CORES DE AMOSTRAS - CAPÍTULO III

Um outro dado sobre o qual não falámos aqui é o factor vento. Mas de que forma pode o vento mudar a cor das nossas amostras?!
Sim, o vento pode criar condições à superfície que mudam a cor com que os peixes conseguem ver as nossas amostras. É isso que vamos ver hoje.
Se considerarmos uma superfície plana, sem ondas, com os raios de sol a penetrarem verticalmente na água, temos as condições ideais de visibilidade.
Embora exista absorção imediata de luz, ainda assim há uma parte importante que consegue ir para baixo.
Mas isso só muito raramente acontece. Vejamos então o que acontece quando temos a superfície do mar com irregularidades causadas pela força do vento.
Temos ondas, temos vagas, e o espelho de água calma já é uma miragem.
Agora vamos ter de encontrar respostas para condições de pesca mais duras, mais difíceis. Quando temos agitação marítima, o que de resto acontece quase todos os dias, a distância a que a luz consegue chegar é bastante menor e muito mais irregular.


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Assim, temos que para uma mesma capacidade de penetração de luz, os raios luminosos que entram na parte alta das ondas, vão chegar a uma profundidade inferior aos raios luminosos que incidem sobre o plano de água inferior, a parte mais baixa da onda.
Mas vejamos de que forma isto se pode complicar: Estamos a partir do princípio que os raios solares entram verticalmente e todos na mesma direcção.
Mas as ondas oferecem superfícies irregulares, inclinadas, e isso irá desvirtuar este raciocínio simples. Vai complicá-lo. A água irá, pela sua inclinação de onda, distorcer a entrada dos raios de luz, e assim, direcioná-los em diversos sentidos. Vai haver aquilo que chamamos de refracção. E ainda reflexão, ou seja, alguns raios de luz irão ser reflectidos para outras ondas. E desta mistura de ângulos de penetração não pode resultar nada de bom para as cores das nossas amostras.
Na verdade, a luz que nos é tão preciosa, acaba por se desvanecer, por se perder neste labirinto de espelhos. E o resultado final é o que podem ver no quadro da direita, abaixo:


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À medida que estes factores se agravam, teremos menos e menos luz disponível. E a nossa amostra/ jig já só é visível, conforme nós a vemos, a poucos metros da superfície.
A quantidade de raios de luz que passa as primeiras camadas de água é cada vez menor, à medida que as condições de mar pioram. E menos raios de luz, menos visibilidade no fundo.
Assim sendo, temos que existe um factor que, no mesmo local e com a mesma visibilidade, pode fazer desaparecer as cores da nossa amostra mais rapidamente: as ondas, provocadas pelo vento.
Por outras palavras, os vermelhos e os laranjas, para dias de vento, serão sempre piores que outras cores. Porque serão absorvidos ainda mais depressa, em situação de ondas formadas. Certo?

Parece que já está tudo, mas ainda falta um outro factor: como é que a água suja, com suspensão, pode afectar a visibilidade da cor das nossas amostras, e quais as cores que nos trazem vantagens nessas condições.
É isso que vamos ver a seguir. Para conseguirmos ter uma ideia precisa das diferenças entre águas cristalinas e águas sujas, iremos olhar para este gráfico:


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Assim, temos que os vermelhos, laranjas e amarelos desaparecem ao fim de alguns metros.
Por isso mesmo, quando vamos escolher uma amostra na nossa caixa, devemos ter em consideração que, perante condições adversas, estas cores são de evitar.
Pelo contrário, os verdes e azuis mantêm-se visíveis até alguma profundidade. Por isso mesmo serão quase sempre uma boa opção.
Só o poderemos saber quando chegamos ao local de pesca, pelo que é vantajoso dispor de várias alternativas. Para quem pesca junto a rios, é de pensar que se nos últimos dias houve um temporal com chuva abundante, pode ser lógico pensar que houve saída de águas com arrasto dos ribeiros, logo, a água estará turva, barrenta. Se estamos a pescar num dia de muito vento, sabemos então que os raios de sol não irão penetrar tão profundamente.
E aí teremos de optar por cores que sejam visíveis não obstante estas más condições. Cores escuras ajudam. Também podemos pensar que em condições mais difíceis, devemos utilizar amostras/ jigs que sejam mais vibrantes, mais chamativas, porque queremos dar ao peixe a possibilidade de as detectar e sentir mais longe. Se a visibilidade é curta, queremos fazer com que os nossos enganos, sejam amostras ou jigs, sejam visíveis e audíveis mais longe, mais tempo.
O peixe precisa dessa referência, no meio do turbilhão de sons, ruídos e informação que recebe. O sistema operacional de caça já não são os olhos, mas sim a linha lateral e isso é estimulado de forma diferente.
Em dias “fáceis” de águas limpas, com muita visibilidade, voltamos às cores neutras, naturais, e as amostras passam a ser trabalhadas de maneira muito mais discreta.
Nem os predadores acreditam que aquilo que faz tanto ruído e agitação possa ser uma presa, porque não tem o comportamento natural de uma presa. Na melhor das hipóteses não reagem, e se o fizerem é para encetar uma fuga rápida do local onde pescamos.
Nestes dias, pescamos de forma mais pausada, com a amostra a passar suavemente na água, mais lenta, conforme os robalos sabem que farão todos os peixinhos pequenos que procuram passar despercebidos.

Faz sentido?



Vítor Ganchinho



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