PESCAS JIGGING PARA MIÚDOS

Quando lhes colocamos uma fasquia demasiado alta, e caso por algum motivo não tenham a capacidade de a ultrapassar, desinteressam-se e desistem da pesca.
Isso é tudo aquilo que não queremos. A expectativa que temos é a de levar os nossos filhos a pescar e que possam de alguma forma seguir as nossas pegadas num mundo ligado à natureza, ao espaço aberto, longe dos ecrãs, dos computadores, dos telemóveis.
Fazer com que gostem, que sintam o desafio de lançar um objecto metálico, um jig, para conseguir enganar um peixe, é trabalho para crescidos e um trabalho muito sério.
Devemos aplicar todos os nossos conhecimentos técnicos ao serviço de crianças que, por serem isso mesmo, têm formas de reagir ao insucesso diferentes de um adulto.
Com os pequeninos, os pequenos detalhes contam bastante. O mais importante de todos é o ritmo de pesca. Depois de os fazer acreditar que podem conseguir capturas com um jig, o passo seguinte é dar-lhes a possibilidade de conseguirem pescar sobre um cardume de peixe ávido de morder qualquer coisa que lhe passe perto.
Não adianta procurar peixes grandes e complicados de pescar. Uma criança não valoriza tanto a espécie de peixe pescada, é-lhe indiferente que seja um robalo, um pargo, ou uma cavala.
Tem de dar luta, tem de resistir à pesca, e isso, um qualquer cardume de cavalas ou sardas faz na perfeição. Quando conseguimos colocar o barco sobre um destes cardumes, e eles existem aos milhares junto à costa, temos a certeza de que aquilo que se vai seguir é um frenesim de tudo: de picadas, de gritos, de animação e alegria.


Se for possível, devemos tentar selecionar peixes com algum tamanho, dando realismo a uma prática de pesca que se pretende fácil, que é fácil, mas que para as crianças representa um desafio muito interessante.


Carapaus, sardas, são peixes que existem aos milhões, e pese embora a sua falta de valor em termos de troféu, servem perfeitamente para entusiasmar, para “meter o bichinho” da pesca em gente nova ávida de experiências ao ar livre. Os tempos de pandemia têm sido duros para todos e sê-lo-ão também para eles. Gente a crescer precisa de movimento, de agitação, e a pesca dá-lhes isso.
Na GO Fishing Portugal, quando saímos com gente nova no meio, e não só crianças mas também com adultos que se iniciam, damos uma importância acrescida ao factor emocional da pesca.
É muito importante que se preparem todos os mais ínfimos detalhes para que a pessoa se sinta ao mesmo tempo acompanhada por alguém que quer e pode ajudar, mas ao mesmo tempo deixando-lhe um espaço de descoberta, de iniciativa própria, de acção de tentativa e erro.
A sensação de que pode interagir com os peixes que estão debaixo do barco, através dos eu conjunto de cana/ carreto/ linha e jig, dá à pessoa a certeza de que tem nas suas mãos algo que o transporta para outra dimensão, outro mundo. O que se segue é invariavelmente uma corrida desenfreada à informação, ao querer saber como fazer melhor, a melhores e maiores peixes. É a pesca, em toda a sua essência.


Mostrar o nosso mar passa também por lhes dar o contacto dos golfinhos que acompanham o barco e são sempre motivo de alegria e felicidade a bordo.


Organizamos regularmente saídas de mar em que levamos gente nova, dos 8 aos 16 anos, em grupos até 4/5 pessoas, com um interesse que é comum: aprender a pescar e partilhar experiências.
Temos muitos casos de miúdos que trocaram contactos telefónicos, e-mails, e hoje são amigos uns dos outros, e encontram-se para sair juntos. O tema central é muitas vezes a pesca, porque nessas idades, conseguir vencer o desafio que a captura de um pargo pressupõe, é algo de muito interessante.
Com condições de mar e segurança garantidas, a responsabilidade de transportar gente nova é na maior parte das vezes facilitada por aceitarem sem “espernear” muito a colocação dos necessários coletes. Nem sempre os adultos os aceitam de bom grado.
A seguir, é aprender a fazer pesca jigging, é melhorar aos poucos a técnica e começar a ver os peixes a entrar na caixa. O jigging é algo de muito intuitivo, e os miúdos aprendem a fazer com enorme facilidade. Em zonas com muito peixe, a actividade é frenética e não lhes dá muito descanso. Verdade que eles também não o querem, acabam a trabalhar em conjunto, em equipa, para encher uma caixa de peixe. A qualidade é indiferente, mas sempre surge algo de melhor.
Poucas tarefas serão mais gratificantes para um guia de pesca que, no final da pescaria, olhar para os olhos de uma criança e ver o seu brilho intenso.



Vítor Ganchinho



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