IR À PESCA NUM BARQUINHO... OS PEIXES... CAPÍTULO III

Nós utilizamos linhas de nylon 0.50mm e achamo-las razoavelmente fortes. É de resto um diâmetro de linha muito utilizado por quem faz baixadas para pescar a maioria dos peixes da nossa costa.
Mas há quem procure por linhas 1.50mm e as ache ainda assim... fracas.
Tudo neste mundo é relativo, depende sempre do contexto.
Quando nos parece que estamos a pescar numa zona quase sem peixe, por apenas termos um ou outro toque esporádico, não estamos a considerar outras zonas do globo onde os pescadores esperam horas e horas por uma picada. Tenho amigos na Alemanha que me ligam, a meio da noite, eufóricos porque pescaram uma carpa de 300 gramas, depois de 10 horas de espera.
Em África, pesca-se muito mais. As possibilidades de sucesso são infinitamente maiores, por existirem maiores concentrações de vida. Mas também as preocupações com a robustez do equipamento são maiores.
Porque os peixes estão armados com dentes que cortam linhas como navalhas de barba. Se queremos um termo de comparação podemos pensar nas nossas tintureiras, ou nas anchovas, que também têm dentes do tipo lâmina. Acabam por ser um pesadelo, um factor limitante, que obriga ao recurso a diferentes estratégias de pesca.


Alguns tipos de peixes não podem, sob nenhum pretexto, ser desferrados à mão. Um alicate é obrigatório...


Quando recebi uma chamada na loja a pedir um encontro comigo, não achei estranho. Há muitas pessoas que o fazem, ou porque não estão seguras do tipo de equipamento mais indicado para este ou aquele tipo de pesca, ou porque querem mesmo discutir detalhes sobre pescas exóticas, extremas. E obviamente estarei sempre disponível para quem pretende dar dois dedos de conversa sobre... pescar em África. Vibro imenso com a possibilidade de ser útil a alguém que vai viver emoções fortes e quer ter certezas.
A experiência ganha em muitos anos de rodar por aquelas paragens deram-me uma ideia daquilo que resulta, e mais ainda do que é completamente inútil.
Em terra de gigantes, não podemos ter a veleidade de tentar resolver as situações com... ”paninhos quentes”. Tudo o que é esforço de pesca em paragens africanas exige equipamentos à altura, mais fortes, mais robustos, porque também os peixes têm argumentos que os nossos não possuem.
Para além dos dentes, há um outro factor que nos obriga a subir o nível de resistência dos materiais: o peso.
Se nos parece que um dos nossos pargos de 10 kgs já faz força, imaginem ter ferrado um peixe que consegue engolir esse nosso pargo...


Barracuda de 32 kgs, feito com um jig Daiwa de 100 gramas, adquirido na GO Fishing Portugal.


A questão que se coloca tem a ver com o tipo de pesca praticado: quando estamos nos nossos barcos, temos uma altura que pode variar de 80 cm a 2,5 metros de altura de amura, pouco menos ou pouco mais.
Quando se pesca a bordo de um navio cargueiro, são intermináveis metros de altura. E isso muda tudo.
Se quisermos pescar a 50 metros de fundo, teremos de ser capazes de fazer chegar o nosso isco a esse nível, mas temos ainda de contar
com duas dezenas de metros a mais, e sobretudo que o peixe vai ser içado fora de água, o que não ajuda de todo.
Tudo fica comprometido: o equipamento de pesca tem de ser sólido o suficiente, as linhas não podem ser fracas, os anzóis, etc. E mais que isso, a boca do peixe tem de aguentar a pressão.
Não será de todo fácil pescar em semelhantes condições. Peixes com bocas fortes, aguentam o anzol cravado e não rasgam. Mas outras espécies mais sensíveis de maxilas acabam ingloriamente por ceder, tornando o acto de pesca muito decepcionante.
Também o local onde o anzol crava é de fulcral importância, e aí, se pescamos com isca orgânica, podemos ajudar, oferecendo ao peixe alguns segundos a mais para que tenha tempo para engolir o engano. No caso da utilização de jigs, dependeremos sempre da eficácia do ataque, da precisão com que o peixe conseguiu morder o nosso jig.


Um delicioso dourado, ou Mahi-Mahi, ou se quiserem um “Coryphaena hippurus”. Um lutador por excelência que vende cara a derrota. Aparecem no Algarve e nas nossas ilhas, sendo nitidamente um peixe do largo, um pelágico que vive bem, mas no azul. Seguem os navios, pelo que acabam por ser uma presa habitual.


A equação tem dados aos quais não podemos fugir. Vamos ter um peixe com peso, vivo e a debater-se, e esse peixe tem dentes capazes de cortar linhas finas.
Logo, a primeira solução é apostar em linhas mais grossas, que possam roçar nos dentes sem cortar. É mais fácil de dizer que fazer, porque depende sempre da zona de ferragem.
Se o peixe vem preso com o anzol fora da boca, não há história. Aí, a resistência linear da linha manda. Mas se o peixe engoliu o isco ou amostra, então temos a considerar a possibilidade de ele vir mesmo a cortar a linha, quer na luta até à superfície, quer a partir daí, e até chegar ao convés. O desgaste das linhas na dentição dos peixes é um drama quando falamos de peixes predadores com dentes acerados.
Não é igual levantar um peixe morto, que é apenas um peso, ou um peixe que luta, que se debate, e que mercê desses esforços para se soltar, acaba por exercer uma pressão acrescida sobre a linha.
A solução mais imediata é mesmo a utilização de cabos em aço. Na maior parte dos casos resolvem, pese embora o incómodo que todos sentimos por pescarmos com semelhante baixada.
Sempre que possível, a linha de nylon deve receber a nossa preferência. Em zonas com muitos barracudas, ou se ao largo, em águas azuis, os Wahoos, (ou cavala da Índia), é esquecer, cabo de aço e não se fala mais no assunto.
Mas outros componentes sofrem também os efeitos dessa peleia: os anzóis, que, se não preparados para o efeito, na maior parte dos casos acabam por abrir. Marcas como a Shout, a FUDO ou a Daiwa preparam os seus anzóis com as características certas para este tipo de peixes. São feitos em arame de aço com diâmetros superiores aos usados na Europa, e com tratamentos térmicos, químicos e mecânicos indicados para o efeito.
Também, no caso dos jigs, devemos ter em atenção a carga de rotura das anilhas, quer as sólidas, de ligação do jig ao nylon, quer as divididas, as que irão receber os anzóis. De nada serve preocupar-nos com as linhas se não tivermos atenção a este detalhe, (um pacote de anilhas tem um preço tão irrisório quanto 2 euros), mas pode facilmente comprometer todo o resultado do dia.


Ter um cardume de barracudas a caçar ao lado do barco é sinónimo de muita agitação a bordo. Há países onde estes peixes não são comestíveis, (ciguatera), mas na maior parte deles sim, e dão alegrias ao cozinheiro que precisa de peixe fresco.


Por paragens africanas, e falamos de habitats normalmente muito bem preservados, a pesca com isca orgânica pode trazer-nos problemas acrescidos. Em zonas com muito peixe concentrado, e o lançamento ao fundo de uma iscada de peixe reúne à sua volta muitos pretendentes, é quase inevitável que surjam tubarões a dar uma espreitadela no que se passa.
E eles são impiedosos, se detectam a isca, não há dúvidas de que esta será atacada. Com tudo o que isso terá de inconveniente. Desde logo porque é certo que iremos ficar sem a baixada, ou sem a linha, ou sem todo o equipamento de pesca. Tudo depende do tamanho do mastodonte que nos calhar em “sorte”. Porque se há tubarões pequenos, também os maiores podem surgir de onde menos se espera, mesmo em águas rasas. E quando um destes com 4 ou 5 metros aboca a isca, ...é ter um camião a fazer força sobre o nosso carreto e cana.
Por isso mesmo, a utilização de jigs em detrimento de iscas naturais tem vindo a ganhar adeptos. Não serão jigs anti-tubarões porque isso não existe, também os podemos ferrar dessa forma, mas o número de ataques reduz drasticamente, e isso são boas noticias para nós.
O jig, ao não propagar qualquer tipo de cheiro ajuda-nos, evitando atrair de longe estes peixes. Mantendo ainda assim as características necessárias para ser efectivo perante os outros tipos de peixes.
Aqueles que nos interessam.



Vítor Ganchinho



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