E SOBRE "PALHACINHOS" PARA OS CHOCOS? - CAP. 2

E que “presente envenenado” podemos oferecer-lhes como isca?
Os chocos pescam-se essencialmente com toneiras, (também designados entre nós por palhacinhos), de diversos tamanhos e cores. Que cores funcionam melhor?
Esta é uma resposta que vale 1 milhão de euros. Em rigor, depende essencialmente da profundidade a que pescamos, da quantidade de sedimentos que se encontra em suspensão na água nesse dia, da corrente que se faz sentir nesse momento, da luminosidade do dia. Há pessoas para quem estar nublado ou um dia de sol não faz diferença nenhuma. Não fará mesmo?
A influência das marés conta bastante, pois não será indiferente pescar no fim da vazante, ou a meio da enchente. A água que vem do mar está sempre mais limpa que a água do rio.
Atenção a um detalhe: por uma questão de densidade acrescida, por ter mais sais dissolvidos, a água do mar que entra no rio, na enchente, fica sempre por baixo. Ou seja, podemos ter água tapada, turva, por cima, e ter uma água bem limpa junto ao fundo.
Se quiserem, podemos ir mais longe: junto à foz esse fenómeno será sempre mais marcado do que em zonas mais interiores, onde a mistura de águas já se fez há mais tempo.
Relativamente a cores, um critério eficaz é o de procurar respeitar os padrões das presas habituais que existem no local. Aquilo que o choco come por hábito, por rotina, é aquilo que o pode convencer a atacar uma incauta isca que passa nesse momento a seu lado.
Cores mais vivas para águas turvas, cores mais naturais para águas claras. Simples.
Sabendo que a alimentação do choco se centra muito em pequenos peixes, caranguejos e camarão, não podemos errar por muito.
Cores naturais, a puxar para os transparentes/ acastanhados/ laranjas dos nossos camarões nativos, resultam sempre. Nas tocas dos safios, em pedras ao largo, há por vezes centenas destes camarões. Mas dentro do rio também há algumas pedras, os chocos sabem onde.
Não gostaria que atribuíssem efeitos milagrosos a uma toneira em particular, não é tanto a cor em si, é mais a possibilidade de o choco poder ver o espectro de cor da amostra ou não, a forma como se pesca, e isso inclui a velocidade de recuperação, a forma como se balança/ excita a toneira no fundo.
Não esqueçam que existem palhacinhos de queda lenta, média e rápida. Isso é indicado na embalagem, e é mensurado por um critério de segundos/ metros.

Passo-vos um quadro de possibilidades, da marca Tsuriken, modelos Egista, à venda na loja GO Fishing Almada, (a cerca de metade do preço normal de mercado):

Clique na imagem para aumentar

Gostava de marcar bem um factor que penso ser meu dever chamar-vos a atenção: algo que entre nós é frequentemente desprezado, mas que tem uma importância acrescida e que é a velocidade de caída da toneira.
Sabendo que as formas são mais ou menos similares, aquilo que diferencia uns de outros é a sua densidade, ou se quiserem, o peso. O padrão standard andará pelos 2.3 a 2,7 segundos/ metro de afundamento.
Mas temos gente a pescar em águas rasas, não mais de 2 a 3 metros, e temos gente que pesca a 20 ou 30 metros de fundo. Sabemos que em função da profundidade assim devemos lastrar a toneira.
Em águas rasas isso nem é necessário. Mas mesmo com lastro, há que ter em conta este factor da velocidade de descida. Se há uma diferença de 20 ou 25 metros de uma situação para outra, poderão utilizar o mesmo palhacinho? Não me parece.
Também os tamanhos que existem no mercado são muito padronizados, com pesos de referência também eles muito similares: Tamanho 3.0 - 17 gr, tamanho 3.5 - 23 gr. Mas há excepções, há produtos preparados para situações diferentes.
Na GO Fishing existem modelos Daiwa já lastrados, com peso interno, até 30 gramas. Evitam os enleios de fios dedicados à chumbada, dado que apenas fica suspensa uma linha, e não duas.


As melhores marcas trazem sempre algumas indicações na patilha metálica afundante. Reparem acima a indicação do tamanho da peça: 3,5.


As agulhas são muito importantes. São elas que nos trazem o choco à superfície, e são elas que pela sua maior ou menor solidez nos irão garantir o ângulo certo no momento em que o cefalópode ataca a toneira. Quando são fracas, acabam por abrir e às tantas, e quantas vezes sem repararmos, já estamos a pescar com uma toneira de agulhas demasiado abertas. E o choco vai embora. 
Aquilo que faz a diferença de preços na maior parte das toneiras tem exactamente a ver com a qualidade deste componente. Os modelos topo de gama trazem agulhas em aço carbono, que é mais rígido, não abre ao esforço continuado da pesca.




Sabendo que muitas pessoas gostam de pescar os chocos durante a noite, quando a sua actividade é mais pronunciada, os fabricantes trataram de desenvolver palhacinhos com emissão de luminosidade atractiva. E nesse aspecto, a oferta é muito diferenciada, desde os vulgares bioluminescentes, até modelos cuja luminosidade é obtida a partir de activação ultravioleta UVA, a partir de uma lanterna LED. O tecido de cobertura mantém esta luz durante algum tempo, e a seguir volta-se a activar, durante alguns segundos.
Para aqueles que ainda acham que uma pequena diferença de tonalidade faz toda a diferença no acto de pesca, pois deixem-me desiludir-vos. Na verdade, os chocos têm dos nossos palhacinhos uma visão algo distorcida, se a compararmos ao que os nossos humanos olhos veem. Para que tenham uma ideia, é algo muito parecido com isto:







Ou seja, as diferenças conforme podem ver nas fotos da direita, serão mínimas, e por isso mesmo, atribuir efeitos milagrosos a uma toneira é dar-lhe importância demasiada e não merecida.
O que há sim é produtos que estão mais adaptados às condições que naquele momento específico o pescador enfrenta. Falamos de peso, de flutuabilidade, de tamanho, e da forma como essa toneira é excitada pelo pescador.
Bem sei o quanto se pode ter fé numa toneira. A partir do momento em que a pessoa apenas acredita naquela cor, naquele modelo específico, não vai utilizar qualquer outro.
Acredita piamente que sem aquilo não é possível pescar chocos. Mas a principal razão pela qual pesca muitos com essa toneira em especial é que ...não utiliza as outras.
Devem os pescadores preocupar-se em conseguir encontrar o padrão de comportamento do choco. Se conseguirem perceber se estão alvorados, se estão enterrados na areia, (os dias de vento mais forte provocam isso, o choco enterra-se para não sofrer os efeitos da corrente), se estão muito activos a comer, ou se pelo contrário nesse momento estão em fase de repouso, poderão trabalhar de forma a estimular desta ou daquela forma as picadas.
Experimentar diversos tamanhos de toneiras, cores, tempos médios de caída, leva a que se encontre o padrão certo para esse momento. Mas não é universal, não é “para sempre”, porque as condições de mar mudam. E há que voltar a procurar de novo o modelo certo. De manhã cedo, antes do sol nascer será um e com o sol a pino, a meio da tarde, será outro. Daí a importância de se ter uma caixa de amostras, e não apenas uma.
Na minha modesta opinião, ser o primeiro pescador a passar uma toneira pelos "beiços" do choco nesse dia é bem mais importante que ter a cor certa. Mas isso dificilmente poderemos garantir quando pescamos todos juntos, ao molho, como eu vejo fazer. Como saber que zona já foi pescada? Assim, ter o equipamento certo acaba por ter a sua importância.  

Vejam abaixo como para uma mesma cor é possível encontrar diversas nuances de cor em águas escuras, ou noite:




A pesca ao choco só nos últimos anos começou a desenvolver-se a sério no nosso país. Se já é feita desde tempos imemoriais, e por gente que sabe muito bem aquilo que está a fazer,
a verdade é que recentemente as pessoas passaram a abrir os olhos para a sua facilidade e resultados garantidos. Mas noutros países, e nomeadamente no Japão, é uma pesca com séculos, a alto nível.
E por isso, eles sabem mais que nós. Mostro-vos abaixo um utensílio Daiwa muito utilizado para matar o choco, mas também para endireitar as agulhas, sendo caso disso:




Amanhã vamos voltar a esta questão da pesca ao choco, tendo em conta os modelos de toneiras mais em voga no Japão neste momento.



Vítor Ganchinho



3 Comentários

  1. Olá !! Desde já, os meus sinceros parabéns pelo excelente blog.

    Aqui vai uma pergunta de um leigo na matéria :

    No que diz respeito ao "tempo de queda" do palhaço, tendo em conta que uma grande parte das pessoas que pescam ao choco (na zona de Setúbal), fazem-no de barco usando a deriva do mesmo, a uma profundidade que pode variar entre os 3 e os 40 metros.

    Na montagem, a grande maioria das pessoas usa uma chumbada que pode variar entre 20 a 80 gr (dependendo de cada um), quando a chumbada chega ao fundo a mesma vai arrastando em virtude da deriva do barco e fica o palhaço a trabalhar a cerca de 1m a 2m da chumbada.

    Tenho noção que um palhaço sem o chumbo agarrado ao corpo trabalha de forma diferente de um que não o tenha, este último fica muito mais flutuável (penso eu).

    Tendo em conta o que escrevi em cima, podiam-me explicar no que pode influenciar o tempo de queda do palhaço sabendo que o mesmo estará a trabalhar 2 metros acima do fundo ?Quanto mais rápida a queda maior é a proximidade ao fundo ??

    Desde já os meus sinceros agradecimentos.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom dia Sérgio

      Tenho muito gosto em tentar ajudar.
      A pesca ao choco que é feita em Setúbal beneficia de condicionantes muito favoráveis. Tal como a pesca da dourada, um peixe que encontra na zona estuarina do Sado excelentes condições de reprodução, e pode eventualmente ser o melhor spot de pesca da Europa, (ainda melhor que os pesqueiros do sul de França), também a pesca do choco demonstra bem a riqueza de condições que existem. Estamos a tratar de um local que ano após ano tem vindo a provar a sua excelência, e não é por acaso que existem autênticas peregrinações de pescadores que chegam a vir do interior, da fronteira espanhola, e do Algarve, pescar chocos a esta zona!
      Haveria mais chocos se houvesse mais responsabilidade. Servem-se em Setúbal pratos de ovas de choco!! Como sabe, os chocos depositam as ovas em qualquer superfície sólida que permita a fixação dos cachos. Por vezes isso acontece inclusive nas redes que são colocadas para os pescar. Em termos de consciência, somos uma perfeita nulidade, os nossos princípios conservacionistas são primários. Comemos as ovas dos chocos....
      Sobre a questão da utilização de toneiras com diferentes velocidades de queda, aquilo que se oferece dizer é que a técnica corrente de pesca ao choco utilizada em Setúbal, e pese toda a experiência e possibilidades de experiência existentes, é perfeitamente rudimentar, e
      pouco evoluiu nos últimos 100 anos. Na verdade, pesca-se como sempre pescaram os varinos das aiolas. A quantidade de choco é tão grande que tudo permite. Se alguma evolução ocorreu, foi apenas a passagem da tradicional linha de mão para a cana de pesca. Mas isso apenas toca à queda e recolha da toneira. Tudo o resto não passa de mais do mesmo.
      As pessoas fazem aquilo que veem fazer! E enquanto resultar, enquanto houver chocos não é necessário fazer mais.
      Quem pesca de igual forma da 3 e a 40 metros, não precisa de toneiras de densidade diferente. Não acha estranho que a profundidade seja indiferente?! Quando a pressão de pesca de pesca for demasiada, ainda mais alta, e os resultados forem medíocres, as pessoas vão interrogar-se sobre a necessidade de terem diferentes velocidades de queda no palhacinho. E vão interrogar-se sobre a questão dos lançamentos, da animação da amostra, etc. Para já é cedo. Os japoneses pescam a fazer darting, a provocar o choco na sua tendência de caçador de pequenas presas, e por cá, o que fazemos é prender uma chumbada e deixar andar junto ao fundo. Imagine o que não há que evoluir. Fazer a distinção entre profundidades de pesca, e as óbvias diferenças técnicas, será um primeiro passo. Para quem utiliza uma chumbada de 80 gr, e aquilo que faz é deixar arrastar a toneira pelo fundo, o peso do palhaço é indiferente. Passa-se a acreditar que é a cor do palhaçinho que faz tudo. Acredita-se em cores milagrosas, em toneiras esotéricas, benzidas! Quando deixar de pescar de forma passiva, deixando a chumbada a rolar pelo fundo, vai entrar num outro mundo de possibilidades. Há mesmo muita coisa a inovar, e há fundos altos suficientes pata testar isso. Mas implica trabalho, pesquisa, e obtenção de conhecimento. É uma fase a seguir ao que se faz agora.

      Veja alguns filmes passados há uns meses aqui no blog. Ajuda.

      Cumprimentos
      Vitor

      Eliminar
    2. Resposta super elucidativa, parabéns novamente.

      No que toca à preservação da espécie, não estou totalmente de acordo em relação ao consumo das ovas, pois as mesmo só se geram em chocos adultos e por norma com tamanho aceitável e as maiores casas que mais vendem essa iguaria, felizmente o choco não é das nossas águas.
      Poderia-se, quem sabe, fazer uma data especifica de "defeso" da pesca ao choco, não vejo outra forma.

      Por outro lado enerva-me ver "choquinhos" à venda nos nossos mercados de peixe, isso sim, um autêntico atentado à espécie.

      Em relação à evolução/adaptação, dava pano para mangas esta conversa.

      Mas em relação a esse assunto, Vitor disse tudo : "Quando a pressão de pesca de pesca for demasiada, ainda mais alta, e os resultados forem medíocres, as pessoas vão interrogar-se sobre a necessidade de terem diferentes velocidades de queda no palhacinho. E vão interrogar-se sobre a questão dos lançamentos, da animação da amostra, etc. Para já é cedo."

      Certamente os Japoneses não pescavam da forma que o fazem hoje em dia, provavelmente as quantidades começaram a escassear e como todo o ser humano, teve que se adaptar e daí a sua evolução. "A necessidade aguça o engenho"


      Vou procurar esses filmes e mais uma vez obrigado pela resposta.

      Forte abraço.


      Eliminar
Artigo Anterior Próximo Artigo

PUB

PUB

نموذج الاتصال