AS CAVALAS CABEM NA CAIXA

A maior parte das pessoas vai à pesca e leva uma caixa para pôr o peixe. Pode ser uma velha lata de tinta, um balde de plástico, ou, se a pessoa em causa tem algum brio e gosta de peixe fresco bem conservado, leva uma geleira.
Não é comum pescarmos peixe que não nos cabe nas caixas, e por isso não estamos preparados para tal efeito.
Nem sequer sabemos no concreto o que faríamos se, num dia de loucura total, nos calhasse um peixe grande. Não estamos preparados para exemplares que excedam a choupa, o sargo, os carapaus, as cavalas.
Pois há quem faça isso todos os dias, quem pesque peixes grandes por profissão.


É um trabalho duro, o de aguentar firme quando surge a picada de um peixe deste calibre.


O material necessário para estes “trabalhos forçados” não é necessariamente o mesmo que utilizamos nas nossas pescarias caseiras.
Tudo é mais pesado, a começar no anzol. Mas ainda assim, podemos considerar que na pesca do atum o equipamento nem é dos mais pesados, pois trata-se de um peixe que aplica força, muita força, mas defende-se de forma franca, puxa utilizando o seu peso e a sua energia, sem exigências de maior quanto a baixos de linha “anti-dentes”, nada de estralhos em cabos de aço como teríamos de fazer para pescar barracudas ou tubarões.
O atum exige de nós muito esforço, muito dispêndio de energia física, mas nem sequer é um peixe demasiado perigoso de ter a bordo. Tenho relatos de um atum que, por força da intenção do pescador em forçar a sua entrada antes do peixe estar esgotado, acabou por dar ao rabo e com isso fazer desaparecer no mar uma cadeira de combate que estava aparafusada ao convés com seis parafusos em aço inox.
Recordo-me de um peixe que pesquei com uma linha super-fina, concretamente um nylon de péssima qualidade 0.70mm, incluindo o baixo de linha, e que por isso mesmo me obrigou a cuidados redobrados na missão de o pôr dentro do barco.
Que na altura era um semí-rígido pequeno, onde cada palmo de espaço era celebrado como se se tratasse de um campo de futebol. Lembro-me bem que, depois de o peixe estar dentro, e mesmo já muito cansado, aos primeiros saltos que deu a minha ideia era apenas encontrar forma de o voltar a pôr fora do bote. No fim, correu tudo bem.
Não interessa se a peça é obtida por pesca à linha, ou se na circunstância foi um atum feito com recurso a equipamento de caça submarina. Pode parecer mais fácil, mas não é muito mais fácil. No fim de tudo, está um “mastodonte” a bordo, e o barco não está feito para a função, tudo é mais frágil, e cada rabanada do atum pode destruir algo ou romper os flutuadores. E quem pode garantir que o peixe não tem um último estertor de vida e aplica alguma da sua força?


Um semi-rígido sofre muito com um peixe destes dentro. Longe da costa, tudo pode acontecer, e por isso mesmo, é bom que se seja católico fervoroso, e que se reze muito a Cristo por ajuda divina. Não é o meu caso, pelo que o risco é máximo. Não o quero repetir muitas vezes…aqui eu estava mesmo longe do porto de abrigo.


O momento crítico de ter o atum encostado ao barco, pode dar aso a duas possibilidades: ou o peixe rebenta a linha e vai embora, deixando-nos com cara de poucos amigos, ou o peixe entra a bordo. E aí, começa um calvário que pode ser bem pior que a primeira possibilidade. Nadar bem em águas abertas ajuda a enfrentar a situação.
Ter experiência prévia, ou pelo menos ter na embarcação alguém que a tenha, é sempre oportuno. A maior parte de nós começa por trabalhar as nossas pequenas tintureiras, que nos dão que fazer, aperta aqui, empurra ali, mas em rigor são inofensivas. E a seguir passamos para outros pesos-pesados, os atuns, um espadarte, um marlin. Pese embora alguma experiência anterior, um peixe destes nunca deixa de ser difícil.
Aquilo que ajuda verdadeiramente é que o baixo de linha seja potente, que se possa fazer força por ele. Nada pior que ter de inventar soluções que, à última hora e sem planeamento, são sempre um risco.
Uma linha fina deixa-nos “agarrados”, sem argumentos para aplicar força numa linha que não permite aplicar força. E volto a repetir, o peixe encostado ao barco aquilo que pede, apara além de alguma técnica, é….força.
Isto se a ideia for metê-lo a bordo.


A ideia de laçar o rabo do atum pode ser boa, mas implica alguma destreza, e a colocação do peixe em boa posição para isso.


Em embarcações pequenas, sem grandes condições para receber a bordo um peixe grande, aquilo que me parece mais avisado é mesmo fazer algumas fotos e libertar o animal.
Sobretudo quando a tripulação é constituída na generalidade por pessoas com alguma idade, sem grande condição física. No caso de queda ao mar, isso pode ser um problema complicado de resolver para os outros membros.
Mesmo em barcos grandes, e devidamente preparados para este tipo de pesca, pode acontecer que não seja possível embarcar o peixe. Vejam o exemplo de baixo, em que a portinhola é mesmo à justa para o atum.
Passar passa, mas é “à pele”, muito à justa. Peixes com centenas de quilos não se levantam em peso.





As cavalas não são propriamente um problema. Entram bem a bordo e até nos cabem na caixa…
Amanhã vamos ver uma situação em que vos aconselho a …cortar a linha.



Vítor Ganchinho



Comentários

  1. Boa noite! Consideraçoes muito pertinentes! Excelente artigo! De forma muito amadora já idealizei, ha alguns anos, algumas estrategias para tentar capturar um peixe maior! Cheguei a pensar em instalar um guincho manual na consola para a eventualidade! Talvez fosse uma opçao! Tambem tinha um metro quadrado de tela das que se poem nas piscina enterradas, de 3 milimetros de espessura, para colocar sobre o flutuador quando subisse o peixe! E andava com uma faca japonesa de 35cm para agarrar com silvertape a um remo, tipo arpao sem farpas, para terminar o sofrimento ao animal antes de o subir! Como ultimo recurso a estrategia seria rebocá-lo até ao porto! Temia era os tubaroes... atrás de um peixe ensanguentado rebocado por um semirigido! Aventuras que nunca aconteceram! Mas que pderiam ser muito perigosas!

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    1. Bom dia Ribeiro! Quando nunca se experimentou, parece que é tudo fácil. Há muita gente que nasce, vive e morre e nunca terá a oportunidade de medir forças com peixes maiores do que a pessoa em causa. E para essa gente, tudo parece simples, é fazer chegar o peixe ao barco, meter para dentro e já está.
      Depois vem a realidade, o fazer. E é aí que começam os problemas. Uma coisa é meter uma cavala de 0.5 kg numa caixa, outra um atum com 250 kgs. Não é igual....embora para muita gente pareça que os procedimentos a ter são os mesmos.

      Daí a minha chamada der atenção com este artigo.

      Abraço
      Vitor

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