O FAMOSO PARASITA ANISAKIS... DAS LULAS

Todos nós, antes de sabermos, …não sabíamos.

A formação de mar é contínua e dura até ao último dia de pesca da nossa vida de pescadores. Por mais que concentremos os nossos esforços em abarcar o máximo de informação, por mais que estudemos detalhes relativos a assuntos marinhos, há sempre algo que pode acontecer que é novo, que sai fora do âmbito das nossas competências e conhecimento. E isso aconteceu-me bem recentemente, com um episódio que não resisto a contar-vos, pela sua singularidade.
Fiz uma saída com dois simpáticos alemães, gente de Munique que tem no seu palmarés pescas feitas em lagos, a lúcios. E nada mais que isso.
Uma saída de mar feita na zona de Setúbal é sempre agradável para quem vem de fora, e mais ainda quando o hábito é pescar um peixe a cada 8 horas (leram bem, esse é o ritmo habitual deles…) de pesca. Nós fazemos peixe a uma cadência infinitamente mais rápida, por mau que esteja o dia. E estava. O vento persistente e a água fria, a 14ºC, não prenunciavam nada de extraordinário. Mas manda a pesca que o pescador trate de se adaptar às condições que tem diante de si, e que faça o melhor que lhe é possível. E foi o que fizemos, utilizando jigs de 30 a 40 gr, aproveitando os peixes activos do fundo: pargos, bicas, sargos, e lulas. Por sinal, um simpático besugo resolveu morder o meu jig, facto de não deixa de ser estranho. O besugo não é um alvo declarado da pesca jigging em lado nenhum, mas quando se pesca com algo que imita uma pequena sardinha, …tudo pode acontecer.
As lulas eram de bom tamanho, e lançavam-se aos nossos jigs com entusiasmo. Se uma ou outra escapava, outras não tinham tanta sorte e acabavam na caixa de peixe.
Um dos meus convidados alemães levantou uma delas com cerca de 1 kg. E tratou de a levar para casa, para um jantar a dois.

E a história começa aqui, nesta lula atrevida que se lançou a um jig e teve pouca sorte.


A foto que veio colocar tudo em causa. Perante isto, a primeira reacção foi de prudência, o que em situações de saúde pública é a primeira medida a tomar.


Estava eu a limpar os equipamentos de pesca do dia, lavar as linhas, os jigs, lubrificar os carretos, etc, quando nisto recebo uma mensagem WhatsApp com uma foto e um pedido de esclarecimento: “Isto é algo de preocupante?’”…
A foto que podem ver acima acompanhava a frase, que, vinda de um estrangeiro no nosso país, exigia uma resposta clara e imediata.
Porque não gosto de inventar, antes prefiro sustentar as minhas opiniões em dados concretos, “método científico oblige”, resolvi enviar a foto a um especialista em peixes e doenças de peixes da Europa.
Nem mais nem menos que o António Pradillo, de Valência, meu amigo pescador e de quem tanto já tenho falado nestas páginas. Ele trabalha para um instituto espanhol e faz controlo de espécies invasoras, doenças, etc.
Mas a resposta tardou. E na falta dela, outra pessoa que costuma sair com ele poderia eventualmente ter já visto algo parecido: o Raúl Gil, outro dos monstros sagrados da pesca europeia.

A contestação à minha foto não tardou: “ Vitor, isto é um parasita Anisakis!! “...
Dizia-me ele: _"Não é preocupante, mas exige que não se coma o peixe em cru, tem de ser cozinhado, tem de passar pelo fogo. Ou a lula tem de ser congelada, porque isso também mata o bicho. Mas não tenho dúvidas de que se trata de uma lula infectada com um parasita”!

Perante tal evidência, e porque os meus amigos tinham pescado mais lulas, apressei-me a dar a informação de que deveriam deitar esta fora. Fora de questão aproveitar uma lula que parecia infectada, quando eles tinham muitas outras sem qualquer problema.
A mensagem seguiu, e recebi o ok da parte dos alemães. A última coisa que queria naquele momento era que pensassem que o peixe em Portugal está todo infectado com doenças, o que nem é verdade.
Porém, passados uns minutos, António Pradillo liga-me e diz-me: “Olá Vitor! Eu estava a conduzir na autoestrada e por isso não podia parar. Agora entrei numa estação de serviço e já posso colocar os olhos nisto. Estive a ver isto com atenção e não há aqui nada de estranho. Isto é o sistema reprodutor da lula, que é um macho, e que está a formar os espermatóforos! Estes são os sacos brancos que contêm o esperma”.

Como dizer agora aos alemães que afinal...?
Enchi-me de brios e procurei explicar que sim, afinal a lula era comestível, (depois de ter dito que deveriam deitar fora!...), mas que seria bom limparem bem. E cozinharem na base de um grelhado feito em brasa forte.
A última coisa que me convinha na circunstância era que um deles, ou os dois, tivessem qualquer tipo de intoxicação alimentar, ou necessidade de recorrer a um hospital com problemas de estômago.
Estava um incidente diplomático germânico em causa, com repercussões negativas para o nossos país e para o turismo nacional. E tudo à conta de uma lula.
Fui ler algo sobre as consequências da ingestão de alimentos contaminados com Anisakis. E o que é isso?

Anisakis é um parasita do trato gastrintestinal de mamíferos marinhos. Ovos excretados evoluem e liberam larvas de nado livre, que são ingeridas por peixes e lulas; a infecção humana é adquirida pela ingestão desses hospedeiros intermediários crus ou mal cozidos.
Assim, a infecção é particularmente comum em locais como Japão, Coreia e outras regiões em que tradicionalmente peixe cru é consumido. As larvas escondem-se no estômago e no intestino delgado dos seres humanos.
É seguro comer sushi comercialmente preparado nos Estados Unidos e em outros lugares em que o peixe é congelado sob condições que matam as larvas de anisaquídeos.

Fiquei um pouco mais descansado. Se o resultado final de um problema deste tipo, e que decorre da ingestão de peixe de água salgada cru, ou mal cozinhado, e não passa de dores abdominais, vómitos e pode ser tratado através da remoção cirúrgica das larvas, ...do mal o menos.
Fui um pouco mais fundo: A anisaquíase, parasitose em humanos, atinge cerca de 2000 indivíduos por ano e está relacionada com os hábitos alimentares. Assim, é mais frequente em países Asiáticos, em particular o Japão, e em comunidades piscatórias europeias e sul americanas. A Europa contribui com cerca de 3,5% para o total de casos. Contudo, devido ao aumento de popularidade da culinária exótica, nomeadamente o aumento do consumo de sushis e sashimis a nível mundial, esta parasitose tem tido um aumento de incidência. A. simplex e P. decipiens, são vulgarmente referidos como o verme do arenque e o verme do bacalhau, respectivamente. São vermes redondos e não segmentados apresentando-se com 1 a 6 cm de comprimento. A sua epiderme segrega uma cutícula que protege o parasita dos sucos digestivos do hospedeiro. O seu ciclo de vida é complexo envolvendo vários hospedeiros. A morfologia detalhada é variável dependendo do hospedeiro e da fase do ciclo de vida em que se encontra.

Principais sintomas de infecção por Anisakis
Os humanos são hospedeiros acidentais das larvas de nemátodos. Quando ingeridas, estas larvas não conseguem atingir o estado adulto. Os seus movimentos provocam ulcerações nas paredes do estômago ou do intestino e eventualmente atingem o fígado, os pulmões ou outros tecidos.
As manifestações clínicas mais frequentes são distúrbios gástricos (infecção com a larva) ou reacções alérgicas (químicos libertados pelo parasita no peixe).
Os sintomas da infecção com a larva surgem normalmente uma a duas horas após o consumo do peixe contaminado e incluem cólicas abdominais e vómitos. No estômago a larva em movimento provoca ulcerações com náuseas, vómitos e dor epigástrica, algumas vezes com hematémese (vómito com sangue). As larvas podem migrar para a parte superior atacando a orofaringe e causando sensação de formigueiro ou prurido e tosse podendo mesmo ocorrer a excreção de nemátodos. No intestino delgado, causam granulocitose eosinófila (aumento anormal do número de eosinófilos no sangue) e os sintomas podem ser semelhantes aos de uma apendicite. Os casos severos implicam a remoção física do nemátodo por intervenção cirúrgica.
No caso das reacções alérgicas, mesmo depois de bem cozinhado um peixe contaminado pode colocar em risco a saúde humana uma vez que, durante a infecção do peixe, os parasitas produzem compostos aos quais alguns indivíduos são alérgicos. Estes indivíduos podem apresentar reacções anafiláticas severas após consumo de peixe que foi infectado por estes parasitas. Estas reacções são difíceis de identificar, confundindo-se, por exemplo, com as reacções alérgicas ao peixe ou ao marisco.
Evitar o consumo de peixes e de frutos do mar crus ou mal cozinhados é uma das formas importantes de prevenção da infecção. O parasita é inactivado no peixe por cozedura a 60ºC durante 10 minutos, por congelação durante pelo menos 7 dias e por irradiação.
A evisceração imediatamente após a captura é recomendada para evitar a migração das larvas da cavidade intestinal para o músculo.


Esta uma das minhas lulas, também conseguida com um jig armado com um triplo à cauda, na circunstância um “Little Jack” de 40 gr. Mesmo por um único tentáculo, a verdade é que as lulas sobem, quando recolhemos linha com a devida calma, devagar. Até porque o frio da manhã aperta...


E assim sendo, continuaremos a comer os nossos queridos peixes, na certeza de que eventualmente alguns deles poderão mesmo ser portadores de algum…Anisakis.
Uma informação segura, vinda de gente com responsabilidades na matéria, diz-me que o bacalhau, um peixe que é profusamente utilizado na nossa lusa culinária, está infectado com Anisakis a…100%. Todos têm, não há um único peixe que esteja livre deste parasita.
E nós iremos continuar a comer bacalhau, seja assado na brasa, em caldeirada, à Braz ou à fragateira.
Pois ficam a saber que o fiel amigo, está SEMPRE infectado com este dito Anisakis.

Bom apetite!



Vítor Ganchinho



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