DOS PIORES SÍTIOS ONDE JÁ PESQUEI...

Quando estamos em boa companhia, tudo nos parece bem.
Para pescar, a mim tudo me serve, desde um aquário com um peixinho laranja, ou uma saída à apanha da ameijoa no meio da lama. Gosto de pesca e por isso tudo me serve.
Mas reconheço que alguns dos sítios onde já pesquei serão tudo menos apresentáveis. Digamos que, comparados com aquilo que temos aqui à porta de casa, com os nossos robalos, os nossos pargos, as nossas douradas, ficam a dever um pouco à qualidade.
Hoje trago-vos um registo de uma saída de pesca em Yokohama, Japão, onde fui recebido da melhor forma possível, por gente amiga e muito simpática, que tudo fez para que eu me sentisse bem.




A questão é que aquilo que tinham para me oferecer era algo de muito estranho, a sair um pouco dos nossos moldes habituais de pesca.
E é disso que vos vou falar, para que tenham uma ideia de como se sofre por esse mundo fora, para conseguir lançar umas linhas.


A minha amiga Cheng-Cheng, equipada para ir à pesca, com um casaco de malha e uma mala Gucci.


A embarcação fretada para esta saída estava ancorada a meio de um canal que dá acesso ao mar a algumas centenas de metros de distância. Não deixa de ser estranho passar com o barco por debaixo de pontes, e ver pessoas nos edifícios a acenar-nos, quando saímos.
A temperatura estava gélida, à volta dos 4ºC, com um vento frio, de cortar a respiração. Por azar dos Távoras, a minha mala de porão tinha ficado em Lisboa e só me apareceu ao fim de alguns dias, pelo que acabei por ir pescar com uma roupinha pouco quente que tinha utilizado na viagem. Quando temos os dedos gelados, qualquer tarefa nos parece impossível, mas aquilo que tinha de fazer, segundo o mestre da embarcação, era apenas deixar cair o jig e recolher devagar. Os robalos fariam o resto.




Confesso que tinha alguma expectativa, sei bem dos tamanhos respeitáveis que os robalos suzuki podem atingir naquelas águas, a passar 1 metro de comprimento, pelo que me sujeitei a apanhar uma “carraspana” valente, para conseguir um.
Saímos dos canais e já em mar aberto, reparei que o skipper se dirigia para uma estrutura de pilares, à saída de um aeroporto. Para mim, que já pesquei a fazer buracos no gelo na Finlândia, já tudo me parece bom. Mas a paisagem pouco ou nada teria a ver com os meus mares de Setúbal, e desde logo pela cor da água, que era autêntico barro acastanhado. A visibilidade não seria superior a um metro, o que já me respondia à questão levantada pelo dono da embarcação “ recuperem os jigs muito lentamente…”. Claro que sim, fazia sentido, porque o oposto, o speed jigging, aquilo que se faz em águas livres muito limpas, leia-se as nossas ilhas, cuja água é sempre muito azul e tem mais de 15 metros de visibilidade, não daria ali qualquer resultado. Os peixes precisam de algum tempo, por pouco que seja, para perceber que têm uma isca à frente, quando as águas são lama.
O equipamento também não ajudava muito mas todos sabemos que quando vamos para longe, pescamos com aquilo que calha, com o que nos dão, e não com o que gostamos.




Comecei a pescar naquele frigorifico, e apenas rezava para que os dedos não se partissem.
Os robalos apareciam, embora de tamanho modesto, sem fazer grande justiça às expectativas que eu tinha criado. O robalo japonês, conhecido por robalo suzuki, é um robalo ligeiramente diferente do nosso, embora os instintos predadores sejam idênticos. Não notei diferenças de comportamento significativas, mas que o aspecto exterior difere muito, isso sim.
O frio matava-me! A dada altura, faltavam-me calorias para conseguir enfrentar aquela rijeza. E perguntei se teriam uma sandes. Claro que tinham que aquela gente é organizada.
Tinham uma sandes de arroz! Para um alentejano de Moura que aguenta com um pão casqueiro e umas quantas costeletas assadas na brasa, aquilo era praticamente igual.
Envolto numa capa de algas, ali estava a minha sandes de arroz, com um molho algo envinagrado. Seja.




À mingua de robalos grandes, atrevi-me a sugerir que deveríamos talvez retornar ao hotel. Os meus dedos cheios de frieiras, a falta de luvas e de mais algum agasalho aplaudiram a ideia, mas pelos vistos não encontraram reciprocidade do lado nipónico: ainda teríamos de ir a outro sítio, esse sim, infalível, com robalos a rodos e todos grandes.
Renitente mas em minoria, aceitei a sugestão, com o coração apertado pelo vento frio que me gelava os ossos. Mas se era por um suzuki japonês, pois sim.
O pesqueiro em questão era nem mais nem menos que o casco de um petroleiro.
Ao ver aquilo, o meu sangue congelou nas veias, e achei que era demais para mim. A possibilidade de me lançar à água e nadar para terra não estava fora de questão, mas manda a etiqueta e boa educação que se deve pelo menos lançar uma vez onde nos dizem que é mesmo bom, a matar. E lancei. Lancei umas cinquenta vezes e nada. Senti-me um pouco anormal a lançar contra o casco do navio, mas se era assim...
Ao fim de uma hora sem qualquer toque, achei que devia reagir. Os portugueses têm fama de ser bons organizadores de motins, e foi por aí que fui, honrando todos aqueles que se amotinaram contra o grande comandante Vasco da Gama, por exemplo. Provavelmente tão fartos de comer cabedal das botas demolhado em água quanto aquilo que eu estava de sandes de verdura, esses marinheiros que Deus tem não pouparam nas tentativas de virar a proa às caravelas e voltar para casa. Era só isso que eu queria naquele momento: voltar a terra e beber um chá quente.
Quando estamos gelados, um cházinho bem quente, leia-se a ferver, para queimar a boca, as goelas e o estômago, vale dinheiro!


Isto são figuras que se façam?! Achar que um pesqueiro destes pode dar robalo grande é ou não é gozar com quem trabalha?


Nem sempre as coisas correm bem quando vamos à pesca. Cada saída é uma aventura, e devemos estar sempre preparados para o pior.
Mas neste caso, “este pior” era mau a valer! Só o facto de estarmos encostados ao petroleiro, com vento, ocasionalmente a bater no casco, já me incomodava.
Também me afligia pensar que os tripulantes poderiam eventualmente não gostar de ter gente mesmo por baixo da âncora de reserva. A água na zona era uma sopa de caldo verde e nada daquilo que convencia de que teria a menor chance de conseguir um suzuki valente.


Pensei para mim mesmo: “ Que bom que era se o pesqueiro levantasse âncora e se fosse embora...”


Lembrei-me de lançar uma ideia para cima da mesa: “_Então e que tal uma valente almoçarada de sushi?!!”...
A ideia era vencedora, mais ainda porque a quantidade de restaurantes ao ar livre não é muita.
O céu nublado ajudava a considerar a minha opção, e acabámos todos, principalmente eu, por concordar comigo. O retorno foi penoso, os robalos suzuki de grande tamanho tinham faltado à chamada, e quando assim é, não há moral que resista. A entrada no restaurante foi algo de triunfal, apoteótico, principalmente para mim. Estava calor lá dentro.




A comida era aquilo que se pode chamar de um assunto secundário, e por sinal não era a pior. Apenas o sistema de pagamento me merece um reparo. Tentem imaginar que alguém se senta num banco corrido, que diante de si está um tapete rolante onde passam pratos de todo o tipo, e que, em função da tentação, o artista vai retirando este e aquele. Aos sorrisos de quem está dentro do balcão a empratar sushis e sashimis de empreitada, devemos tentar corresponder com algumas tentativas de provar o que ali vem.
No fim, e considerando que cada tipo de comida é servida num prato especifico para essa cor, basta recolher os pratos de cada cliente, somar quanto vale cada prato, e a conta está feita. 

Engenhoso?



Vítor Ganchinho




Comentários

  1. Se ao menos o petroleiro tivesse la no fundo ...eheheheh

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    1. Eu fiquei sem pinga de sangue, depois de ter feito quase uma hora de barco, para ir ao "tal" pesqueiro...que era nem mais que um barco. Com tudo o que isso tem de aleatório....hoje está aqui e amanhã despareceu...

      Conheço um local onde há centenas de barcos afundados, são alguns km de destroços, que deve ser o sitio onde eu vi mais peixe por metro quadrado. Chama-se "Èpaves de M`Bao" e é um aproveitamento brilhante daquilo que era um areal deserto. É uma massa de peixe, que acaba por sair para os outros locais, porque o peixe em excesso acaba por se afastar. E todos lucram com esses recifes artificias, onde é impossível lançar redes.
      Vou lá em Julho.

      Abraço
      Vitor

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    2. Pode ser que cá pensem nisso, ja se faz alguns recifes artificiais mas podiam fazer bem mais

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    3. Esta situação depende de muitos ministérios diferentes. Demasiados....
      Poderíamos facilmente duplicar o peixe que temos na costa. Desde que os bichos tenham refúgios onde não posam ser atacados, multiplicam-se a mil, num instante.
      Eu vi dentro de navios afundados ( a zona apenas tem 12 metros de fundo) milhares de saimas com pesos acima de 4 kgs, sargos aos rebolos, etc...
      É uma massa de peixe. Vou lá voltar em Julho.

      Abraço
      Vitor

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  2. Fazer uns recifes artificiais com contentores cheios de betão preparados para servirem de recife com bastante tocas seria uma bela ideia

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    1. Boa tarde


      Tudo aquilo que se coloque num areal deserto, é positivo. Ao fim de um ano, estará colonizado por milhões de micro-organismos que irão atrair pequenos peixes. A seguir, os peixes que comem esses peixes irão aparecer, e no fim aparece tudo o que é grande. As pessoas não se dão conta do potencial que tem este tipo de estruturas.
      No Senegal, como eles são pouco de andar com tremeliques, fazem e pronto, a quantidade de DCP´s ( ver artigos anteriores sobre isso) fazem com que se capturem toneladas de peixe que de outra forma não estariam acessíveis. A existência de uma estrutura atrai peixe e a seguir a isso, é toda uma cadeia alimentar que se forma, até ao topo da pirâmide.
      Pés-de-Galo, contentores, navios velhos, tudo serve para que os senegaleses lancem a fundos que de outra forma seriam apenas desertos sem qualquer utilidade. E por isso eles têm peixe a rodos...


      Abraço
      Vitor

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    2. E por cá também seria possível fazer o mesmo, não fora o facto de haver tanta gente a querer assinar papéis.

      Manias....

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