinalado a vermelho.


Falta-nos apenas ver de que forma se constrói a ponteira, como é feita a conexão do titânio. Concretamente, ele é integrado envolvendo uma folha especial feita pela laminação de uma folha de carbono e uma folha de fibra de vidro. A espessura da folha é de cerca de 0,025 mm.
A folha é enrolada em metal e então polida. O ângulo de enrolamento (conicidade) é alterado em função da tipologia da cana, ou seja, da finalidade da pesca. E é isto que me encanta quando falo sobre materiais Daiwa: eles são muito bons! De repente, passam a ser capazes de produzir ponteiras ultrafinas neste composto, e colocam-nas em canas para quase tudo. Se as primeiras canas que tive foram canas para Kogha e Tenya, a seguir chegaram as canas de jigging, e hoje em dia temos uma infinidade de possibilidades. Trata-se de alta tecnologia, de operações de fabrico muito delicadas, porque tudo tem de sair bem feito. Os preços são obviamente mais caros que produzir canas em plástico. Claro que sim! A operação de esculpir o metal, controlar o processo de fusão com a fibra, controlar as temperaturas exactas a que isso tem de ser feito, gerir diferentes materiais, tecnologia de pintura e tecnologia de criação de conicidade, tiveram de se encontrar num só momento, para sair dali a cana que hoje temos disponível no mercado. São leves, sensíveis, resistentes, e ….oferecem-nos o peixe! Isso não é ser caro, é ser bom.
Um dia, todas as canas vão ser feitas utilizando este processo. A tecnologia SMT ajuda-nos a detectar movimentos minuciosos, muito ligeiros, de peixes que, até há pouco tempo não tínhamos possibilidades de detectar, ou apenas moviam um ou dois milímetros da nossa cana antiga. Os desejos, legítimos, dos pescadores quererem pescar mais e disfrutar mais, são infinitos. Queremos mais, queremos melhores canas.

Neste momento, é-nos por vezes possível adivinhar que tipo de peixe está a morder a nossa isca.
Um dia, no futuro, através da potência e frequência da picada de um peixe, saberemos entender com exactidão, sem dúvidas, qual a espécie que está a morder no nosso anzol. A tecnologia SMT faz-nos caminhar nesse sentido.

Estamos hoje …mais próximos.



Vítor Ganchinho



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