A LIBERTAÇÃO DE PEIXES - MÉTODO

Acontece pontualmente termos uma picada indesejada. Um peixe que aparece por acaso, como “by-catch”, e que não corresponde de todo a um exemplar que queiramos conservar na nossa caixa.
Para quem pesca vertical, isso acontecerá mais frequentemente, porque a selectividade daquilo que vai às iscas é menor. O mesmo tipo de isca, por exemplo navalha, ganso, casulo ou sardinha, faz parte da dieta regular de inúmeras espécies.
Será um pouco diferente para quem pesca com jigs, uma “arte” muito mais selectiva, mais dirigida a grandes exemplares, mas ainda assim é algo que pode acontecer.
Para todos os que fazem a sua isca/ amostra/ jig passar pelo fundo, há sempre a possibilidade de ferrar um peixe que não quereríamos ter na nossa linha.
Alguns desses peixes serão menos sensíveis a factores de variação pressão que outros. Sabemos que alguns deles não conseguirão, pelos seus próprios meios, voltar a atingir o fundo.
Um caso evidente é o das “Serranus cabrilla”, ou Serrano-alecrim, a nossa vulgar garoupinha da pedra. A quase totalidade, quando morde está a condenar-se à morte. Ao chegarem à superfície, e mercê de uma subida sempre mais rápida que o desejável, têm a sua bexiga natatória inchada, a rebentar. Esse peixe não consegue, pelos seus meios, voltar ao nível de pressão em que estava antes do acidente traumático da picada.

Os serranídeos são peixes que vivem junto ao fundo, caçando de emboscada, escondidos pelas pedras, lançando ataques rápidos às suas presas. Em termos de pressão interna, têm a sua bexiga natatória estabilizada à pressão da profundidade em que vivem. É verdade que podemos encontrar as nossas garoupinhas a 3 metros de fundo, ou a 130 metros de fundo. Mas o processo que as leva a uma e outra profundidade, é lento, suave, sua opção própria, e permite-lhes adaptar-se, com tempo, a diferentes níveis de pressão.
E o peixe faz isso de forma natural, sem qualquer tipo de sofrimento, estabilizando os seus níveis de gás internos. Não podem ter nem menos nem mais, dado que aumentando a flutuabilidade, disparam para cima, direitos à superfície. Reduzindo esse teor de gases na bexiga, ficariam sem ter a possibilidade de flutuar, de se manterem estáveis, e cairiam irremediavelmente sobre o fundo. Cada peixe tem a sua flutuabilidade própria, e no caso dos serranídeos, aquilo a que grosseiramente poderíamos chamar de “garoupas”, têm uma dificuldade acrescida, por não necessitarem, em termos fisiológicos, de estar adaptados a mudanças bruscas de pressão. Vivem sempre no fundo, qualquer que seja esse fundo, a cotas maiores ou menores. E por isso, quando sofrem um barotraumatismo, um acidente de descompressão, dificilmente recuperam.

É dever de qualquer pescador preocupar-se com o estado de saúde do peixe que, por acidente, morde no seu anzol com isca, ou no seu jig. Se aquilo que é corrente é que as pessoas lancem à água as nossas garoupinhas, também é verdade que ressalta à evidência a sua incapacidade de descer. Acabam por ser pasto para gaivotas, que cercam os barcos de pesca à espera da sua oportunidade. Que chega sempre. Matamos peixe inutilmente.
Podemos não valorizar o peixe em si em demasia, mas seguramente que fará falta ao meio ambiente. Ou não existiria. Trata-se de um predador eficaz, muito aguerrido, territorial, e que por isso mesmo resulta nas primeiras capturas de qualquer barco.
Mas não devemos pensar que a situação é igual em todos os países, em todas as latitudes. Não existem apenas garoupinhas a morder os anzóis. Também há os primos mais velhos, bem mais corpulentos, que o fazem: por exemplo os meros.
Sabemos das limitações máximas de peso de pescado por embarcação, sabemos quantos quilos pode pescar alguém que saia numa embarcação MT. Por isso, pode acontecer que seja necessário libertar o peixe.




Aquilo que vos trago hoje é a ideia de como o fazer, em termos técnicos. Mais do que sugerir a adopção deste sistema, aquilo que gostava era apenas de que soubessem que existe, e como se faz. Esse é o tema do blog de hoje.
Mandam as boas regras que se saiba como libertar um peixe em “melhores” condições de sobrevivência. Independentemente de esse peixe ter ou não possibilidades de vir a sobreviver. Da nossa parte devem ser-lhe dadas todas as que estão ao nosso alcance.
Assim, é bom saber que, caso tenhamos a picada de um mero, que pode facilmente atingir uma vintena de quilos, e caso já tenhamos peixe na caixa que excede, mesmo com a benesse do dito “ maior exemplar” como excepção ao peso máximo por lei, então fiquem a saber que devemos com um estilete pontiagudo, uma agulha, um alfinete, aquilo que tivermos à mão, perfurar a bexiga natatória, vazando algum do excesso de ar que se encontra no seu interior. Depois de uma picada na zona, passar a mão pelo ventre é normalmente suficiente.

O que é isso de bexiga natatória, onde está e para que serve? Vamos a isso:

A bexiga natatória é uma bolsa ovalada, localizada na cavidade abdominal, por baixo da coluna vertebral do peixe. Ocupa cerca de 5% do volume total do animal, e é de paredes moles, uma espécie de saco, que serve para controlar o nível de flutuabilidade do seu corpo.
E como é que isso acontece? A densidade de um peixe é de cerca de 1.05, ou seja o seu corpo é ligeiramente mais denso que a água que o circunda. Para poder flutuar, se quiserem para ter flutuabilidade neutra, esse peixe precisa de ter internamente um volume de ar/ gás de 5%. Ou cai para o fundo.
Tendo essa bexiga com gás, e cuja composição é oxigénio, gás carbónico e nitrogénio, o peixe pode evitar o gasto de energia que seria necessário para se manter a um determinado nível de água. Não a tendo, seria obrigado a nadar continuamente para cima, ou iria afundar. Infelizmente, a quantidade de gás que serve para uma determinada profundidade, leia-se pressão, não serve para qualquer outra. Ou seja, se o peixe afundar a pressão aumenta, a bexiga é comprimida e deixa de poder estabilizar o peixe. Logo terá de aumentar a quantidade de gás para compensar. Pelo contrário, se o peixe sobe, a pressão é menor, logo terá de se libertar de gás para conseguir o equilíbrio e a estabilidade a esse novo nível. Sabemos que o nível zero de atmosferas é o nível da água à superfície, a partir daí considera-se mais uma atmosfera de pressão a cada 10 metros.
Os peixes teleósteos possuem uma bexiga natatória que os ajuda a manter-se estabilizados. Alguns peixes que vivem no fundo, ou também conhecidos como peixes demersais bentónicos são desprovidos de bexigas natatórias e parece razoável que a flutuabilidade neutra não tenha uma vantagem específica para um peixe que está limitado ao fundo. Mas a maior parte, sim, tem. Para predadores que viajam muito ao longo da coluna de água, pode acontecer que essa bexiga de ar seja substituída por outras formas de equilíbrio hidrodinâmico. É o caso dos tubarões, que utilizam o seu fígado e a gordura que ele encerra, para produzir um sistema algo parecido. Deixam de estar sujeitos à deslocação restrita a uma determinada profundidade. As nossas tintureiras, tubarão muito comum entre nós, e que existe em permanência nas nossas águas, todo o ano, tão depressa estão à superfície para aproveitar os restos das nossas iscas, como afundam a uma centena de metros, a seguir a nossa baixada. Ou a comer um peixe que capturámos bem fundo. O facto de não terem uma bexiga de paredes moldes retira-lhes esta severa restrição de poderem movimentar-se livremente, de forma ascendente ou descendente.
A bexiga é pois um factor comum aos peixes ósseos. Infelizmente é o caso das nossas garoupinhas. Outros países, noutros continentes, têm uma quantidade de serranídeos tão grande que as suas capturas têm uma enorme predominância deste tipo de peixes de fundo. É o caso do Japão. E assim sendo, criaram um método de restituir o peixe ao fundo, que é aquele que podem ver abaixo. Estima-se que uma percentagem razoável de peixes venha a sobreviver ao nosso acto de pesca, o que é deveras positivo e importante.




Um peso, com a forma de um jig, que entra no lóbulo superior da boca do peixe, e que o irá arrastar para baixo. A linha liga à argola que vêem soldada ao gancho liso. Reparem que não tem barbela.
Quando chegado ao fundo, o pescador dá um esticão vertical na linha, o “gancho/ anzol sem barbela” sai e o peixe fica livre.
Aqui temos um modelo da marca Deep Liner, mas existem centenas de empresas a fazer o mesmo. Este acessório existe apenas para esta função, não se trata de algo para pescar, pelo contrário, é sim um peso fabricado para….libertar peixes.
Espero que tenham achado o sistema no mínimo….curioso.


Vítor Ganchinho



Artigo Anterior Próximo Artigo

PUB

PUB

نموذج الاتصال