O ROBALO, ESSE MALANDRO... CAPÍTULO 1

Estão a despertar agora, a sair em definitivo dos seus buracos escuros e protegidos das correntes, onde passaram os últimos dois meses.
As saídas, a seguir ao período de acasalamento são esporádicas, curtas, e servem apenas para capturar alimento. A actividade do robalo é muito reduzida e perfeitamente localizada em períodos curtos do dia/ noite que trazem vantagens acrescidas para o peixe. As marés ditam esses movimentos.
A seguir à reprodução, que na nossa zona vai de Dezembro a Fevereiro, e pese embora as águas geladas, o peixe precisa todavia de repor energias, ganhar peso, conseguir renovar gorduras corporais que lhe permitam continuar a enfrentar as águas mais frias do Inverno/ início da Primavera.
Para isso, e logo desde que sente o crescente arrefecimento à sua volta, muda a sua alimentação para peixes gordos, de maior tamanho, que lhe tragam o aporte de calorias indispensáveis à manutenção do seu metabolismo.
É o tempo das cavalas, das tainhas de tamanhos respeitáveis, dos carapaus, e tudo aquilo que tenha peso, gordura e aminoácidos. Todo este processo é passado a profundidades abaixo daquilo que o peixe costuma operar no Verão. Pescam-se em Sines robalos a 120 metros de fundo, com jigs.
Mas assim que a água começa a aquecer, assim que os raios de sol começam a projectar-se nos primeiros metros de água, o chamamento da caça puxa-o para zonas menos fundas. Se a água aquece, (e isso pode ocorrer apenas pontualmente, por termos uns dias de chuva, ou por termos alguns dias mais soalheiros, ou por chegada precoce de correntes de águas mais favoráveis), é certo que a migração para zonas mais produtivas irá acontecer.
Para termos certezas de que o encontramos em Abril/ Maio, período para pesca spinning por excelência, teremos de o procurar nas zonas onde ele é obrigado a estar, onde pode encontrar facilmente a sua comida, as zonas costeiras mais baixas.
Os peixinhos pequenos nascidos e desenvolvidos num meio ambiente extremamente favorável como são as águas ricas em nutrientes da foz de um rio, são presas fáceis para um oportunista declarado que os persegue até poucos centímetros de profundidade.
A quantidade de alimento disponível é imensa, e é aproveitada. Dos caranguejos aos camarões, dos alevins de várias espécies de peixes aos pequenos chocos, tudo interessa a quem está desenhado para operar neste meio ambiente tão sui generis.
Um predador tão versátil que poder viver em água salgada de mar aberto, e ao mesmo tempo suporta na perfeição as misturas de águas dos estuários, um ser que controla sem problemas o nível de sais presentes no seu corpo, tem vantagens acrescidas sobre todos os outros. Ele pode lá estar!
Quem poderia de resto fazer-lhe frente? Quem poderia substituí-lo, ousar ocupar o seu lugar neste biótipo marinho? A distribuição de anchovas no nosso país é escassa, (as ilhas dos Açores têm muitas mas por cá é um peixe meramente residual), pelo que o campo de batalha da foz dos rios é propriedade do “Dicentrarchus labrax”, o nosso agressivo robalo.


Há robalos aqui dentro. Os cabos de amarração dos barcos impedem qualquer veleidade de tentativa de captura. Por fora, a saída de águas residuais atrai as tainhas, e eles chamam a isso comida. Não é necessário mais nada. De resto, todas as marinas nacionais são autênticos SPA´s para os nossos peixes, mesmo que na vazante fiquem apenas com um ou dois metros de água. Chega.


Maternidades perfeitas, as zonas estuarinas criam toneladas de peixes que um dia serão os nossos gloriosos peixes troféus de alto mar. Se poderiam criar muito mais? Sim! Claro que sim! Mais que as redes e outras armadilhas que o homem coloca, é a poluição o maior factor de risco que os peixes, na sua fase mais frágil, (ainda dentro do ovo), enfrentam, antes de se lançarem a uma aventura de vida que deveria terminar num peixe adulto, desenvolvido e reproduzido. Milhões de óvulos não chegarão sequer a eclodir e isso é uma derrota para todos nós, que não sabemos fazer mais que lançar produtos químicos diversos, que matam sem remissão os nossos hipotéticos futuros peixes. Outros felizmente sobrevivem, criam-se, e quando atingem a idade certa, o peso certo e maturidade para se lançarem para o mar aberto, saem.
O ciclo repete-se ano após ano. As sucessivas levas de peixes que chegam a tamanhos mínimos que garantam a sobrevivência no exterior, vão embora e irão repovoar as depauperadas pedras da nossa costa.
Mas se é verdade que ao pescarmos nos baixios estaremos sempre perto de peixes juvenis, (libertar sempre!) porque é aí que eles se criam, também não devemos subestimar a possibilidade de cruzarmos a nossa amostra com um “torpedo” de peso XXL.
Há robalos no rio acima de 8/10 kgs, peixes que entendem que há mais zonas de segurança dentro do rio, junto à cidade, em construções ribeirinhas humanas, que fora, em águas abertas. O teor de metais pesados nos músculos destes bichos será certamente elevado, o que desaconselha o seu consumo.
Mas podem ser pescados e libertados. Sei de quem os consegue pescar e entrega a “amigos” que vendem na praça de Setúbal, …não olhando a meios para fazer algumas notas.
A forma mais fácil de fazer a distinção entre robalos que vivem no exterior, em águas abertas e os robalos que fazem a sua vida nas zonas interiores, pode ser apenas a cor com que nos aparecem: cinza/ azulado escuro no dorso dos que vivem fora, e verde/ amarelado nos que vivem dentro.
A diferença de visibilidade das águas e a necessidade de camuflagem obriga a este cambio.
Porque conheço bem a zona de Setúbal, posso dizer-vos que há alguns pontos, de dificuldade extrema para os pescadores de redes, (os pilares e cabos metálicos da cimenteira Secil não perdoam a quem meta por lá as suas artes….!), os pilares dos pontões de atracação dos ferry´s de Troia, as plataformas de carga de viaturas da Auto-Europa, as imediações dos estaleiros da Lisnave, e outros pontos já bem dentro do rio Sado, etc. Onde o homem não chega, o robalo fica e repousa das suas correrias nocturnas. Apenas necessitam de segurança, porque o resto eles fazem.
Comida nunca será um problema pois os estuários de qualquer rio nacional serão sempre um frigorifico replecto, de porta aberta, para estes tremendos predadores.


O interior do estuário do Sado, (ou qualquer estuário!!), é uma zona onde o robalo se pode esconder, com menos possibilidades de bater contra uma rede de emalhar.


Zonas com algas atraem camarões, que se escondem e descobrem ao ritmo das marés e da força das correntes. E quem temos capaz de enfrentar as correntes mais fortes e persistentes? Sim, o robalo!
As areias e vazas destas zonas são autênticos viveiros de vermes arenícolas, de minhocas, de bivalves, de galeotas, lagostins, e alimentam uma população significativa de peixes com algum tamanho. As lamas que ficam dos movimentos de marés, desta cíclica azáfama da baixa mar/ preia mar, deste tapa e destapa de água, criam milhões de pequenos seres a que os predadores capazes de viver aqui chamam de alimento. Se soubermos ser discretos e estivermos atentos, vamos ter a possibilidade de ver ataques a cardumes de pequenos peixes a poucos metros da praia, muitas vezes em menos de 25 cm de água. Quanto mais quentes estiverem as águas do estuário, mais possibilidades teremos de assistir a este fenómeno.
E que amostra devemos utilizar nesta circunstância?
Pois nada menos que algo que imita na perfeição um peixinho em pânico, eventualmente ferido ou doente: o stickbait, uma amostra de superfície sem pala, muito leve, que pode por nós ser trabalhada de muitas formas diferentes, mas que na sua essência significa uma presa fácil, de captura pouco dispendiosa em termos energéticos. Ser um peixe desorientado, dar o sinal de presa fácil num meio tão impiedoso quanto o meio aquático é assinar uma sentença de morte.


O robalo passeia-se bem perto destas concentrações de peixes, à procura de uma oportunidade.


Um passeante a deslizar na superfície é facilmente percebido e atacado. Podem subir alguns metros, se sentem que algo passa num rumo errante, descontrolado, aos soluços.
É isso que fazemos quando damos pequenos toques de ponteira e fazemos a amostra saltar e largar ligeiros borrifos de água laterais. Como em tudo na vida, nem a menos nem a mais. O excesso de animação pode assustar o predador, que não reconhece na nossa amostra o comportamento típico de um peixe ferido, ou diminuído no seu sistema de controlo de flutuabilidade. Vejo pessoas a lançar amostras e a recolher de forma tão abrupta e violenta que mais parece não quererem pescar nada do que possa andar por ali.
A ausência de animação também não estimula em demasia o robalo, pelo que devemos zelar para que a marcha da nossa amostra, (sem pala, repito), seja irregular, crie uns sulcos, uma leves ondas, entrecortadas por paragens e arranques mais rápidos.
Nada que não se invente no local, pois ser criativo faz parte da nossa costela de pescadores. Encontrar o ritmo certo faz parte do processo de aprendizagem. Mais cedo ou mais tarde, chegamos lá e isso dá-nos o nosso padrão de recolha próprio.
Aquilo que o torna único é o facto de acreditarmos nele, e isso vem com os peixes de bom tamanho... dentro da geleira.

Onde procurar?

Temos duas possibilidades mais evidentes: as zonas de paredões das cidades, e as zonas de praia.
Necessariamente a forma de trabalhar cada uma delas será diferente e por isso vamos dedicar a cada uma um capítulo deste artigo.
Amanhã vamos caminhar com a nossa cana de spinning pelos pontões, paredões e rochas altas.

À hora do costume, aqui estaremos.



Vítor Ganchinho



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